Do latim à tabuada do dois, o declínio da educação brasileira
28/08/2026 às 12:00 Opinião
Houve um tempo em que ir à escola significava realmente ESTUDAR.
Na escola de minha geração, aprendíamos Português, Matemática, História, Geografia, Ciências e Educação Moral e Cívica.
Havia espaço para Música, Francês e até Latim. Não porque todos fossem destinados a se tornar músicos, diplomatas ou sacerdotes, mas porque a escola compreendia que sua missão era ampliar a inteligência, enriquecer o vocabulário, transmitir cultura e formar cidadãos.
Decorávamos a tabuada, fazíamos análise sintática, conhecíamos os principais acontecimentos da história do Brasil e sabíamos localizar nosso país no mapa. O aluno podia até reclamar — e reclamava — mas precisava estudar, respeitar o professor e demonstrar que havia aprendido.
Hoje, infelizmente, o Brasil conseguiu realizar uma façanha: ampliou o acesso à escola, distribuiu diplomas e multiplicou projetos pedagógicos, mas não garantiu que o estudante saísse dela sabendo ler, interpretar e calcular.
Em contrapartida, domina como ninguém UM CELULAR.
Os números comprovam o desastre. No PISA 2022, apenas 27% dos estudantes brasileiros de 15 anos atingiram o nível mínimo de proficiência em Matemática. Isso significa que aproximadamente sete em cada dez ficaram abaixo do conhecimento básico esperado para sua idade.
Não estamos discutindo trigonometria avançada ou física quântica. Estamos falando da capacidade de compreender e resolver situações matemáticas simples.
A escola que ensinava Francês e Latim agora luta para ensinar Português. A que exigia História e Geografia vê jovens incapazes de compreender a própria formação do país. A que cobrava a tabuada assiste a adolescentes utilizando a calculadora do celular para descobrir quanto é sete vezes oito.
E não adianta culpar exclusivamente o professor.
O professor foi desautorizado, desrespeitado e transformado em refém de um sistema que muitas vezes proíbe a reprovação, relativiza a disciplina e troca o conhecimento por intermináveis experiências pedagógicas.
Além disso, ele disputa diariamente a atenção dos estudantes com celulares, vídeos de poucos segundos, jogos, influenciadores e redes sociais construídas justamente para produzir dependência.
A frase pronunciada no recente debate presidencial resume dolorosamente essa realidade:
“OS PROFESSORES SÃO COZINHEIROS DO CONHECIMENTO, SERVINDO UM BANQUETE PARA UMA PLATEIA SEM APETITE.”
O banquete continua sendo preparado. O professor ainda chega à sala carregando livros, experiência e dedicação. Mas diante dele frequentemente encontra uma geração intoxicada pela distração, incapaz de permanecer alguns minutos concentrada e convencida de que qualquer informação encontrada na internet equivale a conhecimento.
Não equivale.
Informação é encontrada em segundos. Conhecimento exige atenção, esforço, memória, disciplina e reflexão.
Também precisamos recuperar o ensino consistente de História e a formação cívica — não necessariamente ressuscitando a antiga OSPB com o mesmo formato, mas ensinando Constituição, direitos, deveres, funcionamento das instituições e responsabilidade individual.
Um jovem que desconhece a história do próprio país torna-se presa fácil de qualquer discurso político embalado em vídeos de trinta segundos.
Em muitas redes de ensino, até a reprovação passou a ser tratada como um mal maior do que a falta de aprendizagem. Sob diferentes nomes — ciclos, progressão continuada, recuperação permanente — o aluno avança de série acumulando deficiências que jamais foram corrigidas.
Evita-se a repetência no papel, mas transfere-se o problema para o ano seguinte, até que o estudante receba um diploma sem dominar leitura, interpretação ou as operações matemáticas mais elementares.
Criamos uma escola na qual o aluno progride administrativamente, enquanto seu conhecimento permanece estacionado.
No final, melhoramos a estatística da aprovação e condenamos o jovem à reprovação mais cruel de todas: aquela aplicada pela vida, sem recuperação, conselho de classe ou segunda chamada.
O declínio da educação não começou ontem e não será corrigido com mais um programa de nome bonito, mais uma plataforma digital ou mais uma mudança de currículo. Será necessário devolver autoridade ao professor, responsabilidade à família, disciplina ao aluno e conhecimento à escola.
E isso deve começar muito antes deles irem para a escola formal, na formação básica em casa e em creches e escolas infantis.
Porque um país que abandona o Latim, o Francês, a Música, a História e a tabuada não se torna moderno.
Torna-se apenas um país com milhões de pessoas conectadas — mas cada vez menos preparadas para compreender aquilo que recebem pela tela.
*Referência: no PISA 2022, somente 27% dos estudantes brasileiros atingiram ao menos o nível básico de proficiência em Matemática, diante de uma média de 69% nos países da OCDE.
Jayme Rizolli
Jornalista.