

Foto: Reprodução/Redes sociais
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Há quem pense que o pior de um erro é a vergonha de ser visto falhando.
Há quem diga que o pior é o tempo: aconteceu, ficou registrado, não há o que fazer.
O perfeccionista sofre com o erro em si; o utilitarista, com o número de pessoas atingidas.
Todos partem do mesmo pressuposto: o de que um erro tem um tamanho e que esse tamanho ficou definido no instante em que foi cometido.
Nem sempre. Há erros que continuam crescendo depois de prontos.
É a diferença entre gastar mal e contrair uma dívida. O gasto errado tem valor fixo: você errou cem, perdeu cem, acabou. A dívida cobra juros. O montante final não depende do dia em que foi contraída, mas do dia em que alguém decidiu quitá-la.
Diante de um erro desse tipo, a pergunta correta não é quanto ele custou, é quando irá parar de contar.
No caso de Michelle e Flávio Bolsonaro, contou por um mês.
Em 24 de junho de 2026, a ex-primeira-dama publicou nas redes sociais um vídeo de quase trinta minutos. Nele, afirmava ter sido humilhada, maltratada e desrespeitada pelo enteado, o senador Flávio Bolsonaro, então pré-candidato do PL à Presidência.
Disse ter sido apunhalada e que não falava com ele desde o fim de 2025.
Segundo seu relato, numa ligação telefônica daquele período, Flávio teria dito que era melhor ela ficar fora das decisões do partido, porque tinha chegado ontem e não entendia nada de política.
O episódio narrado tinha, portanto, meio ano. Não era notícia. Virou notícia porque ela decidiu contá-lo, e decidiu contá-lo em junho, com a convenção partidária marcada, a campanha presidencial em montagem e o marido preso.
O que estava por trás não era mesquinharia. Desde novembro de 2025, o diretório cearense do PL, presidido pelo deputado André Fernandes, costurava apoio à candidatura de Ciro Gomes ao governo do Ceará, aliança confirmada em julho de 2026. Michelle era contra e defendia o senador Eduardo Girão como alternativa.
Suas razões eram justas. Ciro havia chamado Jair Bolsonaro de “jumento” e de “ladrão de galinhas”, dito que suas esposas seriam ladras e apelidado os filhos do ex-presidente de “ovos de serpente nazistoides”.
Do outro lado havia uma conta igualmente concreta. Flávio e o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, avaliaram que tirar o PT do governo do Ceará valia mais do que a pureza da lista de aliados.
Discordar disso era legítimo. Michelle podia ter perdido a discussão interna e continuado discordando internamente, como fazem os derrotados em qualquer diretório do país.
Acontece que o problema não surgiu da sua discordância, nem de estar certa ou errada. Ele nasceu quando um conflito estratégico interno do partido foi transformado em um depoimento pessoal transmitido para o país inteiro. Criando confusão entre seus eleitores e dando munição para os opositores.
Em 30 de junho, seis dias após o vídeo, Michelle deixou a presidência do PL Mulher. A saída foi formalizada em reunião com Valdemar na sede da entidade, em Brasília, gesto que coincidiu com a tentativa de Flávio de conquistar mulheres para sua campanha. Ao se desligar da estrutura que havia construído desde 2023, Michelle retirou da campanha, intencionalmente ou não, o ativo político que mais pesava entre esse público.
No dia 1º de julho, o pastor e deputado Marco Feliciano cobrou publicamente uma posição de Flávio sobre o desgaste do senador entre os evangélicos, além das mulheres, principal público com o qual Michelle dialogava.
Em meados do mês vieram as pesquisas, e com elas a medida do estrago. O levantamento BTG/Nexus de 13 de julho mostrou 42% dos eleitores ao lado de Michelle na disputa, contra 18% ao lado de Flávio, e registrou que 64% do eleitorado já tinha ouvido falar do caso. Dois dias depois, a Genial/Quaest apontou que 45% aprovavam a divulgação da carta dela, contra 38% que a consideravam um erro.
Vale demorar nesse número. A existência de uma pesquisa de opinião sobre uma briga interna do PL, com abrangência nacional e registro no TSE, é em si um sintoma.
Em 23 de julho, Flávio publicou um vídeo pedindo desculpas. Elogiou o trabalho de Michelle no PL Mulher, reconheceu seu papel no cuidado com o pai e pediu união.
Ela respondeu no mesmo dia, também em vídeo: “Eu te desculpo.”
Disse que todos cometem erros e agradeceu à senadora Damares Alves e à governadora do Distrito Federal, Celina Leão, pelo empenho para que a reconciliação acontecesse.
A convenção do PL que oficializaria a candidatura de Flávio era três dias depois, no sábado, 25.
Não é preciso cinismo para ler a data. A paz chegou quando não dava mais para adiá-la, e a pergunta interessante é por que demorou tanto, já que nada do que se soube em 23 de julho era desconhecido em 24 de junho.
Michelle sabia desde sempre que Flávio precisava dela entre mulheres e evangélicos, os públicos em que ele vinha perdendo espaço; Flávio sabia desde sempre que romper com a esposa do pai era perda incalculável.
A conta estava dada e visível para os dois desde dezembro, mas se a lógica bastasse para encerrar a briga, o problema não teria sequer começado.
O gesto não decorre do cálculo: é escolha, dependente mais de emoção do que de razão, e por isso havia a possibilidade de não vir.
Felizmente, veio.
Parte foi recuperada. Michelle, inclusive, já voltou a operar na campanha.
A Genial/Quaest de agosto mostrou a distância de Lula para Flávio caindo de oito para cinco pontos no segundo turno e registrou que 70% dos eleitores de direita não bolsonarista e 79% dos bolsonaristas acham que com a participação dela aumentam as chances dele. O ativo funcionou como se esperava que funcionasse.
Outra parte não volta. O PL Mulher perdeu a dirigente que o estruturou e não recuperou a estrutura com um vídeo. Os 64% que souberam da briga continuam sabendo.
Nada disso é catástrofe. É apenas o peso das consequências, que felizmente acabam. Felizmente, o desafio agora é a reparação.
Erros como esse não se corrigem, no sentido literal. Corrigir seria devolver as coisas ao estado anterior, e não há como desfazer trinta minutos de vídeo vistos por dois terços do eleitorado.
O que se pode fazer é interromper: parar de "acrescentar parcelas", parar de dar assunto, parar de produzir novos episódios de um enredo que já rendia sozinho.
Foi o que aconteceu em 23 de julho, e é por isso que há alívio.
A conta correu por um mês, cobrou o que tinha de cobrar e agora fechou.






