O esgoto do sigilo transbordou: Quando o poder já não consegue esconder seus excessos
09/09/2026 às 16:54 Opinião
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial.
Durante anos, Alexandre de Moraes construiu ao redor de si uma imagem de autoridade incontestável. Questionamentos foram tratados como afrontas; críticas, como ameaças; e aqueles que apontavam seus erros frequentemente se viram investigados, censurados ou processados.
O inquérito das fake news e os processos relacionados ao 8 de Janeiro tornaram-se símbolos dessa concentração extraordinária de poder. Investigação, acusação e julgamento passaram a conviver perigosamente próximos, enquanto decisões relevantes eram protegidas pelo sigilo e justificadas em nome da defesa das instituições.
Criou-se, assim, um grande gabinete político-jurídico repleto de decisões, contradições, ressentimentos e excessos. Tudo aquilo que poderia produzir desgaste era conduzido para uma tubulação chamada sigilo — o conhecido “sigilo de 100 anos” transformado aqui no símbolo nacional de tudo o que o poder prefere esconder.
Durante algum tempo, o esgoto pareceu funcionar. Documentos desapareceram da vista do público, questionamentos foram abafados e críticos foram intimidados. Mas nenhuma tubulação consegue absorver indefinidamente o acúmulo produzido pela arrogância.
A atuação de André Mendonça em episódios recentes abriu uma nova comporta dentro desse sistema. Ao movimentar documentos, decisões e investigações que atingem o próprio ambiente do Supremo, ajudou a empurrar para dentro daquele gabinete uma quantidade de material que o velho esgoto do sigilo já não consegue esconder.
E então aconteceu o inevitável: o sigilo transbordou.
Agora, aquilo que antes desaparecia pelos canos começa a retornar à superfície. As contradições aparecem, os métodos passam a ser questionados e a autoridade que não admitia ser contestada encontra-se diante dos efeitos produzidos pelo próprio exercício do poder.
Não se trata apenas da crise de um ministro. Trata-se da deterioração da confiança em uma instituição inteira.
Porque, quando o sigilo deixa de proteger a Justiça e passa a proteger seus excessos, a sujeira pode até ser escondida por algum tempo — mas sempre chegará o momento em que o esgoto devolverá tudo.
E com mais força.
Jayme Rizolli
Jornalista.