Uma "jarra" chamada Brasil começou a transbordar

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Enquanto desastres ecológicos, tempestades e tsunamis deixam vítimas indefesas pelo mundo, no Brasil não precisamos esperar que a natureza produza nossas tragédias.

As nossas tempestades nascem dentro dos gabinetes. São silenciosas, arrasadoras e, muitas vezes, incompreensíveis para o cidadão comum. Destroem esperanças, semeiam insegurança e transformam a aplicação da Justiça numa equação que parece variar conforme o nome, o cargo e a influência de quem está envolvido.

A cada dia, novos pingos formados pelas lágrimas dos brasileiros vão enchendo a jarra chamada BRASIL.

Nela caem o desânimo de quem trabalha, a angústia do aposentado lesado, a revolta do contribuinte e a perplexidade de quem assiste a instituições que deveriam oferecer respostas entregarem silêncio, sigilo, demora ou explicações insuficientes.

Cada decisão difícil de compreender acrescenta uma gota. Cada privilégio acrescenta outra.

Cada denúncia que desaparece numa gaveta, cada investigação que avança para uns e tropeça para outros, cada suspeita grave tratada como assunto inconveniente representa mais um pedaço do futuro lançado dentro dessa jarra.

E a jarra transbordou.

Os últimos acontecimentos envolvendo as altas esferas do poder nacional, instituições financeiras, fraudes contra aposentados, relações privilegiadas, contratos milionários, mensagens comprometedoras e cartões com limites extraordinários concedidos a pessoas próximas de autoridades não podem ser tratados apenas como ruídos passageiros.

Esses elementos, isoladamente, não constituem sentença nem autorizam condenações antecipadas. Mas exigem investigação independente, transparência e respostas objetivas. Quando as pessoas envolvidas ocupam posições de enorme poder, o dever de esclarecimento não diminui: torna-se ainda maior.

O cidadão não aceita mais que perguntas legítimas sejam respondidas apenas com a tentativa de anular relatórios, questionar procedimentos ou recolocar documentos sob sigilo. O devido processo legal é uma garantia indispensável — mas não pode ser transformado numa cortina destinada a esconder aquilo que a sociedade tem o direito de conhecer.

Também não se pode permitir que o respeito às instituições seja confundido com submissão silenciosa aos seus integrantes. Instituições são respeitadas quando investigam, esclarecem e corrigem os próprios erros, não quando exigem confiança cega.

A jarra chamada Brasil foi enchida lentamente. Gota após gota, escândalo após escândalo, privilégio após privilégio.

Durante muito tempo, acreditaram que ela não tinha fundo. Pensaram que o brasileiro suportaria tudo: impostos crescentes, serviços deficientes, aposentados enganados, autoridades cercadas por suspeitas e uma Justiça que nem sempre parece utilizar a mesma régua para todos.

Enganaram-se.

A água já ultrapassou a borda.

O que agora escorre não é apenas indignação. É a confiança do povo nas instituições, na igualdade perante a lei e na possibilidade de um futuro minimamente justo.

E quando a confiança transborda para fora da jarra, não existe decreto, despacho ou decisão monocrática capaz de colocá-la novamente dentro.

A paciência do brasileiro não acabou de repente.

Ela foi sendo derramada.   

Jayme Rizolli

Jornalista.

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