Quando o consumidor quebra, o comércio cai junto: Casas Bahia é o novo retrato do Brasil

Famílias, empresas e empregos estão sendo esmagados pelas dívidas.

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O pedido de recuperação judicial do Grupo Casas Bahia não representa apenas a crise de uma rede varejista. É mais um sinal de alerta de uma economia na qual o brasileiro está perdendo a capacidade de pagar suas contas — e as empresas começam a cair junto com seus consumidores.

O grupo ingressou com o pedido na 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo, envolvendo dez empresas e aproximadamente R$ 17,3 bilhões em dívidas.

No comunicado oficial encaminhado à Comissão de Valores Mobiliários, foram citados juros elevados, crédito restrito, aumento dos custos financeiros, pressão sobre o consumo e dificuldades para obter novas fontes de liquidez.

Recuperação judicial não significa encerramento imediato das atividades.

É uma tentativa de suspender cobranças, renegociar obrigações e manter a empresa funcionando. Entretanto, quando uma marca do tamanho das Casas Bahia precisa recorrer ao Judiciário depois de uma reestruturação extrajudicial realizada poucos anos antes, não se pode tratar o episódio como uma dificuldade isolada.

O problema está se espalhando.

Americanas, Oi, Light, Bombril e o Grupo Toky, controlador de Tok&Stok e Mobly, estão entre as grandes empresas que recorreram a processos de recuperação ou reestruturação de dívidas nos últimos anos. Cada caso possui causas próprias: erros administrativos, endividamento excessivo, problemas contábeis, custos tributários, perda de competitividade e decisões equivocadas. Seria incorreto atribuir todos eles exclusivamente à inadimplência dos consumidores.

Mas também seria impossível ignorar o elo que une grande parte dessa crise: um país endividado deixa de consumir, e um comércio sem consumidores capazes de pagar perde receita, crédito e capacidade de sobrevivência.

Em julho de 2026, o Brasil alcançou a impressionante marca de 83,9 milhões de consumidores inadimplentes. Isso corresponde a 51% da população adulta, segundo a Serasa Experian. Mais da metade dos brasileiros adultos possui pelo menos um compromisso vencido e não pago.

Não estamos falando apenas de pessoas que compraram além do necessário.

Estamos falando de famílias usando cartão e cheque especial para pagar alimentação, medicamentos, aluguel, combustível e contas básicas. Quando o salário termina antes do mês, o crédito deixa de ser instrumento de planejamento e passa a ser meio de sobrevivência.

O efeito chega rapidamente às empresas. O consumidor inadimplente perde acesso a novas compras financiadas. A loja vende menos. O estoque permanece parado. O fornecedor não recebe. A indústria diminui a produção. Empregos são cortados. A arrecadação cai. Forma-se um ciclo de empobrecimento que atravessa toda a economia.

E as empresas também estão deixando de pagar.

Em abril de 2026, o país atingiu o recorde de 9 milhões de CNPJs inadimplentes.

Em maio, as dívidas empresariais vencidas somavam aproximadamente R$ 229,9 bilhões.

A crise, portanto, já não está apenas no carnê do consumidor: chegou ao caixa dos comerciantes, às fábricas, aos prestadores de serviços e aos grandes grupos econômicos.

Em 2025, 2.466 empresas estiveram envolvidas em recuperações judiciais, o maior número da série histórica da Serasa Experian. Foram 977 processos, pois um único pedido pode envolver diversos CNPJs de um mesmo grupo. Comércio, indústria, serviços e agronegócio aparecem nessa lista. Não é uma crise de um único setor: é uma epidemia financeira atravessando a economia brasileira.

As Casas Bahia cresceram vendendo a prazo para milhões de famílias que não podiam pagar à vista. Seu negócio sempre dependeu do crédito, da confiança e da capacidade de o consumidor honrar prestações. Quando os juros sobem, o financiamento encarece e milhões de pessoas ficam negativadas, o coração desse modelo começa a parar.

O pedido das Casas Bahia não é apenas um problema de acionistas ou bancos. Por trás daqueles R$ 17,3 bilhões existem trabalhadores, fornecedores, transportadores, lojistas, fabricantes e famílias que dependem dessa engrenagem.

Quando metade dos adultos não consegue pagar suas contas e milhões de empresas também estão inadimplentes, não existe propaganda oficial capaz de esconder a realidade.

O brasileiro está devendo porque perdeu o equilíbrio entre renda e custo de vida. As empresas estão sofrendo porque seus clientes deixaram de comprar ou não conseguem pagar. E cada grande companhia que entra em recuperação arrasta consigo empregos, fornecedores, impostos e esperança.

As Casas Bahia são apenas o novo nome estampado na porta da recuperação judicial.

O verdadeiro devedor é um país inteiro, sufocado por uma economia que cobra cada vez mais e devolve cada vez menos.

Foto de Jayme Rizolli

Jayme Rizolli

Jornalista.

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