Indicado por Trump para a embaixada no Brasil se manifesta sobre a eleição
25/08/2026 às 16:06 Internacional
O político republicano Daniel Perez, indicado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para assumir a embaixada norte-americana no Brasil, afirmou que não pretende interferir nas eleições brasileiras de outubro. Em entrevista a uma emissora de Miami, ele declarou que a escolha do próximo presidente cabe exclusivamente aos brasileiros e que trabalhará com qualquer candidato que sair vencedor.
Embora sua indicação já tenha sido aprovada pelo Senado dos Estados Unidos, Perez ainda depende do aval do governo do petista Lula para assumir oficialmente o posto diplomático em Brasília. Segundo ele, a posição que adotará no Brasil será de respeito ao processo eleitoral e de cooperação com o governo que for escolhido nas urnas.
"Isso cabe aos brasileiros decidir e eles têm um processo eleitoral pelo qual precisam passar em outubro. Quem quer que saia como vencedor, será o líder do Brasil e será com quem estarei trabalhando", afirmou à WPLG Local 10, no domingo (23).
Perez reforçou que, neste momento, sua atenção está voltada principalmente para a política norte-americana, especialmente para a Flórida. Ele voltou a destacar que não pretende exercer qualquer influência sobre a disputa eleitoral brasileira.
"Mas não, estamos aqui nos Estados Unidos agora, e as eleições nos Estados Unidos são as importantes para mim, especificamente na Flórida, claro. Mas a eleição no Brasil cabe aos brasileiros decidir, e quem quer que eles decidam como vencedor será a pessoa com quem trabalharei", reiterou.
Caso seja autorizado a assumir a embaixada, Perez afirmou que sua primeira preocupação será garantir a segurança dos cidadãos norte-americanos que vivem ou estão de passagem pelo Brasil. Na sequência, segundo ele, a prioridade será fortalecer a relação diplomática entre os dois países.
"O primeiro objetivo será sempre a segurança e a proteção dos americanos que estão no Brasil", declarou.
"Logo depois disso, virá a diplomacia. Agora, há um certo impasse entre o Brasil e os Estados Unidos e é um país difícil para se estar em impasse, porque eles são um parceiro comercial muito grande para nós, o maior da América do Sul", acrescentou.
O republicano disse ainda esperar que a aproximação entre os dois governos permita reduzir as divergências atuais e ampliar a cooperação bilateral.
"Acredito que assim que eu colocar os pés no chão e construir esses relacionamentos, com sorte poderemos diminuir essa distância e continuar avançando de forma positiva. Esse é o objetivo, pelo menos. Mas acho que até eu chegar lá, é difícil dizer", completou.
Interesses econômicos dos EUA serão prioridade
Durante a entrevista, Perez também foi questionado sobre as tarifas impostas pelo governo Trump a produtos brasileiros e sobre a recente conversa telefônica entre Donald Trump e Lula.
O indicado para a embaixada afirmou que pretende participar das negociações defendendo prioritariamente os interesses econômicos dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, disse acreditar que existe espaço para acordos que beneficiem os dois países.
"Não fui tímido quanto a isso. Claro que quero diplomacia. Claro que quero que nossos países se entendam. Mas estou lá em uma única missão, que é garantir que os Estados Unidos fiquem em uma posição melhor amanhã do que estão hoje", declarou.
"Parte disso é a economia. E acho que há um espaço aqui onde ambos os países podem ganhar. Há alguns setores em que estamos sendo taxados em 18, 19%. Etanol é um bom exemplo, por parte dos brasileiros. E estamos reciprocando essa taxa agora em 1,5%, 1%. Então, o que acho que estamos buscando aqui é apenas algum tipo de reciprocidade quando falamos de tarifas e impostos de modo geral", continuou.
Perez afirmou não conhecer os detalhes da conversa entre Trump e Lula, mas avaliou que os dois presidentes devem buscar uma solução que seja favorável aos respectivos países.
"Mas tenho certeza de que ambos estão tentando chegar a um acordo que seja benéfico para seus países", pontuou.
Filho de cubanos, Perez também comentou o crescimento da comunidade de imigrantes cubanos no Brasil, especialmente em Curitiba. Ele afirmou ter se surpreendido com o número de pessoas que deixaram Cuba e passaram a viver no país.
"Eu não tinha ideia [de que havia tantos cubanos que imigraram para o Brasil]. E veja, você não pode culpá-los por tentar fugir da ilha de Cuba do jeito que está hoje. Acho que está em uma posição terrível. Acho que os americanos têm sido muito vocais sobre nossas crenças em relação ao regime, especificamente agora com as péssimas condições e a falta de direitos humanos que existem lá", disse o republicano.
O futuro embaixador afirmou que pretende conhecer melhor a situação dos cubanos no Brasil depois de assumir o cargo, caso receba a autorização necessária.
"Assim que eu chegar lá, avaliarei a situação e verei como é. Mas não fui informado sobre nada disso formalmente [...] Não foi surpreendente. Quero dizer, cubanos são lutadores. Somos resilientes. E acho que o que estamos sempre procurando é apenas oportunidade. E se o Brasil está dando a eles essa oportunidade, então é provavelmente por isso que tentaram sair de Cuba e encontraram um novo lar no Brasil", concluiu.
Perez ainda depende de aval do governo brasileiro
Apesar da aprovação de sua indicação pelo Senado dos Estados Unidos, Daniel Perez ainda não pode assumir a embaixada em Brasília. O governo brasileiro precisa conceder o chamado "agrément", documento pelo qual o país receptor manifesta formalmente sua concordância com a indicação de um representante diplomático estrangeiro.
No início do mês, Lula afirmou em entrevista que "não vai receber embaixador nenhum no Brasil até as eleições". Até o momento, o governo brasileiro não concedeu o aval para Perez.
Segundo o professor da Temple University, Lucas de Souza Martins, sem o agrément não é possível dar prosseguimento à nomeação. Ainda existem, posteriormente, formalidades previstas na Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas, como a comunicação ao Itamaraty sobre a chegada do representante e a apresentação das cartas credenciais.
O impasse diplomático entre Brasília e Washington se agravou após o governo Trump revogar o visto da embaixadora brasileira nos Estados Unidos, Maria Luiza Ribeiro Viotti. Uma autoridade do Departamento de Estado norte-americano classificou a medida como uma ação recíproca diante da demora brasileira em conceder o agrément para Perez.
Os Estados Unidos afirmaram que o visto da embaixadora brasileira será restabelecido imediatamente caso o governo brasileiro conceda o aval ao indicado por Trump.
O Palácio do Planalto, por sua vez, criticou a decisão norte-americana e afirmou que o processo de concessão do agrément é confidencial. Segundo o governo brasileiro, o nome indicado deveria ser divulgado somente depois da anuência.
"O governo dos Estados Unidos anunciou publicamente o nome de seu candidato antes de apresentar o pedido formal de agrément ao governo brasileiro. O Brasil segue estritamente o direito internacional. Não há regra na Convenção de Viena estipulando prazo para a concessão do agrément. O pedido norte-americano ainda se encontra em análise", completou o governo brasileiro.
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da Redação