A acusada

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Os alemães que se aventuraram a aprender português no Brasil sempre tiveram uma dificuldade particularmente curiosa quanto aos artigos definidos. Era um tal de trocar “a” por “o” e “o” por “a” que dava vontade de criar uma gramática especialmente para eles.

O sujeito queria dizer “minha esposa” e saía “meu MARIDA”; pretendia falar “minha casa” e dizia “meu casa” e quando alguém corrigia, ele fazia um esforço danado para acertar, até que, certa vez, numa reunião de amigos, uma senhora de porte avantajado estava tranquilamente sentada numa cadeira de balanço, num movimento mais brusco, perdeu o equilíbrio e abriu as pernas desajeitadamente, quase indo ao chão, quando a filha, assustada, gritou: - ACUDA, MAMÃE! O alemão, impressionado com a cena e convencido de que finalmente dominava a língua portuguesa, tratou logo de corrigir: - O certo é: OCU DA MAMÃE!

Foi um daqueles momentos em que ninguém sabia se corrigia o português ou simplesmente mudava de assunto, mas a história fica ainda melhor quando fazemos a pergunta:

- Qual era o nome do filme que uma mulher muito pesada ia assistir e, ao sentar-se na cadeira do cinema, quebrou a dita CUJA e acabou com as nádegas no chão?

Se você respondeu ACUSADA, parabéns porque certamente está acompanhando as notícias políticas brasileiras e percebeu que, neste país, até os trocadilhos parecem ter vocação para virar manchetes.

A palavra “ACUSADA”, aliás, ganhou uma sonoridade especialmente conveniente quando apareceram notícias envolvendo o filho do PRESODENTRO, o gênio das finanças conhecido como LULINHA e a empresária Roberta Luchsinger, cuja relação se tornou alvo de intenso escrutínio público devido a três inquéritos da Polícia Federal autorizados pelo STF, que investigam um suposto esquema de tráfico de influência, corrupção no governo federal, envolvendo dinheiro pesado com olhos voltados para a Suíça, Lobby, Sociedade Oculta, acesso ao "Núcleo Duro" e até fornecimento de Cannabis Medicinal para o Ministério da Saúde, culminando com informações sobre um processo trabalhista movido por uma ex-empregada doméstica de Roberta em cuja ação judicial, a funcionária referiu-se erroneamente a Lulinha como "marido" da empresária, como diria o alemão a MARIDA ou MAMANTE, do verbo MAMAR.

Mas há uma diferença fundamental entre uma piada e uma notícia: na piada, basta o trocadilho funcionar, na notícia, é preciso que os fatos sejam comprovados e talvez seja justamente aí que esteja a grande ironia da política brasileira: enquanto o eleitor tenta entender se deve prestar atenção no “a” ou no “o”, Brasília parece empenhada em descobrir onde foi parar o “A” de acordo, no fim sobrando para o cidadão a cadeira quebrada, o ingresso do filme na mão e uma pergunta que nenhum curso de português conseguiu responder: - Quem está sentado na cadeira... e quem está pagando a conta?

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