A falência de uma empresa que nem deveria ter existido e só sobreviveu graças aos laços com o poder

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“Temos que fazer os italianos na marra, que estão com o Opportunity. Combina uma reunião para fechar o esquema. Eu vou praí às 6h30 e às 7 horas a gente faz a reunião. Fala pro Pio que vamos fechar (os consórcios) daquele jeito que só nós sabemos fazer.”

Essa fala, que veio à tona graças a gravações ilegais no BNDES, é de Luiz Carlos Mendonça de Barros, em 1998, então ministro das Comunicações de FHC e responsável pela privatização do sistema Telebras. Seu interlocutor era André Lara Resende, então presidente do BNDES, e traduzia o empenho de Mendonça de Barros em favorecer o grupo coordenado pelo Banco Opportunity, de Daniel Dantas, que reunia recursos dos principais fundos de pensão estatais e tinha como operador técnico a Telecom Itália, hoje controladora da TIM.

O “grampo do BNDES”, como o episódio ficou conhecido, tornou-se público somente em novembro de 1998, 4 meses após a privatização da Telebras. Portanto, podemos dizer que os esforços de Mendonça de Barros fracassaram, porque o Opportunity não venceu o leilão da região Norte-Nordeste, que era o objeto da conversa gravada. Foi essa conclusão a que a justiça chegou 10 anos depois, em uma ação proposta, adivinha, pelo PT, para tentar anular a privatização. Mas isso é o de menos. O que importa aqui é entender o contexto da fala de Mendonça de Barros na época, e o que isso tem a ver com a falência da Oi. Para isso, precisamos lembrar o modelo usado para privatizar a Telebras.

O governo FHC dividiu as operadoras estaduais de telefonia em três grandes blocos geográficos de telefonia fixa que, na época, representavam o grosso do faturamento: São Paulo, Sul-Centro-Oeste e Norte-Nordeste. São Paulo foi arrematada pela Telefônica espanhola (hoje Vivo), o Sul-Centro-Oeste foi arrematado pelo consórcio Opoortunity-fundos de pensão-Telecom Itália (depois Brasil Telecom) e o Norte-Nordeste por um grupo de empresas brasileiras, a Telemar, carinhosamente apelidada pelo mercado de Telegangue. O objetivo de Mendonça de Barros era tirar da jogada Jereissati, que não tinha nenhuma operadora de telefonia em seu grupo e nem a capacidade financeira necessária para tocar o negócio. Por isso, o plano (no final frustrado) era “fazer o Opportunity-Telecom Itália” no Norte-Nordeste.

Assim torta começou a história da Telemar. E quando a coisa começa torta, é difícil endireitar. Com o passar do tempo, foi ficando claro que Mendonça de Barros tinha razão, e a fragilidade financeira da Telemar foi ficando evidente. Foi então que, 10 anos depois da privatização, em 2008, o governo Lula fez aprovar o fim do monopólio geográfico na telefonia fixa, ação sob medida para permitir a compra da Brasil Telecom pela Telemar, agora já sob o nome de Oi. Era o plano da “supercampeã nacional”, que disfarçava, na verdade, a tentativa de ganhar escala em um business cada vez mais inviável economicamente.

Com o passar do tempo e o crescimento da telefonia móvel e tráfego de dados, a Oi foi ficando para trás, perdendo terreno para a espanhola Vivo, a italiana TIM e a mexicana Claro, que havia arrematado a Embratel na privatização. Ontem, terminou definitivamente, e de maneira melancólica, a história de uma empresa que nem deveria ter existido, e que sobreviveu somente graças aos laços que cultivou no Poder. R.I.P Telemar.

Marcelo Guterman. Engenheiro de Produção pela Escola Politécnica da USP e mestre em Economia e Finanças pelo Insper.

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