O caguete debaixo do guarda-chuva do STF

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Na República de Bananas existe uma espécie política particularmente resistente: o político de guarda-chuva, que não importando se está fazendo sol, se há tempestade ou se o telhado caiu sobre sua cabeça, sempre tem um de certa forma institucional, com a marca STF estampada.

É o caso, segundo as acusações e declarações públicas que circulam sobre determinado deputado, ex-senador e primeiro-damo (amásio, companheiro) de uma ex-ministra, personagem que ganhou na praça política o incômodo apelido de “Farinha”, não porque farinha seja culpada de alguma coisa — coitada, serve até para fazer bolo — mas porque, quando um apelido desses cola num político, normalmente a imaginação popular já fez seu próprio inquérito, julgamento e sentença.

Convém, entretanto, separar acusação de prova já que ser chamado de usuário de drogas não transforma ninguém em usuário de drogas, apelido não é exame toxicológico, fofoca não é sentença e manchete não substitui prova.

Mas eis que surge a parte verdadeiramente saborosa da história: quando o vento político soprava a favor, o nosso personagem teria aparecido ao lado de uma senadora para lançar contra um adversário político uma acusação gravíssima: a de que o então candidato da oposição à Vice-Presidência da República seria ESTUPRADOR, acusação gravíssima, sim, porque acusar alguém de estupro não é dizer que o sujeito estacionou em local proibido, é acusação capaz de destruir reputação, carreira, família e vida pública, que exige uma coisa muito simples: PROVA.

Só que, quando o jogo mudou, quando a acusação começou a voltar como um bumerangue, apareceu a metamorfose política com o machão tentando passar de protagonista, a espectador, de denunciante, em testemunha, de quem estava ao lado da acusação, em alguém que agora afirma não possuir provas e procura deixar o peso da responsabilidade sobre os ombros da senadora.

A justificativa é de uma elegância quase parlamentar: “Soube do caso por meio dela” ou, em tradução simultânea para o bananês político: - Eu estava lá, mas não era bem comigo. - A informação chegou até mim, mas não fui eu quem trouxe. - Eu repeti, mas quem contou foi ela. - Se deu problema, procure a dona da informação praticando a velha filosofia do “eu não disse e só estava dizendo o que me disseram” numa espécie de terceirização de responsabilidade.

No mundo comum, isso tem outro nome: CAGUETAGEM sendo que o caguete tradicional costuma entregar o companheiro para escapar do problema, já o caguete político sofistica a profissão, primeiro participando da acusação, depois, quando percebe que a conta chegou, entregando a companheira de narrativa e procurando abrigo institucional.

E aí entra novamente o guarda-chuva porque há políticos que enfrentam tempestades com argumentos, documentos e provas, outros preferem correr para a sombra de alguma autoridade poderosa quando o calor começa a subir, numa quase modalidade esportiva: - “Corra para o STF antes que o fogo lhe queime o FIOFÓ.”

Não se trata, evidentemente, de condenar ninguém por antecipação, pois se existem acusações, que sejam investigadas, se existem provas, que sejam apresentadas, se não existem, que “cheire uma carreirinha” e tenha a coragem de reconhecer isso.

Nada de anormal pois a política brasileira é um teatro onde a acusação é lançada com megafone e a responsabilidade recolhida com alicate.

Na hora de acusar, microfone, na hora de provar, silêncio, na hora de responder, advogado, e aí na hora de assumir responsabilidade, aparece a famosa frase: - “Foi ela que me contou.”

É a política do “não fui eu”, não fui eu que disse, não fui eu que inventei, não fui eu que denunciei, não fui eu que espalhei, não fui eu que tinha informação e se possível, também não fui eu que estava na fotografia, só faltando a clássica conclusão infantil: - “Foi o cachorro.”

Mas há algo muito mais sério por trás dessa comédia: as acusações de crimes sexuais não podem ser utilizadas como munição eleitoral, instrumento de vingança ou arma de destruição de adversários, ao mesmo tempo, ninguém deve ser desqualificado apenas por um apelido, uma insinuação ou uma acusação sem prova — seja de estupro, seja de uso de drogas, seja de qualquer outro crime de modo que a mesma régua precisa valer para todos.

Quem acusa deve estar disposto a provar, quem denuncia deve sustentar aquilo que afirmou, quem erra deve ter coragem de reconhecer o erro e quem participou de uma acusação não pode descobrir, convenientemente, que era apenas espectador que quando percebe que a história pode lhe causar prejuízo, porque, numa democracia, o verdadeiro guarda-chuva não deveria ser o STF, uma ministra, um partido ou qualquer padrinho poderoso, mas sim a VERDADE e essa, infelizmente, não aceita procuração, não muda de versão conforme a eleição e não pode ser transferida para a senadora da vez.

No final, sobra uma pergunta incômoda: - Quem acusa sem provas é corajoso ou apenas não imaginou que um dia teria de responder pelo que disse? Na República de Bananas, talvez seja justamente aí que comece a faltar farinha e principalmente, sobrar responsabilidade.

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