O dom de iludir invade a sala dos adultos e a esquerda de MS calcula suas perdas e danos

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Toda a vez que passo uns dias em Campo Grande (MS) ouço o mantra daquela turminha que finge saberes acadêmicos, notadamente na área da gestão econômica estadual:"o Mato Grosso do Sul está quebrado e fazendo dívidas impagáveis",

O futuro - dizem essas vozes apocalítipticas, soturnas e alarmistas - será tenebroso. Esquecem o que o PT está fazendo no País e voltam-se para o quadro local, dissociando realidades como coisas diferentes. Valha-me.

Logo em seguida, vem o alerta de cunho político; a direita vai destruir o nosso Estado, gritando que "não podemos deixar que isso aconteça". Por favor, não riam...Os histéricos acreditam que é gritando que os eleitores conseguem ouvir.

Na Assembleia Legislativa e nas redes sociais, os gênios reverberam: o atual Governo prioriza a fazendeirada e está deixando o povão à míngua - isso porque nosso estado tem uma base econômica concentrada no agronegócio e, por meio dessa atividade primordial para o País, saca-se a critica do "eles contra nós". Até quando?

Assim como o Brasil, MS vive seus com altos e baixos, embora pode-se dizer que somos um dos Estado mais  bem sucedido do País, caso olhemos os principais índices sócio-econômicos locais.

E aí vem a repetição do discurso oportunista de que a geração de riqueza só atende ao topo da pirâmide, deixando a maioria do povo empobrecida, esquecendo-se que temos um dos melhores índices de crescimento, produtividade e geração de emprego do País.

Nosso Estado, comparativamente, é pequeno e atrasado. Temos cerca de 2 milhões de habitantes, uma população rarefeita, com cerca de 30% concentrada em Campo Grande, carente de estradas, indústrias, um setor de serviços médio e mão-de-obra pouco qualificada.

Só que em 50 anos de existência ultrapassamos metas de desenvolvimento que muitos estados levaram mais de 100 para alcançar. É verdade que ainda temos problemas graves, sobretudo na região de fronteira e no extremo sul.

Comparativamente estamos muito melhor do que há 10 anos. A população tem esse sentimento e é realista o suficiente para saber que nossos problemas orgânicos e culturais são difíceis de vencer.

O cenário, neste aspecto, está mudando - e rápido. Mas numa campanha eleitoral dá-se ênfase aos elementos negativos porque a luta pelo poder exige que se crie inimigos imaginários, deixando o eleitorado inseguro e desconfiado e, assim, na base do engano, pede-se para que votemos em pessoas falsamente  comprometidas com mudanças.

No final, tudo é jogo de cena, tudo é narrativa teatralizada, porque o mundo real se impõe e nos coloca do tamanho que realmente somos.

Quem viveu longamente a história de nosso Estado sabe que o discurso da esquerda é lorota pueril. Observem alguns candidatos falando grosso. Não há como não rir. A recente trajetória de Zeca do PT, Vander Loubet, Fábio Trad, Soraya Thronicke (uma bolsonarista que mudou de personagem) e outros menos cotados dessa turma tem ingredientes suficientes para se montar uma peça mambembe de ópera bufa.

Não falo dos demais candidatos porque são estatisticamente irrelevantes. Cumprem mero ritual político para ajudar na trama que nos faz acreditar que vivemos numa democracia formal.

As pesquisas apontam insistentemente que teremos eleição de apenas um turno. Há este sentimento no eleitorado. No começo da campanha, a esquerda concentrou-se no ataque pesado, destacando a "falência" do Estado, tentando desconstruir a imagem do atual incumbente, desmentindo a aura de bom gestor que o cerca.

Como todos se lembram, Eduardo Riedel não se mexeu nem respondeu. Seu principal oponente, Fábio Trad, explorava de maneira bem eficiente as contradições da administração estadual, tentando jogar a crise da prefeitura de Campo Grande no colo do governador, detonando Adriane Lopes e as peripécias de Janjo. Não colou.

Trad cresceu e atingiu o teto eleitoral do PT, coisa de 20 a 25% das preferências. Só avança por conta da generosidade de alguns proprietários de institutos de pesquisa, que sonham em dois turnos para prolongar seus ganhos e seus negócios.

Só que neste meio tempo houve um fato novo. O dia ainda estava clareando quando apareceu em Campo Grande, recentemente, o Ministro da Fazenda, o senhor Dário Durigan, desmentindo ponto a ponto todo o edifício construído pelo PT nos meses anteriores. Não ficou pedra sob pedra.

Durigan deu destaque em seus discursos e entrevistas à imprensa local ao cenário promissor de MS, destacando a gestão responsável e consistente do governo. Fez elogio aos esforços fiscais da atual administração, mostrando que essa nova realidade econômica e administrativa garantia segurança aos investidores e alavancavam prosperidade a longo prazo,

A partir deste momento, a candidatura de Fábio Trad estacionou e as pesquisas sinalizaram a vitória de Riedel no primeiro turno. Esses são os dados concretos. O resto é especulação e fantasia.

Logo em seguida, o PT entrou em crise por causa do rompimento do candidato a suplente de senador Maurício Bumlai, atual marido de Viviane Luiza, hoje forte concorrente a uma vaga na Cãmara dos deputados.

Viviane tem potencial. Bem articulada, social democrata, gestora qualificada, foi secretária de Cidadania, pesquisadora, estudou no exterior, de família extremamente pobre que soube encontrar saídas pela via da educação, enfim, uma personagem que foi um verdadeiro achado de Riedel, em meio a quadros que buscam o caminho da renovação política.

A imprensa na época deu destaque ao climão gerado pelo rompimento de Bumlai, motivado por críticas fora do tom feito por Zeca do PT e Camila Jara contra sua companheira.

Sabe-se que atualmente Viviane é fonte de ciumeira geral entre as candidatas que concorrem na base de apoio a Riedel, principalmente de Rose Modesto e Mara Caseiro. Briga de mulheres.

Além disso, Camila Jara, por sua vez, também sentiu-se ameaçada pelo fato de que uma alteração legal que descartou a exigibilidade de partidos como o PSDB de precisarem atingir 80% do quociente eleitoral (a chamada "sobras das sobras"), algo que poderá alavancar, perigosamente, candidatas como Viviane Luiza, tirando o espaço de Camila junto ao eleitorado mais aderente às propostas progressistas.

Depois disso, a vida seguiu e, hoje, faltando menos de um mês para a realização do primeiro turno, interessa mais ao PT eleger Vander Loubet e dois deputados do que perder tempo com as maluquices extemporâneas de Fábio Trad, que tem lá sua eloquência, mas padece de consistência junto ao eleitor mais pragmático de esquerda.

Está claro que Trad está sendo rifado pelo PT, tal qual está acontecendo com Capitão Contar, considerado uma candidatura fraca devido às atitudes desagregradoras de sua esposa, a viperina Iara Diniz.

É complicado: Vander tem sido obrigado a volver à direita (inclusive adotando uma postura crítica em relação à crise no STF, levantando a cabeça de Alexandre de Moraes para o corte), abraçando assim os festejos das pautas bolsonaristas, enquanto Contar age às tontas para se manter ao lado de Azambuja (em primeiro lugar nas pesquisas), ao qual, no passado, foi forte opositor.

Parece que parte da direita está optando por Vander, que tenta se mostrar aberto às propostas liberais, flertando com o bolsonarismo às claras. A esquerda não dá um pio. A Vandico tudo que ele merece...

Enquanto isso a candidatura de Riedel flutua, crescendo consistentemente, distanciando-se de Fábio Trad, que, nesta altura do campeonato, começa a sentir a brisa do abandono, obrigando-se a adotar um tom mais moderado, pois percebe que no futuro vai precisar negociar espaço num governo liberal e de direita.

A vida sempre cobra um preço caro aos apressados.

PS - Muita coisa tem pra acontecer no nosso processo eleitoral. Quem acha que algumas candidaturas parlamentares são consistentes e gritam o "já ganhou", vão se surpreender. Quem viver, verá...

Dante Filho. Jornalista.

Texto publicado originalmente no blog do autor.

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