Aécio Neves quer voltar ao senado... E não chega de mãos vazias
30/08/2026 às 21:45 Opinião
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial.
Aécio Neves decidiu que deseja voltar ao Senado Federal por Minas Gerais. Depois de anos mantendo uma presença política muito mais discreta do que nos tempos em que disputou a Presidência da República, ele reaparece oferecendo novamente seu nome ao eleitor mineiro.
E não se pode dizer que esteja chegando de mãos vazias.
Aécio traz consigo uma “grande bagagem política”. Tão grande que talvez seja prudente abri-la diante do eleitorado antes de permitir que seja novamente despachada para Brasília.
Dentro dela está a gravação de 2017, na qual pediu R$ 2 milhões ao empresário Joesley Batista. A defesa afirmou que se tratava de um empréstimo pessoal, e a Justiça absolveu Aécio da acusação de corrupção passiva por não ter sido comprovada uma contrapartida relacionada ao exercício de sua função pública.
A absolvição deve ser respeitada. Mas o eleitor também tem o direito de avaliar politicamente o significado daquela relação, daquele pedido e da forma pela qual o dinheiro foi entregue a intermediários próximos ao parlamentar.
Na mesma bagagem encontra-se aquela frase que entrou para a história política brasileira:
“Tem que ser um que a gente mata ele antes de fazer delação.”
A defesa explicou que era uma brincadeira, uma maneira informal de falar. Não existe prova de que tenha sido uma ordem real para matar alguém. Ainda assim, é perfeitamente legítimo perguntar se essa é a linguagem que o cidadão espera ouvir de alguém que deseja representá-lo no Senado da República.
Também está guardado o episódio em que, em 2017, o Senado derrubou por 44 votos a 26 as medidas cautelares impostas pelo Supremo Tribunal Federal, devolvendo a Aécio o exercício do mandato. Aquela votação não foi uma absolvição criminal. Foi uma demonstração bastante clara de como o sistema político sabe proteger os seus integrantes quando a situação aperta.
Há ainda o controverso aeroporto construído com recursos públicos no município mineiro de Cláudio, em terreno desapropriado de um parente do então governador. Aécio admitiu que utilizou a pista antes de sua autorização operacional. O caso acabou arquivado e, portanto, não pode ser apresentado como crime comprovado. Mas o arquivamento judicial não elimina o direito de o eleitor questionar as prioridades administrativas e o padrão de conduta de quem comandava o estado.
A Cidade Administrativa de Minas Gerais também ocupa espaço considerável nessa bagagem. Delações e acusações do Ministério Público mencionaram supostos conluios entre empreiteiras, superfaturamento e pagamento de vantagens. O inquérito criminal foi arquivado depois da invalidação de provas provenientes dos acordos da Odebrecht, e a ação de improbidade relacionada ao caso também foi encerrada.
Existiram ainda investigações envolvendo Furnas, Odebrecht, Andrade Gutierrez, OAS e o programa Luz para Todos. Algumas foram arquivadas por insuficiência de provas; em outra, o STF rejeitou a denúncia por considerá-la genérica e sem suporte suficiente.
Portanto, é necessário afirmar com honestidade: Aécio Neves não foi condenado nesses episódios e não pode ser tratado como culpado por crimes que a Justiça não reconheceu como comprovados.
Mas existe uma diferença enorme entre possuir uma condenação criminal e merecer novamente a confiança política da população.
A Justiça decide se existem provas suficientes para condenar alguém dentro de um processo. O eleitor decide se as atitudes, as companhias, as conversas, as escolhas administrativas e o conjunto da trajetória de um candidato são compatíveis com o mandato que ele pretende ocupar.
Um processo arquivado encerra uma investigação. Não apaga uma gravação.
Uma absolvição impede que alguém seja chamado de criminoso. Não obriga o cidadão a esquecer o comportamento que testemunhou.
A ausência de condenação garante direitos jurídicos. Não produz automaticamente uma certidão de excelência moral, administrativa ou política.
Talvez Aécio esteja apostando justamente na memória curta do brasileiro. O tempo passou, as manchetes diminuíram, os escândalos mais recentes empurraram os antigos para o fundo das gavetas e a poeira política finalmente parece ter baixado.
Agora ele surge novamente como se estivesse oferecendo uma candidatura renovada.
Mas o nome é o mesmo. A trajetória é a mesma. As gravações continuam existindo. Os episódios continuam fazendo parte de sua biografia.
E a bagagem, embora juridicamente aliviada por absolvições e arquivamentos, permanece politicamente pesada.
A pergunta que Minas Gerais precisa responder não é se Aécio Neves pode disputar uma eleição. Evidentemente, pode, desde que esteja legalmente habilitado.
A verdadeira pergunta é outra:
Depois de tudo o que o Brasil já ouviu, viu e conheceu, é essa continuidade que o eleitor deseja mandar novamente para o Senado?
Aécio está de volta. Resta saber se a memória do povo também estará.
Jayme Rizolli
Jornalista.