
Debate de compadres: Sem graça e sem atrativo (veja o vídeo)

24/08/2026 às 06:50 Opinião

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O primeiro debate presidencial de 2026 terminou com uma característica difícil de ignorar: enquanto os principais adversários estavam fora do estúdio, os três candidatos presentes evitaram grandes confrontos entre si e aproveitaram os microfones para mirar justamente quem não estava lá para responder.
Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante) foram os únicos presidenciáveis que compareceram ao debate promovido pela Band neste domingo (23). Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL) e Romeu Zema (NOVO) não participaram.
O resultado foi um debate que, em vários momentos, pareceu mais uma conversa entre aliados circunstanciais do que um verdadeiro confronto entre candidatos que disputam o mesmo cargo.
Um servindo de escada para o outro
Caiado, Renan e Cury tiveram divergências pontuais, mas o que chamou atenção foi a quantidade de oportunidades em que os candidatos usaram perguntas, respostas e réplicas para desenvolver seus próprios discursos — sem transformar o adversário que estava diante deles no principal alvo.
Em alguns momentos, houve até convergência explícita. Ao discutir segurança pública, Cury e Caiado chegaram a falar em soluções conjuntas, e Cury sugeriu Caiado como eventual ministro da área.
Enquanto isso, os ataques mais duros eram reservados aos púlpitos vazios.
Lula foi o principal alvo da noite. Caiado atacou o governo petista em áreas como educação e economia. Cury criticou o assistencialismo e a polarização. Renan Santos adotou a estratégia mais agressiva, disparando contra Lula e também contra Flávio Bolsonaro.
Antes mesmo do início do programa, Renan havia levado fraldas com os nomes de Lula e Flávio para ironizar as ausências. Caiado, por sua vez, classificou os dois como “fujões”. (Band)
O CONFORTÁVEL “DEBATE DE COMPADRES”
Politicamente, a estratégia é compreensível.
Lula e Flávio lideram a disputa presidencial nas pesquisas e, portanto, representam os principais obstáculos para candidatos que tentam crescer e romper a polarização. Atacá-los é uma forma de buscar espaço justamente entre os eleitores insatisfeitos com os dois polos.
Mas existe uma contradição evidente.
Um debate presidencial deveria servir também para que o eleitor pudesse observar as diferenças entre Caiado, Renan Santos e Augusto Cury. Se os três querem ocupar o mesmo Palácio do Planalto, seria natural que confrontassem entre si suas propostas, seus números, suas experiências e suas contradições.
Em boa parte da noite, porém, o confronto mais pesado foi terceirizado para quem não estava presente.
Foi praticamente o cenário perfeito para os três: cada um apresentou suas bandeiras, recebeu espaço para desenvolver suas ideias e encontrou nos ausentes adversários muito mais convenientes — porque eles simplesmente não podiam responder.
Daí a sensação de um verdadeiro “debate de compadres”.
Os presentes falaram. Os presentes se ajudaram a construir narrativas. E quem mais apanhou foram justamente os ausentes.
No fim, Lula e Flávio Bolsonaro podem até ser criticados pela decisão de não comparecer. Mas, paradoxalmente, suas ausências fizeram com que continuassem ocupando boa parte do debate.
Mesmo sem estar no palco, foram eles que permaneceram no centro da disputa.
Veja o vídeo:
Emílio Kerber Filho
Escritor e Estrategista Político. Criador do método Arquitetura Eleitoral:
https://emiliokerber.com.br/
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