Empresária faz inúmeras cirurgias plásticas e morre logo depois
23/08/2026 às 17:40 Sociedade
A empresária Andreia Vieira morreu horas depois de ser submetida a uma série de cirurgias plásticas no rosto e no pescoço, realizadas em um hospital de Goiânia (GO). Segundo Djiane Vieira, irmã da empresária, Andreia apresentou complicações no período pós-operatório e morreu na madrugada seguinte aos procedimentos.
De acordo com a representação criminal apresentada pela família ao Ministério Público de Goiás, as cirurgias começaram na manhã de 11 de agosto e terminaram às 16h20. O óbito foi formalmente declarado às 4h15 do dia 12 de agosto.
Djiane contou à CNN Brasil que acompanhou a irmã durante todo o procedimento. Andreia morava havia cinco anos na Espanha e, segundo a família, economizou durante dois anos para realizar as cirurgias.
"Era o sonho dela", afirmou a irmã.
No dia da operação, as duas chegaram ao hospital por volta das 6h. Os procedimentos foram realizados sob anestesia geral e incluíram intervenções no rosto e procedimentos de contorno corporal. A cirurgia ocorreu das 7h45 às 16h20, com indução anestésica às 8h10.
Entre as intervenções estavam ritidoplastia facial profunda, frontoplastia com redução de testa, mentoplastia óssea e blefaroplastia superior, além de lipoaspiração e nanofat, técnica que utiliza a própria gordura da paciente. Ao todo, os procedimentos custaram R$ 118 mil.
A irmã relatou que havia sido informada de que a operação duraria aproximadamente seis horas. Quando esse período foi ultrapassado, porém, começou a ficar preocupada. Após deixar o centro cirúrgico, Andreia apresentava intenso inchaço na língua e, segundo Djiane, não conseguia fechar a boca.
Ainda de acordo com o relato, o médico responsável informou que o quadro seria uma reação normal do pós-operatório. Com o passar das horas, no entanto, Andreia teria apresentado piora, com falta de ar e dor na região do pescoço.
"Mana, estou morrendo", teria dito Andreia à irmã antes de morrer.
Djiane afirma que tentou buscar atendimento diante do agravamento do quadro, mas considera que os sintomas apresentados pela paciente foram subestimados.
"O que houve com a Andreia foi negligência", declarou.
Questionamentos sobre o pré-operatório
Segundo Djiane, Andreia e o cirurgião responsável nunca haviam se encontrado pessoalmente antes da data da cirurgia. Ela teria conhecido o trabalho do médico por meio das redes sociais e teve o primeiro contato presencial com ele no próprio dia dos procedimentos.
Durante o período de preparação, foi criado um grupo em aplicativo de mensagens que reunia integrantes da equipe hospitalar, Andreia e Djiane, que atuava como acompanhante, para comunicação sobre o estado de saúde da paciente.
Documentos apresentados pela defesa da família apontam que Andreia realizou exames pré-operatórios na Espanha em 18 de junho. Os resultados indicaram sorologia com anticorpos IgM reagentes para Borrelia burgdorferi, bactéria associada à Doença de Lyme, e Brucella. Segundo a representação, os resultados foram enviados à equipe médica em 23 de julho.
A peça apresentada ao Ministério Público sustenta que os exames poderiam indicar um processo inflamatório ou infeccioso ativo ou recente e afirma que não teria sido feita investigação complementar suficiente antes da cirurgia. A família também questiona se os resultados deveriam ter sido considerados na avaliação dos riscos do procedimento.
Djiane afirmou que o médico responsável teria informado que os diagnósticos não representariam um problema para a realização da operação.
Outro ponto levantado pela família é que Andreia havia retornado de uma viagem entre Madrid e o Brasil apenas oito dias antes da cirurgia. A informação, segundo a representação, constava no prontuário e no questionário de triagem hospitalar.
Complicações após a cirurgia
Depois da operação, Andreia foi encaminhada para a Sala de Recuperação Pós-Anestésica e transferida para um quarto de internação comum às 17h40. Conforme a representação da família, ela apresentava edema facial severo e aumento significativo do volume da língua, além de sangue e secreções.
O documento afirma que o cirurgião esteve no quarto por volta das 20h e avaliou que o procedimento havia sido um sucesso. Segundo a representação, ele teria descrito o "inchaço acentuado" e a "sensação de agonia" como reações comuns do período pós-operatório.
Djiane, porém, afirma que a irmã passou várias horas com dificuldades para respirar e sensação de sufocamento. A defesa sustenta que os pedidos de atendimento foram repetidamente minimizados pela equipe de enfermagem.
Durante a noite, segundo a representação, Andreia apresentou piora progressiva da respiração, secreção nas vias aéreas e sensação de afogamento. O documento registra que a paciente teria pedido: "mana, mana, chama um médico" e afirmado que "sentia algo anormal em sua glote".
A peça também afirma que integrantes da equipe de enfermagem teriam respondido que estava "tudo normal". Segundo o relato apresentado pela família, os sintomas chegaram a ser associados a "nervosismo", e as queixas teriam sido classificadas como "frescura" e como se Andreia estivesse "dando piti".
A família afirma possuir gravações em vídeo que registrariam parte do atendimento e sustenta que profissionais de enfermagem teriam relatado dificuldades para conseguir que médicos atendessem aos chamados durante a madrugada.
Por volta das 22h, segundo a representação, Andreia passou a pedir ajuda aos gritos:
"Eu estou morrendo, chama o médico, chama o médico".
Atendimento e morte
Às 0h50 do dia 12 de agosto, uma médica plantonista teria ido ao quarto após ser acionada. Conforme a representação, ela registrou no prontuário a queixa de "desconforto cervical anterior" e prescreveu analgésico e oxigenoterapia por cateter nasal a 2 litros por minuto.
A família questiona se a conduta adotada naquele momento foi suficiente diante da evolução dos sintomas respiratórios. Djiane também afirma que tentou entrar em contato com os médicos pelo grupo de comunicação criado antes da cirurgia, mas não recebeu resposta.
Por volta das 2h15, Andreia sofreu uma queda abrupta da saturação e entrou em parada cardiorrespiratória em assistolia. Às 2h28, Djiane enviou uma mensagem de áudio no grupo da clínica:
"A minha irmã tá morrendo, pelo amor de Deus. Vocês ninguém atende, ninguém aparece, pelo amor de Deus.".
Segundo a representação, o cirurgião chegou ao hospital entre 2h20 e 2h45, quando Andreia já estava em assistolia e recebia manobras de ressuscitação cardiopulmonar realizadas pela médica plantonista e pela equipe de enfermagem.
As tentativas de reanimação não tiveram sucesso. O óbito foi formalmente declarado às 4h15.
Questionamentos sobre a causa da morte
Após a morte, o corpo de Andreia foi encaminhado ao Serviço de Verificação de Óbitos (SVO) de Goiânia. A representação apresentada pela família questiona a condução do exame necroscópico e afirma que o cirurgião teria acompanhado o procedimento realizado no SVO.
De acordo com o documento, o exame registrou secreção mucóide hemorrágica nas vias aéreas, infartos pulmonares nas bases pulmonares e trombose coronariana aguda no tronco da artéria coronária esquerda.
A defesa da família afirma haver divergências entre esses achados e a causa da morte registrada em documento civil. Por isso, pede uma investigação para esclarecer a relação entre os resultados da necrópsia, as cirurgias e as complicações apresentadas durante o período pós-operatório.
A representação também solicita uma perícia médico-legal independente para determinar a causa definitiva e imediata da morte e avaliar a eventual existência de relação entre as condições clínicas anteriores de Andreia, os procedimentos realizados e os problemas respiratórios registrados após a cirurgia.
No dia do enterro, segundo Djiane, o médico responsável pela operação teria conversado com ela e mencionado a possibilidade de "devolver" parte do valor pago pelos procedimentos.
Família busca investigação
A família procurou o Ministério Público de Goiás para solicitar a abertura de um Procedimento Investigatório Criminal (PIC) e a preservação urgente de provas. Entre os pontos que a representação pretende esclarecer estão uma possível violação do dever de cuidado, eventual omissão no atendimento e a existência de nexo causal entre a assistência médica e hospitalar e a morte de Andreia.
"Eu preciso fazer Justiça", afirmou Djiane ao explicar a decisão de buscar as autoridades.
A defesa também questiona se, diante da duração e da complexidade da cirurgia, a paciente deveria ter sido encaminhada para uma unidade de terapia intensiva após o procedimento. A representação afirma que Andreia permaneceu em um quarto comum e questiona a ausência de suporte de UTI no período pós-operatório imediato.
Os advogados enquadram os fatos, em tese, como possível homicídio culposo majorado pela inobservância de regra técnica de profissão. O próprio documento ressalta, entretanto, que a definição de eventual responsabilidade depende de perícia médico-legal independente e que, até o momento, não existem elementos suficientes para afirmar a ocorrência de dolo eventual por parte dos profissionais envolvidos.
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da Redação