
O beijo grego da política: Uma acusação é lançada, a imprensa repercute, as redes sociais multiplicam...

15/08/2026 às 19:55 Opinião

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Há uma cena que a natureza oferece diariamente e que deveria servir de inspiração à República do Brasil: quando dois cachorros se encontram, fazem aquela inspeção mútua pelo focinho e pelas partes traseiras e, depois de alguns segundos de investigação, seguem a vida em paz, sem ameaçar pedir instalação de CPI, pedido de cassação, denúncia ao Ministério Público, providências por parte do STF e tampouco entrevista coletiva.
Entre os cachorros, aparentemente, prevalece uma regra simples: primeiro cheira, depois conhece, conhecendo respeita, de modo que perguntar não fede: - Por que Vossas Excelências os políticos, não fazem o mesmo?
Não estou sugerindo que deputados, senadores, ministros e candidatos saiam por aí protagonizando o que os maliciosos chamariam de “beijo grego institucional”, seria exigir demais da liturgia republicana, mas poderiam, pelo menos, adotar a filosofia canina de conhecer melhor o adversário antes de acusá-lo de tudo quanto é coisa, pois uma boa cheirada talvez evitasse muita denúncia, muita acusação e muita tentativa de destruição de reputação baseada em boato, interpretação conveniente ou, pior ainda, em armação fabricada exclusivamente para desmoralizar o adversário, porque, no FUNDO eles se conhecem e como se conhecem!
Uns já foram companheiros de partido, outros dividiram gabinete, jantar, palanque, comissão, governo, oposição, os mesmos interesses, hoje trocam acusações de manhã e, dependendo da conveniência, podem estar sorrindo juntos à noite pois a política brasileira tem dessas contradições e há uma velha história que ilustra bem essa intimidade.
Conta-se que um político estava confortavelmente sentado numa sala de espera de aeroporto, depois de tirar os sapatos para aliviar os pés durante a espera, eis que chega outro, pega os sapatos do colega e ameaça levá-los.
O dono, conhecendo bem o personagem, dispara: - “deixe isso aí, que você não é de roubar coisa pequena” e é aí que mora a graça - e também a realidade.
A frase, verdadeira ou folclórica, funciona como uma pequena radiografia da política: quando alguém conhece suficientemente o outro, sabe exatamente até onde pode ir a brincadeira, a provocação ou a acusação e o problema começa quando o político resolve transformar o adversário em inimigo mortal diante das câmeras, como se nunca tivesse sentado ao lado dele, apertado sua mão ou participado da mesma roda de conversa e é aí que aparece a indústria da desmoralização.
Uma acusação é lançada, a imprensa repercute, as redes sociais multiplicam, o acusado passa a ter de provar que não é aquilo que disseram que ele é, e, depois, se a acusação era falsa ou exagerada, quem paga a conta da reputação destruída, quase nunca é quem acusou e talvez os cachorros estejam certos: eles se cheiram, identificam-se, reconhecem-se e seguem adiante sem precisar publicar um dossiê no dia seguinte dizendo: - “Aquele cachorro que encontrei na esquina é suspeito de ter cheirado meu traseiro com intenções políticas” o que seria ridículo, tão ridículo quanto transformar toda divergência política em acusação pessoal.
No Brasil, talvez esteja faltando justamente isso: menos focinho de guerra e mais respeito pelo adversário, porque adversário político não precisa ser inimigo, uma eleição não deveria transformar ninguém em proprietário da verdade e muito menos em dono da honra alheia.
Se os políticos resolvessem adotar a sabedoria dos cachorros, talvez descobrissem uma coisa elementar: conhecer o outro antes de acusá-lo pode evitar muita injustiça, e, principalmente, evitar que a política brasileira continue parecendo um enorme canil onde alguns latem muito, outros mordem quando podem e quase todos fingem não se conhecer quando as câmeras estão ligadas, tentando esconder que no FUNDO se conhecem e muito bem.
José H.C. Abreu.
Articulista






