Quando a fronteira deixa de ser fronteira: O alerta da Polônia diante de uma Europa que começa a descobrir o preço da omissão

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Durante um contundente pronunciamento no Parlamento Europeu, o eurodeputado polonês Dominik Tarczyński colocou diante do continente uma pergunta incômoda: quem está assassinando cristãos na Nigéria — e por que grande parte do mundo permanece em silêncio?

A perseguição é real.

Grupos extremistas como Boko Haram e Estado Islâmico da África Ocidental atacam comunidades, sequestram religiosos, destroem igrejas e impõem o terror em diferentes regiões da Nigéria. Segundo a organização Open Doors, 3.490 cristãos foram mortos por causa de sua fé em 2025, mais do que em qualquer outro país.

Existem também muçulmanos entre as vítimas dos jihadistas. A tragédia nigeriana mistura extremismo religioso, banditismo, disputas por terras, conflitos étnicos e uma dolorosa incapacidade do Estado de proteger sua população.

Mas reconhecer essa complexidade não pode servir de desculpa para esconder a perseguição sofrida pelos cristãos.

Tarczyński relacionou esse drama ao problema migratório europeu. Em seu discurso, acusou governos de esquerda de terem aberto as portas do continente sem mecanismos suficientes para distinguir refugiados legítimos, imigrantes econômicos, criminosos e possíveis extremistas.

A declaração é política e generalizante. Nem todo imigrante é criminoso, muito menos terrorista. Milhões procuram apenas segurança, trabalho e uma oportunidade de vida.

Mas essa verdade humanitária não elimina outra igualmente importante: nenhum país pode renunciar ao direito de saber quem entra em seu território.

A POLÔNIA ESCOLHEU PROTEGER SUA FRONTEIRA

Desde 2021, a fronteira entre Polônia e Belarus tornou-se palco de uma grave crise.

A União Europeia acusa o regime de Alexander Lukashenko, aliado de Moscou, de utilizar migrantes provenientes do Oriente Médio e da África como instrumento de pressão contra os países europeus.

Em maio de 2024, o jovem soldado polonês Mateusz Sitek, de 21 anos, foi atingido no peito por uma arma improvisada (lança) introduzida através da cerca. Ele morreu dias depois.

O episódio provocou indignação nacional. A Polônia reforçou as barreiras, criou zonas de segurança e ampliou a proteção jurídica para soldados e agentes que precisem empregar armas com munição real em situações de ameaça.

A legislação não concede uma licença indiscriminada para matar. O emprego da força continua condicionado à necessidade e à proporcionalidade. Mas o governo polonês deixou uma mensagem clara: a fronteira existe e seus defensores não serão abandonados.

CEUTA MOSTROU A DIMENSÃO DO PROBLEMA

No final de julho de 2026, aproximadamente 72 mil pessoas atravessaram irregularmente a fronteira entre Marrocos e Ceuta, território espanhol localizado no norte da África.

Em poucas horas, multidões avançaram por terra e pelo mar, escalaram barreiras e contornaram quebra-mares. Segundo autoridades espanholas, cerca de 70 mil pessoas foram posteriormente devolvidas ao Marrocos. Entre 3 mil e 5 mil teriam permanecido inicialmente em Ceuta, além de aproximadamente 1.100 menores desacompanhados que não podiam ser sumariamente enviados de volta.

A travessia também produziu uma tragédia humanitária.

Pelo menos 72 pessoas morreram tentando chegar ao território espanhol. Ceuta ficou sobrecarregada, sem estrutura suficiente para abrigar milhares de pessoas e identificar rapidamente quem havia entrado.

O governo marroquino ajudou posteriormente a bloquear novas tentativas e a receber os repatriados. Existem suspeitas de que o controle da fronteira tenha falhado deliberadamente, mas a responsabilidade do governo do Marrocos pela abertura da passagem ainda não foi comprovada.

A CRISE ATRAVESSOU O MEDITERRÂNEO

As consequências de Ceuta não ficaram limitadas à Espanha.

A Itália restabeleceu controles sobre viajantes vindos do território espanhol, alegando preocupação com possíveis riscos migratórios e de segurança. Em resposta, a Espanha anunciou inspeções sobre passageiros provenientes da Itália.

Pressões semelhantes continuam sendo observadas nas rotas do Mediterrâneo, nas Ilhas Canárias e na fronteira oriental da Europa, especialmente entre Belarus, Polônia e países bálticos.

Contudo, existe um dado que precisa ser apresentado honestamente: de acordo com a agência europeia Frontex, as travessias irregulares nas fronteiras externas da União Europeia caíram 37% no primeiro semestre de 2026, chegando a aproximadamente 132 mil registros.

Portanto, não existe uma explosão uniforme em todas as rotas. O episódio de Ceuta foi uma concentração excepcional e brutal de pessoas em um único ponto.

HUMANIDADE NÃO SIGNIFICA INGENUIDADE

Uma política migratória responsável deve proteger quem foge da guerra e da perseguição.

Mas precisa igualmente combater traficantes de pessoas, identificar criminosos, impedir a entrada de extremistas e assegurar que as leis do país de destino sejam respeitadas.

Misturar todos os muçulmanos com jihadistas seria uma injustiça. Assim como seria ingenuidade fingir que grupos extremistas jamais se aproveitam das rotas clandestinas e da falta de controle.

O discurso de Dominik Tarczyński é duro, provocativo e contém generalizações políticas. Mas toca numa questão que a Europa adiou durante muitos anos:

“Quem controla suas próprias fronteiras continua sendo uma nação; quem renuncia a esse controle entrega seu destino ao acaso.”

A Polônia escolheu demonstrar que acolhimento e soberania não são conceitos incompatíveis.

Talvez seja essa a verdadeira mensagem dirigida à Europa:

Ajudar quem precisa, sim.

Receber quem respeita as leis, sim.

Mas jamais transformar compaixão em rendição — nem permitir que a liberdade dos que chegam destrua a segurança daqueles que já estavam.

E a França, hoje ocupada, é o melhor exemplo disso.

Foto de Jayme Rizolli

Jayme Rizolli

Jornalista.

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