Forças Armadas sucateadas: Um retrato da deprimente situação das forças de segurança no Brasil
13/08/2026 às 09:39 Opinião
Foto ilustrativa
Quando o ministro da Defesa declara que as Forças Armadas estão sucateadas, a primeira reação do brasileiro deveria ser de preocupação e a segunda, talvez, de perguntar: - “Mas sucateadas quanto?”, porque no Brasil até o sucateamento parece ter hierarquia.
Há equipamento que não funciona, viatura que não anda, aeronave que precisa de manutenção, navio que não navega e, dependendo da situação, talvez até soldado que precise olhar para o almoxarifado antes de perguntar se existe munição.
Mas a questão fica ainda mais preocupante quando olhamos para a ponta da segurança pública, onde policiais militares enfrentam diariamente situações em que o improviso parece ter sido promovido a estratégia oficial, imaginando-se, por exemplo, um pobre cabo de uma Polícia Militar estadual de plantão, em um posto policial situado justamente na entrada de uma favela conhecida pela intensa atividade do tráfico, recebendo um telefonema dizendo: - Estamos indo para aí destruir essa merda.
O zeloso policial, evidentemente preocupado, liga imediatamente para o Comando-Geral: - Senhor, informaram que estão vindo destruir o posto. O que faço? Do outro lado da linha, depois de uma breve reflexão estratégica, vem a orientação: - Saia daí correndo!
É uma ordem operacional simples, objetiva e, sobretudo, econômica que não exige munição, blindagem, reforço, helicóptero, planejamento, exigindo apenas que o cabo tenha boas pernas e talvez seja esse o novo conceito brasileiro de segurança pública: quando faltar equipamento, sobra velocidade.
Mas há outro episódio que poderia perfeitamente figurar no manual de sobrevivência das forças de segurança da República. Durante uma ronda, o comando avisa pelo rádio: — Viatura, atenção! Homens fortemente armados foram vistos nas proximidades do Banco do Brasil. Dirijam-se imediatamente para o local!
A resposta da patrulha é quase um tratado de logística militar: - Negativo, comandante. O carro está com pouca gasolina, os pneus estão carecas e só temos dois revólveres enferrujados.
Silêncio no rádio e vem a pergunta que nenhum manual de estratégia conseguiu responder: - Então o senhor quer a gente vá lá fazer o quê?
Talvez bater na porta e pedir aos criminosos que aguardem enquanto a viatura procura um posto de gasolina, talvez negociar: - Senhores, pedimos a gentileza de interromper o assalto por cinco minutos porque estamos com problemas mecânicos ou quem sabe, a Polícia Militar tenha inaugurado a modalidade “ronda contemplativa” aproximando-se do perigo, observando, registrando e retornando para a base antes que o veículo pare definitivamente.
O problema, evidentemente, não está nos policiais que recebem ordens para enfrentar homens fortemente armados e precisam ter condições mínimas para cumprir essa ordem de modo que não se pode exigir coragem de quem o Estado não fornece meios adequados para sobreviver ao cumprimento do dever.
E aqui termina a piada, porque, por trás do cabo que recebe a ordem para fugir e da viatura que não consegue chegar ao local da ocorrência, existe uma questão muito séria: sucateamento não é apenas uma deficiência administrativa, pode significar risco concreto para quem trabalha na segurança e para a população que depende dela.
Forças Armadas, polícias militares e demais instituições de segurança precisam de planejamento, manutenção, treinamento, equipamentos adequados, combustível, veículos em condições de uso e estrutura compatível com as missões que recebem.
Não se trata de defender luxo, ostentação ou arsenais cinematográficos, mas de garantir o mínimo já que o Estado não pode mandar alguém enfrentar o perigo munido apenas de bravura, boa vontade e um veículo que pede aposentadoria, porque coragem é virtude, mas coragem sem equipamento pode virar sacrifício e nenhuma política de segurança deveria depender da esperança de que o criminoso tenha a gentileza de esperar a viatura chegar.
No Brasil entretanto, ainda corremos o risco de transformar a falta de recursos em doutrina: - “Se não tem gasolina, vá a pé. Se não tem armamento, vá com fé. Se vierem destruir o posto, corra e se conseguir escapar, preencha o relatório.”
No final, talvez o verdadeiro equipamento de alta tecnologia ainda seja aquele velho conselho: “Cada um por si — e Deus por todos” só faltando descobrir se Deus também tem verba para manutenção
José H.C. Abreu.
Articulista