A inflação que não existe: Miriam Leitão vira piada (veja o vídeo)
13/08/2026 às 19:26 Opinião
No nosso Brasil de cronistas mil, finalmente uma delas que fala todos os dias pelos cotovelos, se pronunciou dizendo que a economia alcançou um estágio de desenvolvimento que os grandes pensadores da humanidade jamais conseguiram imaginar: a inflação pode existir sem que o cidadão precise senti-la.
Foi o que explicou a economista global, ao afirmar, com a segurança de quem observa a economia pelo retrovisor de um carro oficial, que a alta da inflação seria, em boa medida, uma ilusão, uma espécie de sensação econômica que não corresponde exatamente à realidade.
A tese é tão reconfortante que o cidadão que chega ao supermercado com cem reais poderia, quem sabe, sair de lá com cento e dez — bastando acreditar firmemente que os preços não subiram.
A explicação é aparentemente simples: enquanto alguns produtos sobem, outros caem de modo que segundo essa extraordinária filosofia econômica, não haveria motivo para o consumidor entrar em pânico, porque se o arroz sobe, talvez o tomate caia, se o feijão aumenta, quem sabe a batata faça uma promoção e se a carne dispara, o consumidor pode olhar para a prateleira e contemplar, com esperança, a mortadela.
O problema é que o cidadão pobre não faz compras com uma planilha de economista debaixo do braço, tem apenas uma renda mensal, aluguel, luz, água, gás, transporte, remédios, material escolar e, principalmente, precisa comer e é justamente aí que a matemática da economista começa a apanhar da realidade, porque a inflação que interessa ao cidadão não é aquela que pode ser suavizada por médias estatísticas, ponderações e sofisticados modelos econômicos, mas sim a inflação que aparece no caixa do supermercado.
É o preço do arroz, do feijão, do óleo, do leite, do pão, do gás, daquilo que não pode ser simplesmente eliminado da lista porque aumentou, pois, afinal, ninguém chega ao caixa e diz: - Minha senhora, como o tomate caiu de preço, vou levar três quilos de felicidade e descontar da conta.
A situação já era bastante curiosa quando o próprio presidente, já tinha oferecido sua contribuição à ciência econômica, dizendo que o cidadão deve viver dentro daquilo que dispõe mensalmente para alimentar a família de modo que se não puder comprar carne, compra frango e se não puder comprar frango faz uso da linguiça da forma que melhor lhe aprouver.
É uma proposta de extraordinária simplicidade, onde o método pode inclusive ser ampliado: se não der para comprar linguiça, compra salsicha, se não der para comprar salsicha, compra ovo, se o ovo estiver caro, compra farinha e se a farinha também subir, recomenda-se ao cidadão contemplar o prato vazio e agradecer à economista pela sensação de saciedade produzida pela estatística.
No frigir dos ovos — supondo, naturalmente, que ainda haja dinheiro para comprá-los — a economista só esqueceu de apresentar a fórmula definitiva da prosperidade quando poderia ter dito: - A gasolina pode subir à vontade porque eu nunca boto mais de cem reais de cada vez.
Se ela subir para seis, sete, oito ou dez reais, não há inflação alguma é só o cidadão continuar colocando cem reais no tanque com o detalhe que, com os mesmos cem reais, antes conseguia abastecer quase o tanque inteiro e agora talvez consiga apenas molhar o fundo.
Mas isso, evidentemente, é apenas uma sensação de falta de gasolina pois o governo parece ter descoberto uma nova modalidade de política econômica: não se combate inflação, combate-se a percepção dela.
É a economia do “parece que” que o salário não dá, o supermercado ficou mais caro, a cesta de compras encolheu, o aposentado está comprando menos, que a família está substituindo alimentos, que o dinheiro está acabando antes do mês, mas, segundo a nova escola econômica, talvez nada disso esteja acontecendo tratando-se apenas de uma questão psicológica.
O pobre olha para o carrinho vazio e imagina que não está vazio, a mãe olha para a carteira e pensa que tem dinheiro, o aposentado chega ao supermercado, faz as contas e conclui que não pode comprar o que comprava antes e aí surge a grande pergunta: se a inflação é uma ilusão, se alguns produtos sobem e outros descem, por que será que o dinheiro nunca acompanha a mesma lógica?
Seria interessante experimentar com o cidadão chegando ao supermercado dizendo: - Meu salário perdeu poder de compra, mas não se preocupe, é apenas uma ilusão monetária porque na realidade, continuo ganhando a mesma coisa.
O caixa provavelmente não concordaria, e se concordasse, seria aconselhável verificar se o supermercado não pertence à mesma escola de economia do ex-ministro agora respaldado pela Economista Mor, porque há uma diferença fundamental entre economia de laboratório e economia de cozinha.
Na primeira, tudo pode ser compensado por médias, índices e estatísticas, na segunda, a família precisa decidir o que colocar no prato e quando a renda é curta, não adianta explicar ao cidadão que alguns produtos ficaram mais baratos, porque ele não compra “alguns produtos”, precisa comprar os produtos de que necessita e é exatamente por isso que a cesta básica é tão importante: ela tenta medir o que uma família precisa para sobreviver e não aquilo que a economista gostaria que ela pudesse substituir.
No final das contas, talvez estejam inventando a inflação invisível, aquela que não existe nos discursos, mas aparece no carrinho de supermercado e o mais curioso é que, quanto mais os especialistas dizem que ela é apenas uma sensação, mais o cidadão sente.
Talvez seja porque o cidadão tenha uma mania terrível que os economistas ainda não conseguiram eliminar: ele paga as contas com dinheiro de verdade e dinheiro de verdade, no Brasil varonil, parece ter desenvolvido o péssimo hábito de acabar antes do mês.
José H.C. Abreu.
Articulista