Depois da carne, da energia e do banco, os irmãos Batista chegam aos mísseis e Lula resolve investir na área

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Durante muitos anos, o nome dos irmãos Joesley e Wesley Batista estiveram associado principalmente aos frigoríficos, à carne e à expansão da JBS. Depois vieram o banco digital, as usinas, o petróleo, a mineração, a celulose e outros negócios estratégicos.

Agora, a família Batista acaba de atravessar uma fronteira muito mais sensível.

Chegou aos mísseis.

A Globe Investimentos, veículo de investimentos pessoais dos irmãos, assinou contrato para adquirir 100% das ações da Nova AVB, controladora integral da Avibras Aeroco, uma das empresas mais importantes da indústria brasileira de defesa.

A operação já foi comunicada ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica, mas ainda depende da aprovação do Cade e do cumprimento dos demais trâmites necessários. O valor da aquisição não foi divulgado.

Portanto, o negócio ainda não foi concluído.

Mas o simples anúncio já exige uma discussão que ultrapassa o universo empresarial.

Não estamos falando da compra de mais um frigorífico, uma fábrica de cosméticos ou uma instituição financeira. Estamos falando do controle de tecnologias militares desenvolvidas durante décadas e diretamente relacionadas à capacidade de defesa e à soberania do Brasil.

A Avibras não fabrica produtos comuns.

Seu portfólio está associado ao sistema de artilharia ASTROS, a foguetes, veículos especiais e ao desenvolvimento do MTC-300, míssil tático de cruzeiro concebido para alcançar alvos a centenas de quilômetros de distância.

É tecnologia de defesa. É conhecimento estratégico. É patrimônio industrial e militar brasileiro.

A empresa entrou em recuperação judicial em 2022, mergulhada em uma grave crise financeira. Suas atividades foram paralisadas, trabalhadores permaneceram durante anos em greve e dívidas se acumularam.

Durante a reestruturação, foi criada a Avibras Aeroco, que passou a concentrar ativos industriais, instalações e tecnologias, enquanto a companhia anterior permaneceu responsável pelos passivos submetidos à recuperação judicial.

Foi essa nova estrutura que despertou o interesse da família Batista.

Antes mesmo do acordo de aquisição, Joesley Batista já havia participado de uma captação privada de R$ 300 milhões coordenada pelo Fundo Brasil Crédito. O valor de sua participação individual não foi divulgado — e é importante registrar que os R$ 300 milhões correspondem ao total da captação, não ao preço da compra.

O contrato agora prevê que a Globe assuma o controle integral da Nova AVB e, indiretamente, da operação industrial da Avibras Aeroco.

Aqui surge uma distinção necessária: embora parte da imprensa tenha anunciado que “a J&F comprou a Avibras”, a própria manifestação empresarial afirma que o investimento pertence ao portfólio pessoal da família Batista e não integra formalmente a J&F S.A.

A correção societária, entretanto, não altera a pergunta fundamental:

É prudente permitir que uma empresa estratégica da defesa nacional fique submetida ao controle de um grupo econômico privado com tamanho poder financeiro e enorme capacidade de influência governamental?

Não se trata de declarar antecipadamente que a compra seja ilegal. Também não se pode insinuar que a Avibras passará a fornecer armas a organizações criminosas ou a qualquer comprador clandestino. Não existe no anúncio qualquer elemento que permita uma acusação dessa natureza.

A discussão séria é outra.

MAIS DINHEIRO PARA A DEFESA — E QUEM ESTARÁ PRONTO PARA RECEBÊ-LO?

A sequência dos acontecimentos torna o negócio ainda mais merecedor de atenção.

Em 24 de julho, o presidente Lula visitou pessoalmente a fábrica da Avibras, em Jacareí. Na ocasião, defendeu Forças Armadas mais preparadas, mais bem equipadas e maiores investimentos no setor de defesa.

No dia 21 de agosto foi anunciado o contrato para que a Globe Investimentos, dos irmãos Batista, assuma o controle da empresa.

No dia seguinte, durante um comício no Rio de Janeiro, Lula prometeu promover uma “revolução na Defesa” e ampliar os investimentos militares do país.

A proximidade das datas, por si só, não comprova qualquer favorecimento.

Até o momento, não existe prova de que as promessas de novos investimentos tenham sido formuladas para beneficiar a Avibras ou seus futuros controladores.

Seria irresponsável afirmar isso.

Entretanto, seria igualmente irresponsável fingir que não existem dúvidas e perguntas evidentes diante de todos nós.

Quando uma empresa privada está prestes a assumir uma fabricante estratégica e, simultaneamente, o governo anuncia que colocará mais dinheiro justamente na área em que ela atua, a sociedade tem o direito de saber:

Quais empresas fornecerão os equipamentos? Quais contratos serão celebrados? Quanto dinheiro público estará envolvido? Quais critérios serão utilizados nas futuras aquisições?

E quais mecanismos garantirão concorrência, transparência e proteção do interesse nacional?

Se haverá uma “revolução na Defesa”, os brasileiros precisam saber antecipadamente quem fornecerá as armas, quem receberá os contratos e quem lucrará com essa revolução.

A coincidência não é prova de conluio. Mas é motivo mais do que suficiente para fiscalização redobrada.

Quem fiscalizará a utilização das tecnologias? Como serão controlados os contratos da empresa e com quem estará comercializando?

Quais mecanismos impedirão transferências inadequadas de conhecimento estratégico?

Quais serão as garantias de continuidade dos projetos de interesse das Forças Armadas?

O governo brasileiro terá instrumentos suficientes para impedir que decisões comerciais se sobreponham à segurança nacional?

E, principalmente: por que uma empresa tão importante para a defesa do país precisou chegar à beira do colapso para somente então encontrar uma solução privada?

O Cade analisará principalmente os efeitos concorrenciais da operação. Mas tecnologia militar não pode ser examinada apenas pelo número de empresas existentes no mercado ou pela concentração econômica de determinado setor.

Um míssil não é um sabonete. Um sistema de artilharia não é uma conta digital.

A soberania de uma nação não pode ser reduzida a uma planilha de aquisição empresarial.

Existe ainda um componente inevitável nessa discussão: o histórico do grupo econômico construído pelos irmãos Batista.

Em 2017, a J&F celebrou acordo de leniência com o Ministério Público Federal, envolvendo obrigações que chegaram a R$ 10,3 bilhões entre multas e investimentos sociais. Joesley e Wesley Batista também celebraram acordos de colaboração premiada no contexto das investigações daquele período.

Mencionar esses fatos não significa afirmar que os empresários estejam impedidos de realizar novos negócios. Significa apenas reconhecer que, quando uma família empresarial com esse histórico assume o controle de uma companhia ligada a armamentos estratégicos, a sociedade tem o direito — e o dever — de exigir transparência redobrada.

Não basta dizer que o controle continuará brasileiro.

É necessário saber quais interesses brasileiros estarão protegidos.

Também não basta comemorar a retomada da fábrica e a preservação dos empregos, embora ambas sejam extremamente importantes. Uma solução financeira pode salvar uma companhia e, simultaneamente, criar novas preocupações estratégicas.

O Brasil precisa de uma Avibras funcionando.

Precisa de engenheiros, técnicos, trabalhadores e pesquisadores empregados.

Precisa manter dentro do país o domínio tecnológico construído ao longo de mais de seis décadas.

Mas precisa igualmente garantir que uma indústria essencial à defesa nacional não se transforme apenas em mais um ativo dentro de um gigantesco portfólio empresarial.

A família Batista começou na carne.

Expandiu-se para energia, banco, mineração, celulose, petróleo e inúmeros outros setores.

Agora chega aos foguetes e mísseis.

Talvez o problema não esteja simplesmente em uma família comprar uma empresa. Talvez esteja no fato de o Brasil ter permitido que uma companhia estratégica fosse fragilizada a tal ponto que sua sobrevivência passasse a depender da vontade de um investidor privado.

O negócio ainda aguarda aprovação.

É justamente por isso que este é o momento de perguntar, fiscalizar e exigir garantias.

Depois que os mísseis mudarem definitivamente de mãos, poderá ser tarde demais para descobrir que o país discutiu apenas o preço — e se esqueceu de discutir a soberania que tanto clama em outras frentes.

Foto de Jayme Rizolli

Jayme Rizolli

Jornalista.

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