
Recuperação judicial, juro recorde e a crise que Brasília chama de “sensação”

19/08/2026 às 06:10 Economia

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Um funcionário de Ponta Porã se despediu, em lágrimas, da loja onde trabalhou 21 anos. O vídeo, repercutido pelo deputado Giovani Cherini, rodou o país no fim de semana. Em seguinda veio o desfecho da matriz: a Casas Bahia entrou com pedido de recuperação judicial, como noticiou a grande mídia. A deputada Chris Tonietto somou os escombros: “Casas Bahia com dívidas astronômicas, Tok&Stok com prejuízos milionários, Correios na pior crise da sua história.”
O varejo dá o rosto; os números dão a moldura. O deputado Sanderson registrou que 298 lojas da rede já haviam fechado, com quase 2 mil trabalhadores demitidos. O senador Jorge Seif Junior mostrou que a Postal Saúde, plano de saúde dos funcionários dos Correios, fechou 2025 com prejuízo de R$ 844 milhões porque a estatal parou de repassar o dinheiro. Nem a GloboNews conseguiu suavizar: chamou a onda de recuperações judiciais de “epidemia”, como repercutiu Cherini.
Tem mais. Seif registrou que o Brasil “voltou ao topo do ranking mundial de juro real, 9,30%, ultrapassando até a Rússia, que está em guerra há mais de 4 anos e aparece em segundo com 9,09%”. Marco Feliciano anotou a fuga de R$ 4,7 bilhões de investidores estrangeiros da Bolsa num único dia, a maior em cinco anos, com direito a rebaixamento das ações brasileiras pelo JPMorgan.
E a Consultoria do Senado apontou um rombo de R$ 105,5 bilhões no orçamento de 2026, com cortes mirando justamente saúde e educação.
Flávio Bolsonaro resumiu: “Pra sair de casa hoje, tem que levar o celular, a chave e uma calculadora.” Em outro recado, foi ao ponto que dói: “Seu nome está no Serasa, a sua mesa está mais vazia e o seu salário não chega ao fim do mês.” Faça o teste com R$ 100 no mercado. General Pazuello fez: “é chegar ao mercado e perceber que o dinheiro já não dá nem para comprar o básico”.
E o que responde a turma do governo? Percepção. Segundo o deputado Sanderson, Miriam Leitão fala em “sensação de preços altos”, como se o carrinho vazio fosse problema de ótica. Carol De Toni respondeu pelo país real: “Não é sensação. É a realidade de milhões de brasileiros.” Feliciano registrou o dia em que o país bateu o maior patamar de inadimplência da história e, segundo ele, Lula declarou que não é contra as pessoas estarem endividadas. A dona de casa agradece a compreensão.
Repare também no timing da bondade. A poucas semanas da eleição, o governo suspendeu a cobrança da taxa das blusinhas que o próprio Haddad peitou o partido para criar. Alívio de véspera tem prazo de validade conhecido: dura até a urna fechar. Depois, a fatura volta com juros, e já vimos qual é o tamanho do juro.
Do outro lado, propostas na mesa. Nikolas Ferreira protocolou a PEC da Responsabilidade: “se o governo não cuidar das contas públicas, quem paga primeiro é a própria política, não o cidadão”. Tarcísio de Freitas cravou: “Imposto não é resposta pra nada.” Feliciano citou o alerta do economista Mansueto Almeida, “Como vai fechar um buraco de quase R$ 200 bilhões de aumento de gasto anual?”, e lembrou que o déficit nominal do ano caminha para a casa do trilhão. Pronto pra mais, diz o slogan. Pra mais do quê, o brasileiro já descobriu na prateleira.
Sensação não paga boleto. O motoboy que parcela o pneu, o pecuarista que renegocia o custeio e a dona de casa que devolve item no caixa não precisam de comentarista para saber o que sentem. Precisam de juro civilizado, imposto que caiba no salário e governo que não gaste o que não tem. Enquanto isso não vem, a economia segue sendo a arte de explicar por que a sua vida piorou. E explicação, convenhamos, o brasileiro já tem de sobra.





