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Começou.
Mal foi dada a largada para a campanha eleitoral de 2026 e tive a sensação de que alguém havia rebobinado a fita.
Quatro anos se passaram, mas o roteiro parece o mesmo. Antes que alguém diga o que pretende fazer pelo Brasil, começa a contar tudo o que há de errado com o outro.
E me lembrei de 2022.
As televisões pareciam ter instalado um ringue. Ladrão de um lado. Genocida do outro. Corrupto daqui. Mentiroso dali. Até padre entrou na confusão.
Eu assistia e sentia vergonha alheia.
Quatro anos depois, teremos nova temporada?
Alguém já brincou que pode cancelar a Netflix. A pancadaria política promete entretenimento suficiente até outubro.
Eu ri.
Depois achei a piada triste.
Talvez porque há muito tempo deixamos de ser apenas eleitores e nos transformamos em plateia.
Esperamos a briga, a frase de efeito, a humilhação do adversário, o meme da madrugada. E quase esquecemos de perguntar:
— Afinal, o que vocês pretendem fazer pelo Brasil?
Enquanto olhamos para o palco, a polarização faz o resto. Divide famílias, amigos e o próprio povo.
O cidadão vira torcedor. O adversário, inimigo.
E o povo luta contra o povo.
Talvez as prisões modernas nem precisem de tantas grades.
Há quem conheça a mordaça física. E há quem carregue uma mordaça invisível sem perceber.
Uns sabem que estão presos.
Outros defendem as próprias grades.
O carcereiro pode descansar.
E assim caminhamos para mais uma eleição chamada democrática, enquanto o principal líder político da oposição está preso e fora da disputa, embora milhões de seus eleitores continuem aqui.
Quando o adversário sai do jogo antes da partida, lembro-me do Menino Maluquinho:
Eu versus eu.
Vencedor: EU!
Mas talvez esteja acontecendo algo ainda mais profundo.
As palavras enlouqueceram.
Ou enlouqueceram porque os homens enlouqueceram seus significados.
Democracia.
Liberdade.
Justiça.
Verdade.
Mudamos o sentido das palavras conforme a conveniência da hora e depois nos espantamos porque já não conseguimos conversar.
Talvez nem estejamos mais falando a mesma língua.
E a palavra que mais me inquieta é democracia.
Tenho a impressão de que a sequestraram. Fizeram dela uma palavra tão sagrada que questioná-la pode parecer uma ameaça.
Mas democracia que não suporta ser questionada é uma contradição.
Nenhum direito subsiste sem liberdade.
Sartre escreveu que o homem está “condenado a ser livre”.
Prefiro pensar que ser livre é uma vocação humana.
O homem livre pergunta. Duvida. Discorda. E não precisa pedir licença para pensar.
Então volto à frase que atravessou dois mil anos:
“Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” João 8:32
Mas fizemos algo extraordinário: aprisionamos justamente aquilo que deveria nos libertar.
Colocamos a verdade dentro das ideologias, dos interesses e das nossas próprias certezas.
E cada um passou a carregar sua verdade como se carregasse a chave da liberdade.
Talvez carregue apenas a chave da própria prisão.
Por isso, enquanto todos discutem quem vencerá a eleição, continuo procurando aquela velha conhecida que anda tão difícil de encontrar.
Se alguém a encontrar, por favor, avise:
Oh, verdade, onde estás?
Bernadete Freire Campos
Cidadã brasileira, especialista em neurociência, estudiosa do comportamento humano no contexto político.












