Chegou a hora de Lulinha finalmente ser julgado

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A discussão do momento parece concentrada em saber onde Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, deverá ser investigado: no Supremo Tribunal Federal ou na primeira instância da Justiça.

Mas talvez essa não seja a pergunta mais importante.

Antes de discutir onde, o Brasil deveria conhecer claramente o quê está sendo investigado e em quantos processos, inquéritos e outras investigações ele aparece.

Afinal, não estamos falando de uma única referência perdida em um relatório policial. O nome do filho do presidente da República aparece atualmente em três inquéritos distintos da Polícia Federal, envolvendo suspeitas de tráfico de influência, corrupção e possível utilização da proximidade com o Palácio do Planalto para facilitar negócios privados junto ao governo.

Isso não significa condenação antecipada. Todo cidadão possui direito à defesa e deve ser considerado inocente até decisão definitiva da Justiça. Mas presunção de inocência não pode ser transformada em presunção de inexistência dos fatos.

Uma coisa é garantir defesa técnica. Outra, muito diferente, é oferecer absolvição política antes mesmo de as investigações serem concluídas.

A CRONOLOGIA QUE O BRASIL PRECISA CONHECER

Em 2002, um ano antes de o pai tomar posse como presidente da República, Fábio Luís Lula da Silva ganhava R$ 600 por mês como monitor no Zoológico de São Paulo.

Lulinha não cuidava dos bichos, mas explicava para os visitantes o que o elefante come, por que o pescoço da girafa é grande, como a onça se camufla na mata. Até então, sua vida era marcada apenas pelos animais e pela discrição, sem sinal de qualquer vocação para os negócios.

Janeiro de 2005 — Gamecorp e Telemar

A Telemar, posteriormente denominada Oi, investiu aproximadamente R$ 5 milhões na Gamecorp, empresa que tinha Fábio Luís entre seus sócios. Outros pagamentos e contratos seriam realizados posteriormente.

A relação comercial levantou suspeitas de possível favorecimento e tráfico de influência, principalmente porque ocorreu durante o primeiro governo de Lula. Uma investigação foi aberta, mas acabou arquivada depois de aproximadamente sete anos, sem denúncia criminal contra Lulinha.

O arquivamento precisa ser registrado por honestidade. Mas também deve ser lembrado que foi nesse episódio que o nome do filho do presidente começou a aparecer nacionalmente associado a negócios milionários realizados durante o governo do próprio pai.

10 de dezembro de 2019 — Operação Mapa da Mina

A Polícia Federal deflagrou a 69ª fase da Lava Jato, denominada Operação Mapa da Mina.

A investigação apurava pagamentos superiores a R$ 132 milhões feitos entre 2004 e 2016 pela Oi/Telemar às empresas do grupo Gamecorp/Gol, ligadas a Fábio Luís e seus sócios. As suspeitas investigadas eram, em tese, corrupção e lavagem de dinheiro.

Foram cumpridos 47 mandados de busca e apreensão em quatro unidades da Federação. A operação procurava descobrir se os pagamentos teriam relação com decisões governamentais favoráveis ao grupo de telefonia

17 de janeiro de 2022 — arquivamento da Mapa da Mina

A Justiça Federal de São Paulo arquivou a investigação. A decisão considerou nulas medidas cautelares derivadas dos processos conduzidos pelo então juiz Sergio Moro e acolheu manifestação do Ministério Público segundo a qual, retiradas aquelas provas, não permaneceram elementos indiciários suficientes.

Portanto, Lulinha não foi condenado nesse caso — e o episódio não pode ser apresentado como crime comprovado.

Mas o arquivamento jurídico também não apaga o fato histórico de que existiram pagamentos milionários da companhia telefônica às empresas do filho do então presidente. O que desapareceu foi a possibilidade de prosseguir com aquele conjunto probatório.

26 de fevereiro de 2026 — CPMI do INSS

A CPMI que investigava as fraudes contra aposentados e pensionistas aprovou a quebra dos sigilos bancário e fiscal de Fábio Luís.

A medida foi posteriormente suspensa pelo ministro Flávio Dino, não por uma declaração de inocência sobre o mérito, mas porque a quebra havia sido aprovada em bloco e, segundo o ministro, sem fundamentação específica e individualizada. A CPMI recorreu da decisão. [Agência Câmara](https://www.camara.leg.br/noticias/1252019-cpmi-do-inss-decide-recorrer-ao-stf-para-restabelecer-que...)

É importante esclarecer: até o momento, Lulinha não é apontado como responsável direto pelos descontos indevidos realizados nos benefícios previdenciários. Seu nome chegou às apurações em razão de suas relações com personagens investigados, especialmente Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS.

30 de julho de 2026 — cannabis medicinal e Ministério da Saúde

O ministro André Mendonça autorizou a abertura do primeiro dos três inquéritos atuais.

A Polícia Federal apura se Lulinha teria atuado com a empresária Roberta Luchsinger para favorecer a World Cannabis, empresa relacionada ao Careca do INSS, em negócios envolvendo medicamentos à base de canabidiol no Ministério da Saúde.

A PF encontrou referências a contatos com integrantes do governo e até do gabinete presidencial. Também apura uma viagem de Lulinha a Portugal que teria sido custeada pelo empresário investigado.

Segundo reportagens recentes, Roberta teria realizado ao menos 40 visitas a órgãos do governo entre 2023 e 2024, embora somente uma aparecesse em agendas oficiais. Em diálogos analisados pela PF, ela teria alegado falar em nome de Fábio Luís e buscado remuneração de 20% no projeto. O negócio, estimado em centenas de milhões de reais, não foi concretizado.

As suspeitas apuradas nessa frente incluem tráfico de influência e corrupção. As defesas negam irregularidades.

30 e 31 de julho de 2026 — contratos relacionados à Dataprev

André Mendonça autorizou o segundo inquérito.

A investigação procura esclarecer se Lulinha teria atuado em favor de interesses empresariais junto à Dataprev, empresa pública responsável pelo processamento de informações previdenciárias.

A PF suspeita da existência de uma articulação envolvendo Lulinha, o Careca do INSS, Roberta Luchsinger e empresários do setor de tecnologia. Também se apura se uma viagem custeada por um empresário teria alguma relação com eventual ajuda na obtenção de contratos públicos.

Novamente, a principal suspeita é de tráfico de influência. Investigação não equivale a culpa, mas exige respostas.

4 de agosto de 2026 — empresa de tecnologia com R$ 81 milhões em contratos

O ministro Flávio Dino autorizou o terceiro inquérito da Polícia Federal.

Essa frente apura a relação de Lulinha com um sócio da empresa de tecnologia 3Structure IT. A companhia acumulou seis contratos com o governo federal, somando aproximadamente R$ 81,2 milhões.

A suspeita é de que o filho do presidente possa ter utilizado sua proximidade com o governo para favorecer interesses empresariais. O inquérito também apura possível tráfico de influência.

Três inquéritos atuais — e uma pergunta inevitável

Assim, o quadro existente em agosto de 2026 é o seguinte:

- um inquérito sobre cannabis medicinal e atuação junto ao Ministério da Saúde;
- um inquérito envolvendo possíveis interesses empresariais na Dataprev;
- um inquérito sobre uma empresa de tecnologia com R$ 81,2 milhões em contratos públicos;
- uma passagem pela CPMI do INSS, cuja quebra de sigilo foi suspensa por questão procedimental;
- e um histórico envolvendo a Gamecorp e a Oi/Telemar, investigado no passado e arquivado em 2022.

No dia 20 de agosto, a Procuradoria-Geral da República pediu que um dos inquéritos fosse remetido à primeira instância, sob o argumento de que não haveria autoridade com foro privilegiado que justificasse sua tramitação no Supremo. Isso não representa arquivamento nem absolvição. Trata-se, por enquanto, de uma discussão sobre competência: qual juiz deverá acompanhar o caso.

E voltamos à pergunta inicial.

O problema mais importante não é realmente saber onde ele será julgado ou em qual andar do Judiciário o processo tramitará, mas sim se será julgado.

Fábio Luís tem direito a advogado, contraditório e ampla defesa. Isso é constitucional e indiscutível.

O que ninguém deveria possuir é um salvo-conduto político para que três inquéritos sejam tratados como simples coincidência, perseguição automática ou irrelevância eleitoral.

Mas também não se pode impedir uma investigação por causa dele.

Antes de decidir onde Lulinha será julgado, o Brasil precisa saber se realmente acontecerão esses julgamentos, uma vez não haver dúvida do envolvimento dele em inúmeros ambientes e sobre tudo o que ele terá de explicar.

Foto de Jayme Rizolli

Jayme Rizolli

Jornalista.

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