
O “painho dos pobres”: Basta um microfone falhar para que a ternura desapareça

30/08/2026 às 19:17 Opinião

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Lula gosta de se apresentar como alguém próximo do trabalhador, defensor dos humildes e conhecedor das dificuldades enfrentadas por quem ocupa os degraus inferiores da estrutura social.
É o “painho dos pobres”.
Mas basta um microfone falhar para que a ternura desapareça do palanque.
Durante um ato de campanha realizado na sexta-feira, 28 de agosto, no bairro da Liberdade, em Salvador, Lula enfrentou sucessivos problemas com o equipamento de som. Quando recebeu outro microfone das mãos de Ricardo Stuckert, seu fotógrafo oficial e integrante da comunicação da campanha, perdeu a paciência.
Gesticulando e elevando a voz, reclamou: “É a quinta vez!”.
Veja o vídeo:
A falha técnica realmente havia se repetido. O aborrecimento, portanto, era compreensível.
O que chamou a atenção não foi a falha do equipamento mas a maneira escolhida pelo presidente para manifestá-lo: publicamente, diante da platéia e das câmeras, dirigindo sua irritação a quem estava ao alcance de sua voz.
Não há prova de que Stuckert fosse responsável pelo defeito. Ele se aproximou para entregar o equipamento, mas acabou recebendo também a descarga presidencial.
No passado seriam “DEZ CHIBATADAS”, esse o verdadeiro “painho”.
O PROBLEMA NUNCA É DO CHEFE
Grandes eventos estão sujeitos a falhas. Microfones deixam de funcionar, cabos apresentam defeitos e transmissões são interrompidas.
Um líder pode pedir explicações, cobrar providências além de acompanhar para que o problema não se repita. Mas existe diferença entre cobrar uma solução e usar um colaborador como para-raios da própria irritação.
Quando tudo funciona, o líder ocupa o centro do palco. Quando alguma coisa falha, procura-se rapidamente alguém em posição inferior para receber a bronca.
O microfone não tinha cargo, salário nem ouvido para ser repreendido. Restou o funcionário que o segurava.
EM BELO HORIZONTE, A BASE TAMBÉM RECLAMOU
No dia seguinte, durante o evento “Mulheres com Lula”, realizado em Belo Horizonte, o desconforto surgiu dentro do próprio PT.
Candidatas e militantes protestaram contra a distribuição dos recursos do fundo eleitoral. Uma faixa dizia:
“As mulheres da base do PT-MG não aceitam ser tratadas como laranjas.”
Segundo as informações publicadas, 25 candidatos mineiros — 11 a deputado estadual e 14 a deputado federal — foram colocados numa faixa que não previa repasses do fundo. Enquanto algumas candidaturas poderiam receber até R$ 2,4 milhões, outras ficariam com R$ 10 mil ou absolutamente nada.
O grupo passou a defender um piso de R$ 80 mil por candidatura e ameaçou procurar a Justiça caso o partido não revisasse os critérios.
O contraste é interessante. No discurso, todos são essenciais. Na distribuição dos recursos, alguns descobrem que são muito menos essenciais do que imaginavam.
E é importante esclarecer que esse tipo de atitude não se restringe apenas ao PT. Outros partidos fazem a mesma coisa com seus candidatos.
A HIERARQUIA DA SOLIDARIEDADE
Lula construiu boa parte de sua imagem política falando em nome dos pequenos, dos trabalhadores e daqueles que raramente são ouvidos pelo poder. Mas o comportamento de uma autoridade também deve ser observado quando algo sai do roteiro.
É nesses momentos que o discurso perde o auxílio do teleprompter e aparece o reflexo pessoal. Uma única bronca não prova que Lula trate mal todos os seus colaboradores.
Também não permite transformar uma cena de poucos segundos numa sentença definitiva sobre seu caráter.
Mas permite ao eleitor fazer perguntas: Por que dirigir publicamente a irritação ao funcionário que trouxe o microfone?
Por que candidatos da própria base precisam protestar para não serem tratados como figuras meramente decorativas?
Por que a solidariedade anunciada nos palanques encontra tanta dificuldade para atravessar as estruturas internas do poder?
O “PAINHO” E SEUS FILHOS POLÍTICOS
O título de “painho dos pobres” funciona muito bem durante discursos, campanhas e programas eleitorais. O problema aparece quando os filhos políticos começam a dar trabalho.
Se o microfone falha cinco vezes, alguém precisa ouvir a bronca.
Se o dinheiro da campanha não chega à base, alguém precisa aceitar que não está entre os escolhidos.
O episódio de Salvador não demonstra sozinho tudo aquilo que Lula é. Mas mostrou, por alguns segundos, como reage quando perde a paciência e encontra diante de si alguém que não possui o mesmo poder.
Jayme Rizolli
Jornalista.











