A PF não deixa espaço para interpretação: O Master não quebrou só um banco. Quebrou a ideia de que o Supremo ainda era intocável

Ler na área do assinante

Siga o Jornal da Cidade Online no Google

Acompanhe as principais notícias do momento direto nos resultados de busca.

Adicionar

O relatório da Polícia Federal não deixa espaço para interpretação suave. Daniel Vorcaro quebrou uma instituição financeira e deixou um buraco de R$ 60 bilhões. Dinheiro de gente comum, de fundos de pensão, do Fundo Garantidor de Créditos. Enquanto o banco afundava, o dono tinha canal secreto com um ministro do Supremo Tribunal Federal, pagava o escritório da mulher desse ministro, tentava entregar jatinho e helicóptero como se fossem honorários e pedia para o chefe da Polícia Federal e o procurador-geral da República “não deixarem ninguém de baixo fazer sacanagem”.

Isso é um escândalo que atravessou os Três Poderes e colocou a reputação do STF no centro da crise.

Não era conversa oficial. Era print de bloco de notas enviado como mensagem que some depois de lida. Cinquenta e duas vezes para o número salvo como “Alexandre de Moraes BRASILIA”. Quem se comunica assim não quer testemunha.

Dois dias antes de ser preso tentando fugir do país, Vorcaro perguntou ao ministro: “Acha que segunda já tenho que estar fora?” Citou o juiz que iria prendê-lo. No dia da prisão, perguntou se o ministro tinha “conseguido bloquear”. Um banqueiro tratando um ministro do STF como quem tem a chave da operação policial.

Pediu para Moraes “reforçar com Andrei e Paulo” — Andrei Rodrigues, diretor-geral da PF, e Paulo Gonet, procurador-geral da República.

O DINHEIRO, O JATINHO E OS FILHOS

O escritório de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro, tinha contrato de R$ 131 milhões com o Banco Master: R$ 3 milhões líquidos por mês. Vorcaro gritava com os funcionários: “É o pagamento mais importante que temos. Não atrase um dia.” A PF aponta que o perfil “Ministro Alexandre de Moraes” editou a minuta desse contrato.

Havia um segundo contrato de R$ 50 milhões com outra empresa de Vorcaro. Destes, R$ 40 milhões seriam pagos com cotas de duas aeronaves:

•  um jato executivo Embraer Legacy 650 (prefixo PP-NLR), cota avaliada em US$ 5,51 milhões;
•  um helicóptero Airbus EC 155 B1, cota avaliada em US$ 1,33 milhão.

Total das cotas: cerca de US$ 6,85 milhões. Os outros R$ 10 milhões seriam reembolso de voos. O escritório poderia usar as aeronaves desde a assinatura. O escritório diz que esse segundo contrato não foi aceito. A PF encontrou as minutas, as mensagens negociando as cotas e a ordem de Vorcaro: “Não deixa de atender Barci”. Uma das aeronaves do mesmo grupo já havia sido usada em deslocamentos ligados à família.

Quinze dias antes da prisão, o banqueiro autorizou cartões de crédito com limite de R$ 300 mil para cada um dos dois filhos do ministro.

Houve jantares, whisky, experiência “ultra VIP” em Campos do Jordão para um convidado chamado “Alex” e participação na organização do fórum de Londres. Vorcaro escreveu: 

“Tenho gratidão da minha vida a você. Toda a minha família tem uma dívida de vida contigo e sua família.”

Um ministro do Supremo não deveria dever gratidão a ninguém. Muito menos a um homem que vendeu crédito podre e tentou pagar honorários com jatinho e helicóptero.

O procurador que quer anular o relatório que o cita Paulo Gonet aparece no mesmo documento que pediu para anular — em tempo recorde.

Mensagens intermediadas pelo advogado Ciro Soares mostram o PGR mandando recado de “saudades” de Vorcaro, chamando o banqueiro de “máquina” e escrevendo: 

“Tomara que tenha charuto e Macallan.”

Perguntou se o filho Pedro Gonet podia ir a Londres com as despesas pagas pelo Master. Vorcaro: “Óbvio, né.” Confirmou na lista: “Pedro e Ciro ok.”

O mesmo Gonet é o “Paulo” que Vorcaro pediu a Moraes para pressionar. Quando o relatório veio a público, o chefe do Ministério Público pediu a nulidade do papel que expõe essa proximidade. A imprensa chamou pelo nome: tentativa de blindagem.

O CHEFE DA PF NO EVENTO PAGO PELO INVESTIGADO

A assistente de Andrei Rodrigues na PF perguntou se passagem e hospedagem do diretor-geral no fórum de Londres seriam pagas. A resposta foi direta: o Master cobria tudo. Andrei precisava apenas de um convite formal para colocar o evento na agenda institucional.

Fábio Faria intermediou: “O que acha de eu convidar o DPF Andrei? Aí fechamos o PGR e o DPF.” Vorcaro topou. Hotel cinco estrelas. Degustação de Macallan que sozinha custou cerca de US$ 640 mil. Depois, o mesmo Andrei aparece nas anotações de Vorcaro como alguém a ser “reforçado” para impedir que a polícia agisse.

A TEIA QUE ATRAVESSOU A REPÚBLICA

O escândalo não parou no STF.

Dias Toffoli saiu da relatoria depois que um fundo ligado a Vorcaro comprou parte de um resort da família do ministro. A CPI do Crime Organizado pediu o indiciamento de Toffoli, Moraes, Gilmar Mendes e Gonet.

Ciro Nogueira (PP): a PF aponta benefício econômico de ao menos R$ 6 milhões, viagens a Courchevel, Paris e Nova York pagas pelo banqueiro, e projetos de lei no interesse do Master. Vorcaro comemorou uma emenda: “Saiu exatamente como mandei.” A polícia descreveu o banqueiro como “o 82º senador da República”.

Flávio Bolsonaro cobrou recursos para o filme Dark Horse. A imprensa registrou repasse de US$ 1,6 milhão em setembro de 2025, dias depois da cobrança.

Outros nomes atravessam o dossiê: Jaques Wagner, Cláudio Castro e aportes do RioPrevidência no Master, Ibaneis Rocha e a venda ao BRB, Davi Alcolumbre e as travas a uma CPI, Hugo Motta, servidores do Banco Central. Vorcaro tentou duas delações. PF e PGR recusaram, segundo a imprensa, porque ele omitia aliados.

O FGC já pagou dezenas de bilhões a credores do Master. Se uma emenda defendida no interesse do banco tivesse passado, o risco do fundo teria sido “sextuplicado”, segundo mensagem citada pela PF.

O QUE ISSO FEZ COM O STF

Um ministro da mais alta corte do país em canal secreto com o dono da maior fraude bancária da história recente. Contrato milionário da mulher editado sob o perfil do próprio ministro. Cartões para os filhos. Cotas de jatinho e helicóptero na mesa. Pedido para segurar a polícia e o Ministério Público.

O procurador-geral pedindo charuto, Macallan e viagem paga para o filho — e, quando o relatório sai, pedindo para anular o documento que o menciona.

O diretor-geral da Polícia Federal com viagem e whisky pagos pelo mesmo banco que sua corporação investigava.

Isso não é “relação institucional”. É captura. E captura no Supremo não é um problema interno da Corte. É um problema da República.

O relatório da PF não condenou ninguém. Só abriu o celular do banqueiro. O que estava lá — e o que a imprensa tradicional e as redes já cruzaram — é o retrato de um país em que o dinheiro de um banco comprava agenda, proteção e silêncio no andar de cima.

Agora o próprio Supremo decide se investiga um de seus ministros. A Folha já chamou de ponto de não retorno. A pergunta do cidadão é mais simples e mais dura: se fosse um juiz de vara, já não estaria afastado?

Enquanto essa resposta não vier com a mesma clareza dos prints, o que fica em pé não é só a crise de um banco. É a dúvida sobre a Corte que deveria ser o último freio do Estado.

Foto de Carlos Arouck

Carlos Arouck

Policial federal. É formado em Direito e Administração de Empresas.

Ler comentários e comentar