Landes Pereira

Economista e Professor Universitário. Ex-Secretário de Planejamento da Prefeitura de Campo Grande. Ex-Diretor Financeiro e Comercial da SANESUL. Ex-Diretor Geral do DERSUL (Departamento Estadual de Estradas de Rodagem). Ex-Diretor Presidente da MSGÁS. Ex-Diretor Administrativo-Financeiro e de Relações com os Investidores da SANASA.

O carnaval da conjuntura política brasileira

O reinado de Momo em Pindorama, o paraíso invadido pelos portugueses, foi marcado pela violência, excessos de toda ordem e pelo protesto contra a corrupção dos políticos (que se divertiram e gargalharam sem dar a mínima atenção para o que o povo pensava).

Rei Momo (deus da burla, da crítica e da zombaria na mitologia grega) reina por 365 dias por estas bandas do hemisfério sul. Isto porque os pindoramanos estão divididos em dois grandes blocos: os espertalhões e os manés.

No primeiro bloco estão os políticos (proprietários das facções partidárias que administram os fundos eleitorais e as doações de campanhas) que dominam os quatro poderes da República (três constitucionais mais o Ministério Público); os proprietários de igrejas e cultos religiosos (fazedores de milagres e vendedores de indulgências que levariam os compradores para o paraíso celestial); os banqueiros e os manipuladores do mercado financeiro; e os empreiteiros corruptores.  No segundo bloco estão e os eleitores que elegem os políticos e pagam os impostos para manutenção da “máquina”, e as crédulas ovelhas que pagam os dízimos e acreditam que irão para o céu.

Entretanto, os desníveis sociais são muito grandes e as adversidades econômicas tendem a se tornarem insuportáveis. Pindorama, às vezes, parece uma panela de pressão que vai explodir jogando o povo para as ruas, com consequências imprevisíveis. O establishment político percebeu que isso era perigoso e decretou que uma vez por ano, no Tempo da Septuagésima, ou pré-quaresma (durante fevereiro ou início de março), o povão estaria livre para desfrutar os prazeres do carnaval.

Nesses festejos os instintos estão liberados para o que der e vier, incluindo a sátira social e a zombaria às autoridades constituídas, com desfiles circenses custeados pelos cofres públicos. Todos os excessos são permitidos.

É uma catarse generalizada, segundo os critérios de Aristóteles para purificação das almas por meio de uma descarga emocional, como se fosse um grande eletrochoque coletivo. Tudo é esquecido: as dívidas, o desemprego, as filas no SUS, a falta de creches, a fome, o péssimo estado das escolas públicas, a violência urbana, a escancarada e generalizada corrupção dos governantes. O que importava era aproveitar o momento de liberação plena.

Depois, ainda extasiados pelos odores do álcool e de outras drogas, mas felizes e satisfeitos, aos pouco retornaram à dura realidade econômico-social em que vivem. Eis que os mesmos políticos ressurgem dizendo que depois que a reforma previdenciária for aprovada e que eles forem reeleitos, Pindorama voltará a ser um paraíso. E o povão acredita, mas antes foi pedir perdão a seus pastores pelos excessos cometidos.

Mas, enquanto o povo se divertia nas ruas de Pindorama, o establishment econômico e as think tanks (instituições permanentes de pesquisa e divulgação de ideias que influenciarão as instâncias governamentais e a opinião pública) montavam suas estratégias para mudarem o que for preciso mudar, contanto que tudo permaneça como está. As facções partidárias serão usadas como instrumentos para consumação de seus planos. Elas não se preocupam com os políticos porque sabem que eles vendem a alma para continuarem desfrutando dos privilégios e das benesses do poder.

Confúcio, patrono da educação na China, já naqueles tempos ensinava que para se conhecer o presente, é necessário estudar o passado; e se quisermos saber como será o futuro, basta observar o presente. Complementava dizendo que, se o observador não gostar das expectativas previstas, só há uma forma de mudar o futuro: investir pesado na educação.

Observe-se o passado da conjuntura nacional para compreender a bandalheira que virou este paraíso.

Em 1958 a inflação e o endividamento externo se implantavam sorrateiramente no País; as ferrovias e a navegação de cabotagem davam espaço para os caminhões, ônibus, carros de passeio e a buraqueira nas estradas; os militares continuavam tentando derrubar o governo eleito constitucionalmente, mas encontravam o legalismo do marechal Teixeira Lott pela frente. O implacável jornalista e tribuno Carlos Lacerda (UDN) e o demagogo campo-grandense Jânio Quadros (então governador de São Paulo) prometiam varrer a corrupção e os desmandos administrativos que corroíam a nação. Entretanto, Juscelino Kubistchek, sorridente e otimista, comemorou a vitória da seleção brasileira que transformou Pelé, Garrincha e Djalma Santos em heróis nacionais.

As consequências viriam nos anos seguintes com a eleição de Jânio Quadros para a presidência da República, e sua renúncia sete meses depois; a radicalização da esquerda e da direita; a posse e a deposição de João Goulart. Os tenentes dos anos 20, agora coronéis, generais e marechais, chegavam ao poder e implantavam um governo que esterilizou o sistema partidário-eleitoral, mas preservou o fisiologismo político.

Em 1968 não houve copa do mundo para camuflar as asperezas econômico-sociais que garroteavam Pindorama. O povo foi para as ruas protestar. Os militares reagiram com firmeza, decretando o AI-5. E, na base do cassetete e das cassações de mandatos de parlamentares menos fisiológicos, botaram as coisas em seus devidos lugares, segundo uma cartilha ditatorial. Também era o início da “guerrilha urbana”. O jornalista Zuenir Ventura descreve esse período em sua histórica obra: “1968, o ano que não terminou – A aventura de uma geração”.

Em 1978 os militares já sabiam que a situação era insustentável e programaram sair da linha de frente, mantendo no poder seus submissos arenistas (muitos dos quais até hoje estão aí ao lado de Michel Temer). Foi promulgada uma nova constituição, mantendo o autoritarismo militar; o general Ernesto Geisel sinalizou uma abertura política de forma lenta, gradual e segura. Esse programa, executado pelo general João Batista Figueiredo, levou à anistia ampla, geral e irrestrita e ao retorno dos exilados.

José Sarney (então no PFL, hoje DEM), ex-presidente da ARENA, partido que deu sustentação aos governos militares, assumiu a presidência da República em 1985, com o irrestrito apoio dos ex-emedebistas. Três anos depois foi promulgada a Constituição que dura até o presente. Luiz Maklouf Carvalho, em seu magistral livro: “1988: Segredos da Constituinte” relata a epopeia que foi o parto desse documento.

Ulysses Guimarães referindo-se ao Congresso Constituinte de 1988 disse: “Acham que esse Congresso é ruim? Esperem para ver o que virá depois”.

Na sequência vieram Fernando Collor de Mello (o caçador de marajás), Itamar Franco (o vice de Collor), Fernando Henrique Cardoso, Lula da Silva, Dilma Rousseff e Michel Temer (o vice de Dilma), isto sem falar da deterioração do sistema partidário e do baixo padrão dos políticos que assumiram o poder desde então.

Uma pesquisa para o pleito de 2018 à presidência da República, publicada pela Folha de S. Paulo em 31/01, apresenta um nostálgico resultado: Lula – 37%; Bolsonaro – 16%; Alckmin – 7%; Ciro Gomes – 7; Joaquim Barbosa – 5; Álvaro Dias – 4; Fernando Collor – 2; Manuela D’Ávila – 1; João Amoedo – 1; Guilherme Boulos – 0; sem considerar mais uns 10 ou 20 aventureiros de facções nanicas. Qualquer que seja o vencedor, o Congresso o manterá garroteado.

O panorama político atual é o pior dos últimos sessenta anos, sem dúvida. Considerando-se esse contexto, pergunta-se: qual será a conjuntura futura se a corrupção continua firme, e se os sistemas públicos de educação, de saúde e de segurança estão entregues aos interesses das fações partidárias?

Landes Pereira

Economista e Professor Universitário. Ex-Secretário de Planejamento da Prefeitura de Campo Grande. Ex-Diretor Financeiro e Comercial da SANESUL. Ex-Diretor Geral do DERSUL (Departamento Estadual de Estradas de Rodagem). Ex-Diretor Presidente da MSGÁS. Ex-Diretor Administrativo-Financeiro e de Relações com os Investidores da SANASA.

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