
Entrevistas da Globo: Lula e o Realismo Fantástico na Terra dos Papagaios

29/08/2026 às 07:29 Opinião

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Salve, seu Zé!
Ontem, ao assistir a entrevista de Lula, dois momentos marcantes: a sua entrada, de braço dado com sua estabanada mulher, acompanhado de um séquito de puxa-sacos e depois, já sentado na bancada, quando ele abriu a boca para vender a lua aos brasileiros.
No primeiro momento, caminhando pelos corredores da TV Globo, Lula era tão somente um capiau desengonçado ao qual vestiram um terno caro, uma espécie de manequim mal ajambrado, enfeitado meticulosamente, mas nada que se fizesse, ou que inventasse para melhorá-lo era capaz de esconder sua jeguice. Olhando direito era apena um caipira simplório, cheio de si, satisfeito com a vida de rei que levava e ia apenas contar mais uma série de lorotas ao povo incauto que seu grupo governava há mais de 20 anos. A Terra dos Papagaios tornou-se uma ditadura fantasiada de democracia e seus habitantes não conseguem abrir os olhos para realidade. Vivem uma utopia infindável.
No segundo momento, quando já sentado na bancada, frente aos jornalistas da Globo, Lula abriu a boca para vender a lua aos brasileiros, suas palavras trouxeram a minha mente o realismo fantástico contido na obra prima de Gabriel Garcia Marques, “Cem Anos de Solidão”: no capitulo XV a cidade de Macondo é destruída porque os trabalhadores protestaram contra as condições de trabalho e de vida e 3 mil pessoas foram massacradas pelo governo ...
“José Arcadio Segundo não falou enquanto não terminou de tomar o café”.
- Deviam ser uns três mil - murmurou.
- O quê?
- Os mortos - esclareceu ele. - Deviam ser todos os que estavam na estação. A mulher mediu-o com um olhar de pena. “Aqui não houve mortos”, disse.
“Desde a época do seu tio, o coronel, que não acontece nada em Macondo.”
- “A versão oficial, mil vezes repetida e repisada em todo o país por quanto meio de divulgação o Governo encontrou ao seu alcance, terminou por se impor: não houve mortos, os trabalhadores satisfeitos tinham voltado para o seio das suas famílias, e a companhia bananeira suspendia as suas atividades até passar a chuva”.
A Terra dos Papagaios é o realismo fantástico de Macondo, onde nada aconteceu e tudo aconteceu, mas nada aconteceu, segundo a versão oficial.
Nesse realismo fantástico Lula representa para o povo ignaro uma espécie de Zé Pilintra (ou Zé Pelintra) entidade de algumas religiões de matriz afro-brasileira, como a Umbanda e o Catimbó/Jurema Sagrada. Conhecido como o patrono dos bares, das casas de jogos e da boemia, ele representa o arquétipo do "malandro" carioca, mas no sentido de usar a inteligência, a malícia positiva e o jogo de cintura para sobreviver às dificuldades da vida e ajudar os necessitados. Ele é carinhosamente chamado de "advogado dos pobres”.
É nessa mistura de real com elementos mágicos e sobrenaturais que Lula mistura o cotidiano, a vida do país, o seu desastrado desgoverno, tratando o impossível com total naturalidade e todas as roubalheiras como algo comum, algo que simplesmente acontece. Nessa gororoba irreal, o passado, o presente e o futuro são elementos que ele combina para, simplesmente, engabelar incautos, seja oferecendo promessas extraordinárias, seja para se gabar de que é o maioral de todos os tempos. E relatou assim ao povo brasileiro, respondendo interrogações, o acontecido não acontecido:
Sobre as traquinagens de seu filho Lulinha alvo de três inquéritos no STF:
- “Não tem nenhuma acusação. São ilações e eu conheço muito bem isso. Se o Fábio cometer qualquer ilícito, ele terá que pagar. Eu não vou afastar delegado da Polícia Federal, eu não vou fazer qualquer movimento pelo meu filho. Eu não vou fazer qualquer movimento para que ele não seja condenado. Ele sabe o que passei, sabe que a Marisa morreu por causa da Lava Jato e ele sabe que não pode ter cometido erro.
Ainda sobre ele e o seu filhote acusado de trambiques:
- “Você conhece isso melhor do que ninguém. (…) Eu poderia ter feito qualquer coisa para não prestar depoimento. Fiquei 580 dias na cadeia porque só eu sabia a verdade. E eu queria provar a imprensa estava divulgando coisas mentirosas, que o Moro tinha mentido para a imprensa. Que o Dallagnol [Deltan] tinha mentido para a imprensa. Com meu filho vai acontecer a mesma coisa.
Só meu filho sabe a verdade. Ele não será protegido por ser filho, meu irmão, nada, portanto ele sabe o que tem que fazer. Ele tem que provar a inocência dele. Vamos esperar o tempo. Não haverá um milímetro de movimento para proteger meu filho. A acusação foi feita, a PF está investigando. A PF está vazando as coisas para a imprensa. Espero que haja um julgamento. Se for culpado, pagará preço. Se não for, ele será inocentado.”
Provas não são provas, não existem:
“Estou dizendo para você…Até agora, não tem uma prova de um centavo público. Nada de conversa do meu filho com qualquer ministro.”
Conhecia a lobista?
- “Nunca estive com ela. Nunca. É de uma imbecilidade. Eu não conheço essa moça. Nunca vi essa moça na minha vida. Nunca conversei com essa moça. Ela nunca esteve próxima de mim sabe, e, se ele tiver que prestar depoimento, irá prestar depoimento. O que uma pilantra pode fazer no telefone? O que um cara qualquer pode fazer no telefone? Eu estou dizendo para você que, esse fato de ter pego conversa no telefone, não justifica absolutamente nada”.
Sobre o chefe de gabinete da Presidência, Marcola:
- “Leva suspeitas, lógico que leva. Porque o Marco Aurélio é meu chefe de gabinete. O papel dele… A imprensa diz que ela é lobista, mas o papel dele é encaminhar para os ministérios. Essa mulher conseguiu liberar o dinheiro que estava atrás? Tem prova de dinheiro? Aí é que está o crime. Por isso que eu não sou precipitado. Como eu não sou juiz, vou devagar com isso”.
Sobre os pagamentos que a lobista saldou (217 mil reais) em faturas de cartão de crédito, entre outras despesas, para Marcola:
- “Não é adequado. É totalmente errado. E o Marcola sabe do erro que ele cometeu. Ele sabe da importância de ser chefe. Ele diz que tomou o empréstimo, só ele sabe a verdade. Quando tiver uma acareação, eles que vão saber. Eu acredito na versão dele, que é empréstimo. Eu disse a ele: ‘Por que você não falou comigo?’ Agora, se cometeu erro, vai pagar pelo que cometeu. É uma pessoa da minha confiança. Ele ficou comigo o tempo todo que fiquei preso no Paraná”.
Depois de dar essas explicações fantásticas, ainda teve a ousadia de ensinar o que deviam perguntar a ele. Renata perguntou:
- “A dívida pública no seu governo ultrapassou os 10 trilhões de reais ... No seu governo, a dívida disparou 10 pontos percentuais, atingiu 82% do PIB e essa trajetória pressiona os juros, que encarece o crédito, que dificulta o investimento e que pesa no bolso das famílias ... então eu quero saber do senhor: quais são as suas metas e para qual percentual do PIB o senhor pretende trazer essa dívida?”
O Maioral da Terra dos Papagaios, não aceitou a pergunta e disse como ela devia ser formulada:
- “Renata, eu pensei que uma jornalista da tua qualidade, da tua competência, pudesse começar essa pergunta falando diferente. Você poderia dizer: presidente Lula, o senhor foi o único presidente na história do Brasil que fez superávit primário durante oito anos do seu primeiro mandato”.
Como dizia Caco Antibes, parece que o Brasil jogou pedra na cruz. É quase irreal tudo isso. Mas é real. É verídico.
Assim como em Macondo, nada aconteceu, mas tudo aconteceu:
- “A versão oficial, mil vezes repetida e repisada em todo o país por quanto meio de divulgação o Governo encontrou ao seu alcance, terminou por se impor: não houve mortos, os trabalhadores satisfeitos tinham voltado para o seio das suas famílias, e a companhia bananeira suspendia as suas atividades até passar a chuva”. (Gabriel Garcia Marques – “Cem Anos de Solidão”, pág. 425).
Carlos Sampaio
Professor. Pós-graduação em “Língua Portuguesa com Ênfase em Produção Textual”. Universidade Federal do Amazonas (UFAM)











