
Matéria da jornalista citada por Lindbergh é finalmente publicada e desmente o petista

15/08/2026 às 06:34 Política

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Lindbergh Farias citou a jornalista Alessandra Medina para justificar a denunciação caluniosa cometida contra o deputado Alfredo Gaspar e disse que uma matéria seria publicada com toda a apuração do caso.
Nesta sexta-feira (14) de fato uma matéria sobre o caso foi publicada na Revista Piauí, porém fica bam claro que nunca existiu qualquer prova contra Gaspar e que a acusação do petista foi efetivamente uma farsa tentando simplesmente assassinar a reputação do relator da CPMI do INSS.
Transcrevemos abaixo a matéria publicada pela jornalista citada por Lindberg:
Veja o vídeo:
O PÊNDULO DE DEMOLIÇÃO
Marcada para a manhã do dia 27 março, no Senado, a leitura do relatório final da CPMI do INSS estava cercada de expectativas. Aguardavam-se, afinal, respostas à altura do escândalo – que, segundo as estimativas da Polícia Federal, desviara cerca de 6 bilhões de reais de aposentados e pensionistas. A cena, no entanto, acabou tomada por uma denúncia imprevista. O deputado Lindbergh Farias (PT-RJ), irritado com a teatralidade do relator da CPMI, Alfredo Gaspar (PL-AL), cobrou decoro do colega, dando início a um bate-boca acalorado que interrompeu a sessão. No meio da confusão, Gaspar insinuou que Lindbergh era corrupto, ao que o deputado petista rebateu gritando: “Seu estuprador!”
O caos se instaurou no plenário. No intervalo da sessão, depois de ser xingado de “bandido”, “criminoso”, “cafetão” e “usuário de drogas”, Lindbergh explicou numa coletiva de imprensa o significado da acusação. Estava acompanhado da senadora Soraya Thronicke (PSB-MS). “Confesso que estava com aquilo entalado na minha garganta há dois dias”, disse ele. Contou então que, naquela semana, ele e a senadora Soraya Thronicke haviam recebido uma denúncia de estupro contra Gaspar. Pelas informações que receberam, o crime acontecera anos atrás e resultara em gravidez. Disseram também que a vítima hoje tinha 21 anos, e sua filha, 8. O denunciante era um desconhecido que não havia apresentado nenhuma prova.
A acusação deu início a uma guerra de versões. De um lado, a Polícia Federal, provocada por Lindbergh e Soraya, passou a investigar a acusação contra Gaspar – que, desde o começo, se disse disposto a fazer um teste de DNA para provar sua inocência, mas a mulher de 21 anos e a criança de 8 nunca apareceram. Do outro lado, a Polícia Legislativa da Câmara, provocada por Gaspar, seguiu o caminho contrário: começou a apurar se o deputado fora vítima de uma denúncia falsa. Durante meses, enquanto corriam as investigações, a história ficou em segundo plano no noticiário – até que, na semana passada, depois de frustradas as tentativas de atrair um vice do Centrão para sua chapa presidencial, Flávio Bolsonaro (PL-RJ) escolheu Gaspar para o posto. A denúncia então se tornou um fato político incontornável.
É um caso peculiaríssimo porque tanto a hipótese do estupro quanto a hipótese da armação, embora totalmente incompatíveis, partiram da boca da mesma pessoa: um carioca chamado Luiz Antonio Lopes – que, já na largada, ao propalar versões opostas, colocou-se na condição de mentiroso, ou de uma coisa, ou de outra. Ao menos desde dezembro do ano passado, Lopes vinha procurando parentes de investigados na CPMI do INSS para denunciar Gaspar por estupro. Ele dizia ser “tio de consideração” de uma mulher chamada Jailma, que, segundo ele, fora estuprada pelo deputado quando ainda era adolescente, em Alagoas, e que esse crime resultara na gravidez de uma menina. Lopes dizia que mãe e filha moravam atualmente em Paracambi, cidade da Baixada Fluminense, mas que se mudavam com frequência para outras cidades do Rio de Janeiro e de Minas Gerais.
A piauí soube da acusação de Lopes por meio de um dos parentes de investigados da CPMI, e entrou em contato com o denunciante em 17 de março, por telefone. Na conversa com a revista, Lopes contou a mesma história que vinha repetindo havia meses. Mas foi além: disse que emissários de Alfredo Gaspar vinham tentando comprar o silêncio da vítima, e afirmou ter o comprovante de ao menos uma transferência de Pix feita pela equipe do deputado. Não mostrou o comprovante, mas, nos dias seguintes, demonstrou sucessivas vezes seu interesse em combinar uma entrevista para detalhar o caso. E, sucessivas vezes, recuou da ideia. Até que, em 23 de março, cinco dias depois do primeiro contato, aceitou marcar uma conversa com a piauí no shopping Jardim Guadalupe, localizado no bairro de Guadalupe, no Rio de Janeiro.
Na hora combinada, Lopes apareceu ao lado de um casal, que apresentou como sendo Jailma, a vítima do estupro, e seu namorado, Lucas. Jailma é uma mulher magra, com cabelos lisos e escuros que chegam quase à altura da cintura. Lucas, um rapaz alto, que vestia bermuda e chinelo. Pediram que a conversa se desse em off, de forma preliminar, sem gravação. Sentada na praça de alimentação do shopping, Jailma contou então sua história. Disse que tinha 8 anos quando sua mãe começou a trabalhar como empregada doméstica na casa de Alfredo Gaspar, em Maceió. Contou que ajudava a mãe nas tarefas – e, às vezes, recebia presentes do dono da casa, como bonecas e um celular. Jailma afirmou que, quando tinha 13 anos de idade, teve relação sexual com Gaspar mais de uma vez. Na conversa com a piauí, não tratou os episódios como estupro, mas como “agrados”. Disse que foram relações consensuais. Ainda assim, seu relato é grave porque a lei brasileira entende que não existe consentimento num ato sexual com uma criança de até 14 anos. É, necessariamente, um crime.
Jailma relatou também que, no final do ano passado, foi visitada por uma assessora de Alfredo Gaspar, que presenteou sua filha com um videogame portátil. Ela não identificou o nome da assessora ou seu cargo. Disse que o deputado prometeu lhe comprar uma casa onde ela e sua filha pudessem morar. Também disse que uma pessoa ligada ao deputado havia transferido 10 mil reais para ajudá-la a cuidar da criança. Novamente, não identificou quem era essa pessoa. Na ocasião, Jailma e Lopes se comprometeram a compartilhar com a piauí comprovantes tanto da transferência de 10 mil reais quanto da compra do vídeogame, além de exibir mensagens enviadas por assessores de Gaspar. Mas nunca compartilharam nem uma coisa, nem outra. Jailma e Lucas tampouco revelaram seus nomes completos, endereços, telefones ou quaisquer informações que permitissem confirmar a veracidade do relato.
Ainda em março, Lopes compartilhou com a piauí o print parcial de uma conversa. Nela, não é possível ver o nome do interlocutor, que diz o seguinte: “Tenho interesse em reparar essa situação da moça, não tenho como assumir essa criança, mas posso fazer muito por ela e também pela sua genitora. Conversei com um amigo daí do Rio de Janeiro sobre aquisição de um bom imóvel para garantia da mãe e da menina. Mas lhe peço sigilo máximo sobre o referido assunto!” E prosseguia a mensagem: “Algo em torno de 300/350 mil reais seria suficiente para se adquirir uma casa boa?” No print, porém, a mensagem aparece como “encaminhada”. Como Lopes não mostrou a conversa original, não foi possível descobrir quem a escreveu – e para quem a mandou inicialmente.
Ao fim da conversa no shopping, Jailma aceitou conceder uma entrevista à piauí – dessa vez, em on, gravada – no dia seguinte. A entrevista seria acompanhada de Lopes e ocorreria no shopping Fashion Mall, no bairro de São Conrado. Mas não aconteceu. Nem Jailma nem Lopes apareceram no horário combinado. Contatado pela piauí, Lopes mudou o tom. Por telefone, disse que só dariam entrevista mediante o pagamento de 350 mil reais. Informado de que a revista jamais remunera suas fontes para não contaminar a credibilidade do que dizem, ele insistiu: afirmou que, se o dinheiro não estivesse em sua conta dali a 10 minutos, não haveria mais conversa alguma. “Preferia muito mais ajudar o lado que é o certo da história. Só que o lado certo da história não pensa como a gente não, sabe?”, disse, de forma enigmática.
Três dias depois, a denúncia se tornou pública na CPMI. E Lopes virou a história do avesso.
Luiz Antonio Lopes é um carioca de 63 anos sobre quem pouco se sabe. Foi dono de um restaurante em Jacarepaguá, na Zona Sudoeste do Rio. Em 2024, em uma escritura lavrada no 20º Cartório de São Paulo, se apresentou como artesão. Mas seu relato é oscilante. Em vídeos publicados na rede social Kwai, Lopes diz ter trabalhado como investigador do Exército – que, procurado pela piauí, negou essa informação. Em outras gravações, Lopes ataca o Supremo Tribunal Federal (STF), chegando a ameaçar de agressão o ex-ministro Luís Roberto Barroso. Também diz ter participado da intentona golpista de Oito de Janeiro, e faz postagens frequentes em apoio a Jair Bolsonaro.
Quando Lindbergh Farias e Soraya Thronicke divulgaram a acusação contra Alfredo Gaspar, Lopes, que até então não os havia procurado diretamente, entrou em contato. Num e-mail enviado ao gabinete de Soraya em 31 de março, ao qual a piauí teve acesso, usou o pseudônimo “Pedro Bongiolo” e, em vez de se apresentar como o tio de Jailma, disse apenas que o conhecia. Depois, ainda se passando por Pedro, falou por telefone com uma assessora da senadora. Simulando sotaque nordestino, se prontificou a viajar a Brasília com Jailma para depor sobre o caso. O telefone do qual fez a ligação era o mesmo que usava para conversar com a piauí. Em seguida, encaminhou o mesmo e-mail para o gabinete de Lindbergh, escrevendo no título: “Sua chance é essa.” Usando outro pseudônimo – “José Carlos” –, Lopes procurou também aliados de Lindbergh e chegou a ligar até mesmo para o filho dele, que estava em viagem a China.
A todos, contava a mesma história do estupro e cobrava dinheiro pelas informações que dizia ter. “Ele me ligou insistentemente. Dizia que era amigo do Lindbergh, que conhecia a mulher e a criança e precisava falar pessoalmente com a gente”, relatou à piauí o ex-vereador Antonio Araujo Ferreira (PT), conhecido em Nova Iguaçu como Tuninho da Padaria. Àquela altura, Lindbergh e Soraya, embora inicialmente tivessem acolhido a denúncia, já tinham perdido a confiança em Lopes, diante dos insistentes pedidos por dinheiro. “Liguei para o Lindbergh e contei o que tinha acontecido. Ele me disse que o cara era um estelionatário”, afirmou Tuninho.
Enquanto buscava outros interlocutores, Lopes manteve contato com a piauí, mesmo depois da tentativa de achacar a revista. “Sou mercenário, gosto muito de dinheiro”, disse, em uma sequência de mensagens enviada no dia 30 de março. “Quero dinheiro, muito dinheiro. Quero 100 milhões. Se o Lindbergh Farias não fizer, perde o mandato. Se minha conta não amanhecer com pelo menos 50 mil reais, vou pra mídia. Não tenho medo de prisão, tenho medo de falta de dinheiro.” No dia seguinte, Lopes enviou uma nova leva de mensagens à piauí. “Meu Pix não caiu até agora, vamos fazer o que deve ser feito.” Afirmou, em seguida, que Lindbergh e Soraya acabariam sendo “cassados e presos”.
O teor das ameaças ficou claro poucos dias depois. Em 14 de abril, Alfredo Gaspar acionou a Polícia Legislativa da Câmara e relatou ter sido procurado pelo próprio Lopes – que, dessa vez, contava uma história inteiramente diferente de tudo o que havia dito até então. Em conversa com uma assessora de Gaspar – e, depois, em depoimento formal à Polícia Legislativa, no dia 23 de abril –, Lopes afirmou que a denúncia de estupro não passava de uma armação, só que arquitetada por Lindbergh. A explicação era mirabolante. Lopes disse que Jailma, na verdade, chamava-se Marcela, era uma amiga sua e fora contratada pela equipe de Lindbergh para se passar por uma vítima de estupro. E o mais surpreendente: afirmou que, apesar disso – e apesar de ter passado meses contando a história do estupro para diferentes pessoas –, soube da denúncia apenas quando ela veio à tona na CPMI.
A existência do depoimento prestado por Lopes à Polícia Legislativa em abril passado só foi revelada nesta semana, em reportagens da imprensa que demonstram as contradições no seu relato. E Lopes, não satisfeito com a reviravolta inexplicável de sua denúncia, voltou a oscilar. Ao jornal O Globo, disse na semana passada ter provas da denúncia de estupro. Mas, novamente, não as apresentou. Também não explicou as idas e vindas do seu relato.
Procurada pela piauí, a Polícia Legislativa da Câmara não deu detalhes sobre a apuração. Disse apenas que remeteu o caso ao STF, onde corre a investigação da Polícia Federal, e que agora cabe ao tribunal “a avaliação e a adoção das providências cabíveis”. Lopes, por sua vez, não voltou a falar com a piauí depois de depor à Polícia Legislativa em abril. Na semana seguinte ao depoimento, se filiou ao PL de Gaspar, no Rio de Janeiro.
As versões de Lopes sobre o estupro, que até agora funcionaram apenas como um pêndulo de demolição que oscila para um lado e depois outro, estão tão repletas de incongruências que é custoso acreditar que tenham produzido tremores eleitorais. Em seu relato, nada é comprovado – nem a identidade da vítima, nem os supostos pagamentos, nem mesmo a existência da criança que, segundo ele, foi fruto de um estupro. Antes da conversa de 23 de março, no shopping em Guadalupe, ele disse à piauí que a mãe de Jailma, que segundo ele se chama Narziele, havia recebido 70 mil reais de Gaspar quando a gravidez foi descoberta – outro pagamento que, mais uma vez, não foi comprovado. Indagada sobre isso pela piauí, a mulher que se apresentou como Jailma demonstrou surpresa, como se nunca tivesse ouvido falar do dinheiro.
A pessoa que se apresentou como Jailma à piauí contou que, ainda grávida, fugiu para o Rio de Janeiro porque sentia medo de Gaspar – que, naquela época, era procurador-geral de Justiça de Alagoas. Na reta final da gravidez, segundo ela, sua mãe viajou ao Rio para ajudá-la. Jailma disse à piauí que a criança nasceu em março de 2018 na Maternidade Municipal Leila Diniz, na Barra da Tijuca, e foi registrada no nome da avó, Narziele. A reportagem tentou encontrar o registro do nascimento da menina, mas não foi possível – na gestão do prefeito Marcelo Crivella (Republicanos), o serviço de prontuário eletrônico da maternidade foi suspenso por falta de pagamento. A piauí também procurou a certidão de nascimento nos cartórios, mas não encontrou nenhuma em que constassem os nomes da criança e da avó.
A investigação da Polícia Federal, aberta depois que Lindbergh Farias e Soraya Thronicke formalizaram a notícia-crime, hoje está sob a alçada do STF. Por sorteio, caiu nas mãos do ministro Gilmar Mendes. Mas, durante meses, o inquérito ficou parado. Somente em agosto, quando Gaspar foi anunciado como vice de Flávio Bolsonaro e a denúncia passou a repercutir nacionalmente, Gilmar autorizou que Procuradoria-Geral da República (PGR) abrisse um procedimento preliminar de investigação. A PGR, por sua vez, pediu novas apurações da PF. Uma das providências da polícia foi solicitar imagens do sistema de segurança do shopping Jardim Guadalupe do dia 23 de março, com o objetivo de localizar Lopes, Jailma e seu namorado. A tentativa foi em vão. O shopping informou que só armazena filmagens das câmeras por quarenta dias. As gravações do encontro com a piauí e da suposta arapuca, portanto, já não existem mais.
Na segunda-feira (10), quando veio à tona o depoimento de Lopes à Polícia Legislativa da Câmara, Lindbergh acionou o STF pedindo que essa apuração seja anulada, mas pediu que se investigue se o denunciante recebeu alguma promessa de recompensa para depor contra ele. Gaspar, por sua vez, está processando Lindbergh e Soraya sob acusação de calúnia, denunciação caluniosa, injúria e coação no curso do processo – segundo ele, a coação se deve ao fato de que a denúncia pôs em risco os trabalhos da CPMI.
Gaspar nega ter cometido estupro de vulnerável e pediu ao STF que determine a realização de exames de DNA – embora, a essa altura, ninguém saiba quem é a mulher que Lopes diz ter sido estuprada e quem é a filha dela, se é que as duas realmente existem. Ainda durante a sessão da CPMI em 27 de março, depois de ser acusado por Lindbergh, o deputado apresentou uma possível explicação para a denúncia: disse que um primo seu, e não ele, havia engravidado uma empregada doméstica muitos anos atrás, mas que havia sido uma relação consensual e que os dois eram adolescentes na época. Gaspar deu a entender, com isso, que alguém o havia confundido com o parente, embora sejam histórias muito diferentes. A filha de seu primo, fruto dessa relação sexual, tem hoje 42 anos. Na acusação que espalhou contra Gaspar, e que nunca comprovou, Lopes dizia que a filha do deputado tinha apenas 8 anos.
Indagado pela piauí sobre as incongruências de Lopes – incluindo as que foram apresentadas no depoimento à Polícia Legislativa e justificaram o processo contra Lindbergh e Soraya –, Gaspar não comentou. Sua assessoria de imprensa divulgou apenas uma nota afirmando que o deputado é “um homem íntegro, com vida limpa, que passou a ser alvo dessa acusação falsa no dia em que pediu a prisão de Lulinha por seu envolvimento no roubo dos aposentados do INSS”. Disse também que “fake news é crime no Brasil” e “todos que colaborarem para difusão de notícias falsas serão chamados a responder criminalmente por isso”.
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