
Especialistas analisam como o descontrole fiscal impulsionou o colapso de grandes empresas no Brasil

01/09/2026 às 22:44 Sociedade

Siga o Jornal da Cidade Online no Google
Acompanhe as principais notícias do momento direto nos resultados de busca.

O número de empresas brasileiras em recuperação judicial atingiu, no final do primeiro semestre de 2026, o patamar mais alto da série histórica iniciada em 2023. São 6.341 companhias nessa condição, de acordo com o Monitor RGF-BIZDOC — um crescimento de 6,2% em apenas seis meses. O volume de dívidas envolvidas nesses processos e em recuperações extrajudiciais já supera R$ 180 bilhões, o maior da história recente do país. Setores como varejo, agronegócio e indústria de transformação concentram a maior parte dos casos. No agro, o salto foi de 21,4% no semestre e 66% em doze meses. Falências também voltaram a subir em 2026, depois de um ano de relativa estabilidade.
A lista de empresas afetadas inclui gigantes. O Grupo Casas Bahia, a Braskem, a Raízen, o Habib’s, a Marabraz, o Grupo Toki (Tok&Stok e Mobly) e o GPA estão entre os nomes que recorreram à Justiça ou a negociações extrajudiciais para tentar sobreviver. A Oi chegou à falência.
O fenômeno não se restringe às grandes: micro, pequenas e médias empresas passaram a usar o instrumento com intensidade inédita, pressionadas pelo crédito caro e pela compressão de margens. Por que isso acontece agora, no terceiro mandato de Lula?
O economista Túlio Marques é direto:
“O que estamos vendo é a combinação de erros estratégicos das próprias empresas com um momento ruim da economia. Veja o caso da Raízen. Eles fizeram um planejamento para produzir com um método quase revolucionário, que diminuía demais o custo, e tinham uma patente. Pegaram dinheiro no Brasil e no mundo inteiro para colocar isso em prática. Só que, quando aplicaram em grande escala, não deu a resposta que se esperava. No laboratório funcionava de um jeito; em escala industrial, não. Aí começaram os problemas, que se arrastam há muitos anos. Eu acho que a Raízen não tem saída mercadológica fácil. Pode até ter uma saída política, com alguém metendo a mão no bolso público, mas comercialmente está muito difícil.
No varejo é parecido. Casas Bahia, Magalu, Americanas… todas elas se endividaram no momento em que os juros estavam baratos, antes da pandemia. Quando o juro foi para a estratosfera, elas não recuaram. Insistiram na estratégia e não conseguiram vender o volume que justificasse aquele endividamento. A Luiza Trajano está certa quando pede para baixar os juros”, ressaltou.

Lula e Fernando Haddad, ministro da Fazenda – Reprodução internet
De acordo com o economista, apesar de os números do PIB não mostrarem dois trimestres seguidos de queda — que é a definição acadêmica de recessão —, todos os outros sinais estão aí: consumo caindo, dívida das pessoas e das empresas aumentando e bancos restringindo crédito. As pessoas estão cortando o que é supérfluo para tentar sobreviver.
“O governo gasta muito, toma muito crédito no mercado e emite títulos. Isso sustenta os juros altos e também a inflação. O governo é o grandalhão no parquinho. Enquanto ele demanda tanto crédito, fica difícil a taxa cair e a inflação baixar de forma natural. O setor agrícola também está com problemas sérios, tem dado calote nos bancos e a solução está sendo política: alonga a dívida, perdoa parte dos juros… na prática, é subsídio. E isso gera mais gasto público. Recuperação judicial é o último recurso. Antes, a empresa tenta a extrajudicial, porque consegue controlar melhor o fluxo de caixa e negociar com fornecedores. No judicial, o juiz obriga os credores a aceitar um plano. Se a empresa não cumprir, é falência. Por isso, evita-se ao máximo possível. O próximo governo, seja quem for, vai herdar uma bomba”, alertou.
O deputado federal Mauricio Marcon reforça a crítica à política econômica: o aumento das recuperações judiciais revela que as empresas não conseguem sobreviver a juros abusivos, burocracia excessiva e um ambiente hostil a quem produz. Medidas aprovadas nos últimos anos, segundo ele, enrijeceram ainda mais o setor produtivo.
“As pessoas estão vendo que produzir no Brasil é para maluco. Se as grandes estão assim, imagine as pequenas. Se Lula se reeleger, a situação será muito mais dramática do que foi no pós-impeachment de Dilma. O mercado já tem consenso de que há uma recessão contratada, que pode ser maximizada se esse modelo ineficaz de política econômica for mantido”, explicou.
Para o economista Luis Artur Nogueira, o recorde de recuperações judiciais é consequência direta da gestão econômica do governo Lula, caracterizada desde o primeiro dia como gastadora. Mesmo batendo recordes de arrecadação, os gastos superam as receitas mês após mês. O resultado é uma dívida pública crescente, que obriga o Tesouro a oferecer juros cada vez mais altos para rolar os títulos.

Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, Lula e Haddad – Reprodução internet
Nos últimos doze meses, o Brasil gastou cerca de R$ 1 trilhão só com juros da dívida. Ao mesmo tempo, o estímulo fiscal pressiona a inflação. Como o centro da meta de 3% não foi cumprido em nenhum ano do mandato, o Banco Central — inclusive sob a presidência de Gabriel Galípolo, indicado pelo próprio governo — elevou a Selic até 15% e agora a reduz de forma muito gradual (atualmente em 14%). A previsão otimista de chegar a 12% no final do ano já foi abandonada; o mais provável é 13,75%.
“Empresas com resultado operacional positivo veem o lucro ser engolido pelas despesas financeiras. Aí vem o prejuízo, a beira da falência e o pedido de recuperação judicial. O governo Lula bate recorde de empresas em recuperação judicial por culpa dele mesmo: é um governo gastador e inflacionário, que obriga o Banco Central a manter juros altos. Esses juros matam as empresas. O próximo governo, seja qual for, terá de fazer ajuste fiscal — gastar menos do que arrecada. Só assim a dívida começa a cair, a inflação recua, os juros baixam e a economia entra em um círculo virtuoso”, ressaltou.
O vereador e economista Rodrigo Marcial lembra que o problema começou a se agravar em 2025. Foram quase 2.500 empresas pedindo socorro à Justiça, segundo a Serasa Experian. E esse ano de 2026 começou ainda pior. O primeiro trimestre bateu um novo recorde.
“E veja, a gente não está falando da empresa da esquina, de empresa pequena. É a Americanas, que teve um rombo de dezenas de bilhões; é o Grupo Petrópolis, dono da cerveja Itaipava; é a Oi; é a empresa que ilumina o Rio de Janeiro, a Light; é a Polishop; são os supermercados Dia. A lista continua: Agrogalaxy, para falar no campo, até empresas de sucesso internacional, como a operadora do Starbucks e do Subway no Brasil, também estão na lista. Então, a gente está falando de marcas, de empresas e de produtos que estão na casa de todos os brasileiros. E isso não é azar, isso não é coincidência. Isso aqui é uma epidemia”, ressaltou.

De acordo com Marcial, cada empresa tem uma história. A Americanas, por exemplo, teve fraude contábil: isso é responsabilidade de quem geriu aquela empresa. Mas, quando empresas de todos os setores quebram ao mesmo tempo, o problema não é mais do indivíduo.
“O problema não é o peixe que está com muita sede no lago. O problema é o lago que está secando. E por que o lago está secando? São três buracos, três motivos que levam a isso. O primeiro motivo é a taxa de juro. A nossa Selic está em 14% ao ano: é um dos juros reais mais altos do planeta. E uma empresa endividada nesse cenário não consegue rolar sua dívida: é muito caro. Ela é estrangulada aos poucos pelo custo financeiro.
A segunda razão — e esse é o coração do problema — é: por que o juro é tão alto? Porque o governo Lula não controla as próprias contas, apesar de arrecadar como nunca. A gente tem levantamentos que contam 25 ou mais medidas que criaram ou aumentaram tributos desde 2023. Poucos governos na história aumentaram tanto imposto em tão pouco tempo.
E, finalmente, temos um ambiente institucional. Eu nunca vi o nosso país tão inseguro para quem produz. E parte disso vem também do alinhamento do governo petista com o Supremo Tribunal Federal: mudando regra no meio do jogo, com decisão monocrática derrubando lei, com canetada valendo mais que contrato. A gente não tem como ter previsibilidade, não tem como ter investimento, portanto, sem um ambiente institucional seguro. E com isso o capital vai embora, os empregos vão embora.
E, para responder à pergunta: sim, essa onda de quebras tem a digital do governo federal, seja nos juros, seja no imposto, seja na insegurança. País que trata empresa como inimiga termina assim: com uma fila quilométrica na porta da recuperação judicial”, destacou.
A recuperação judicial e a extrajudicial tornaram-se o último recurso de companhias que, em muitos casos, ainda têm produto, marca e operação viáveis, mas foram asfixiadas pelo custo do dinheiro. Enquanto o governo continua a demandar crédito em volume elevado e a pressionar a inflação, o setor produtivo paga o preço.
O próximo presidente herdará não apenas números recordes de empresas em crise, mas uma bomba fiscal cujo estopim já foi aceso. A onda de pedidos de reestruturação de dívidas em 2026 não é abstrata: envolve marcas tradicionais e gigantes industriais que, após anos de expansão agressiva e endividamento barato, esbarraram no custo elevado do crédito e na desaceleração do consumo.
A seguir, o detalhamento dos casos mais emblemáticos, com base em dados recentes:
Grupo Casas Bahia
Fundada em 1952, a Casas Bahia construiu seu império no modelo do carnê e na venda de eletrodomésticos e móveis para as classes C e D. Ao longo das décadas, expandiu-se com as marcas Ponto Frio e Bartira, chegou a mais de mil lojas e investiu pesado no e-commerce. O problema veio com o endividamento acumulado no período de juros baixos. Em 16 de agosto de 2026, o grupo protocolou pedido de recuperação judicial para renegociar R$ 17,3 bilhões em dívidas. No segundo trimestre, registrou prejuízo contábil de R$ 10,1 bilhões. Antes do pedido, já havia fechado 298 lojas e demitido cerca de 1.900 funcionários. A Justiça de São Paulo antecipou os efeitos do stay period (suspensão de cobranças) por 180 dias a partir de 19 de agosto, após a empresa denunciar uma “corrida de credores” que bloqueou cerca de R$ 9 milhões em poucos dias. O processamento formal ainda depende de perícia prévia. O caso ilustra a vulnerabilidade do varejo tradicional diante de juros altos e famílias endividadas.
Braskem
A maior petroquímica das Américas enfrenta uma das maiores reestruturações do país. Em 24 de agosto de 2026, protocolou pedido de recuperação extrajudicial para renegociar cerca de US$ 10,9 bilhões (aproximadamente R$ 56 bilhões) em obrigações financeiras sem garantia. A alavancagem da companhia disparou: a relação dívida líquida/EBITDA saiu de menos de 1 vez em 2021 para mais de 16 vezes no início de 2026. Os problemas incluem a crise global de excesso de capacidade no setor petroquímico, a dependência da nafta, os passivos relacionados ao afundamento do solo em Maceió e dificuldades na operação mexicana. A Justiça de São Paulo já deferiu o processamento e ratificou a suspensão de execuções por 120 dias. O plano prevê alongamento de prazos, possível capitalização de parte da dívida e eventual suporte de liquidez dos acionistas principais (IG4 e Petrobras). É um caso clássico de empresa com operação relevante, mas sufocada pelo custo financeiro.
Raízen
Controlada pela Shell e pela Cosan (família Ometto), a Raízen é uma das maiores produtoras de etanol e distribuidoras de combustíveis do mundo. Em 2026, recorreu à recuperação extrajudicial para renegociar aproximadamente R$ 61,4 bilhões em dívidas financeiras. O plano foi homologado pela Justiça de São Paulo em 30 de julho de 2026, com adesão de 81,6% dos credores quirografários. Entre as medidas estão a conversão de parte das dívidas em participação acionária, emissão de novos títulos e um aumento de capital de R$ 3,5 bilhões a R$ 4 bilhões (com aporte da Shell e possível participação da família Ometto). Os problemas remontam a uma expansão acelerada e a investimentos em tecnologias que não entregaram o retorno esperado em escala industrial, além de apostas no varejo. O caso é citado por analistas como exemplo de erro estratégico combinado com o aperto de crédito.
Grupo Gennius (Habib’s, Ragazzo e Tendall Grill)
O grupo que controla as redes de fast-food Habib’s, Ragazzo e Tendall Grill entrou com pedido de recuperação judicial em 24 de agosto de 2026, aceito no dia seguinte. A dívida declarada é de R$ 265,2 milhões (R$ 22,3 milhões trabalhistas). O processo envolve 178 pessoas jurídicas, incluindo 119 lojas próprias do Habib’s, 26 do Ragazzo e seis churrascarias Tendall. A KPMG foi nomeada administradora judicial. A empresa afirma que as operações continuam normalmente e que a medida faz parte de um processo de reestruturação para preservar a sustentabilidade de longo prazo. É um exemplo de como até redes consolidadas de alimentação fora do lar foram atingidas pela combinação de custos elevados e retração do consumo.
Outros casos relevantes
- GPA (Pão de Açúcar): recorreu à recuperação extrajudicial para renegociar cerca de R$ 4,6 bilhões.
- Oncoclínicas: cerca de R$ 5,1 bilhões em recuperação extrajudicial.
- Americanas: continua em recuperação judicial desde 2023, um dos maiores processos da história recente.
- Oi: chegou à falência em agosto de 2026.





