Muito breve, Lula nem mesmo saberá quem é Lulinha...
28/08/2026 às 11:39 Opinião
O problema de uma negativa absoluta é que ela não deixa espaço para a realidade entrar. Quando entra, derruba a porta.
Na sabatina da TV Globo de 27 de agosto, Lula afirmou, sobre Roberta Luchsinger:
“Eu não conheço essa moça. Nunca vi essa moça na minha vida.”
A cobertura da entrevista também reuniu fotografias em que os dois aparecem juntos.
A empresária é amiga de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha.
O presidente apresentou a negativa. O arquivo apresentou as fotografias.
É preciso separar as coisas: posar ao lado de alguém não comprova amizade, sociedade, favorecimento ou participação em crime. Uma personalidade pública pode ser fotografada com pessoas de quem sequer sabe o nome. Mas existe uma distância enorme entre não manter relações com alguém e afirmar que nunca a viu.
É justamente nessa distância que a explicação presidencial tropeça.
Segundo a coluna de Mônica Bergamo, aliados sustentam que Lula não sabia quem Roberta era e que os registros ocorreram em eventos públicos, sem interação significativa.
Essa é a versão apresentada em sua defesa. Ela pode explicar a ausência de familiaridade; não elimina a necessidade de corrigir uma afirmação tão categórica.
Quando a frase não cabe nos fatos, quem precisa mudar é a frase. Os fatos não têm obrigação de emagrecer para caber no discurso.
O cidadão tem o direito de ouvir uma resposta simples: houve encontros? Em quais circunstâncias? Existia apenas contato de ocasião? O presidente não se recordava? Então que esclareça.
O que não serve é oferecer certeza diante das câmeras e deixar aos assessores o trabalho de instalar ressalvas depois.
A Presidência exige mais responsabilidade do que uma conversa de esquina. Cada negativa enfática compromete a credibilidade de quem a pronuncia. E indignação, por mais teatral que seja, não substitui precisão.
Quanto às suspeitas envolvendo Lulinha, Lula disse que o filho deverá responder se tiver cometido algum ilícito. Ótimo: essa deve ser a regra para qualquer cidadão.
As investigações precisam produzir provas, e as defesas precisam ser ouvidas. Fotografias não são sentenças — assim como a palavra de um pai não encerra uma apuração.
A cobrança política, porém, já pode ser feita. Não é necessário antecipar uma condenação para exigir uma explicação coerente.
O Brasil não precisa de um presidente que se lembre de cada rosto. Precisa de um presidente que reconheça os limites da própria lembrança antes de transformá-la em verdade incontestável.
Muito breve, Lula nem mesmo saberá quem é Lulinha......
O eleitor não é figurante de coletiva. E a realidade não é assessora de imprensa: não recebe ordens para confirmar a versão do chefe.
Jayme Rizolli
Jornalista.