Por sobrevivência governo interino da Venezuela esquece Maduro e o abandona a própria sorte
22/08/2026 às 19:29 Internacional
O governo interino da Venezuela, liderado por Delcy Rodríguez, teria deixado de lado a exigência pela libertação do ex-ditador Nicolás Maduro durante as recentes negociações. A informação foi divulgada pelo jornal britânico Financial Times, com base em relatos de pessoas que acompanharam as conversas.
Segundo a reportagem, as cinco reuniões realizadas em Caracas terminaram sem que representantes do governo colocassem como condição a situação de Maduro ou de sua esposa, Cilia Flores. O silêncio é visto como uma mudança significativa em relação à postura adotada logo após a captura do ex-líder.
Em janeiro, o governo de Rodríguez classificou a prisão de Maduro como uma agressão e exigiu sua libertação. Agora, porém, o tema teria desaparecido das principais discussões políticas, enquanto a administração interina concentra esforços na própria permanência no poder e na recuperação econômica do país.
Para analistas ouvidos pelo Financial Times, a mudança indica que Rodríguez estaria priorizando a estabilidade interna e a aproximação com outros governos, especialmente os Estados Unidos. O governo também passou a facilitar a participação de investidores estrangeiros, inclusive empresas americanas, no setor petrolífero venezuelano.
Enquanto isso, o processo judicial contra Maduro nos Estados Unidos segue seu curso. A avaliação de especialistas citados pelo jornal é que o governo venezuelano estaria evitando uma intervenção direta no caso para não prejudicar seus próprios interesses políticos e econômicos.
A mudança também pode ser percebida na comunicação oficial. Cartazes que pediam a libertação de Maduro foram retirados de algumas cidades, enquanto murais e outras referências públicas ao ex-líder chavista teriam sido apagados ou cobertos.
Delcy Rodríguez também passou a adotar discursos mais discretos, com poucas referências ao antigo chefe do governo. Ao mesmo tempo, segundo o jornal britânico, mudanças vêm sendo realizadas na estrutura militar e política do país.
A postura, no entanto, não é aceita por todos os apoiadores do chavismo. Setores mais fiéis a Maduro criticam as negociações e consideram que o governo não deveria avançar em acordos sem colocar a situação do ex-ditador entre as prioridades.
O cenário revela uma mudança importante dentro do poder venezuelano: a defesa pública de Maduro, que antes ocupava espaço central no discurso oficial, agora parece ter sido substituída por uma estratégia voltada à sobrevivência política do governo interino e à busca por estabilidade econômica.
Yan Gabriel
Acadêmico de Jornalismo.