Bacanal da impunidade

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A palavra “bacanal” significa uma festa íntima, com liberdade total para a prática de atos de libidinagem, desregramento moral e orgia sexual. Vem de “Baco”, o deus do vinho e da folia. Na antiga Roma esses rituais reuniam a nata do império, onde predominava todo o tipo de sacanagem.  No Brasil se tornou sinônimo das festas organizadas por Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Ele procurava atrair e corromper as autoridades com dinheiro e festas, como uma ferramenta de aproximação para fazer lobby, negociar esquemas de corrupção e cooptar uma rede de influência protetiva formada por políticos de diversos partidos, empresários e membros dos três Poderes da República. Segundo investigação da Policia Federal-PF, Vorcaro contratava mulheres de países europeus como Suíça, Noruega e Suécia com o objetivo estratégico de evitar vazamentos, já que elas não falavam português e não reconheciam as figuras públicas brasileiras convidadas. Os eventos contavam com rígida proibição do uso de celulares e outros objetos que pudessem registrar a orgia. Mesmo assim, a Polícia Federal e o Ministério Público não sabem se Vorcaro gravava secretamente as bacanais para utilizar no futuro as imagens libidinosas como instrumentos de chantagem. Entre os envolvidos são citadas algumas autoridades e ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), sendo que os ministros do Supremo são citados como participantes apenas de jantares, encontros sociais e eventos organizados por Vorcaro em locais como Brasília, Campos do Jordão e no exterior. A imprensa divulgou alguns nomes desses participantes como   os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli. São citados, também, políticos como Fábio Faria, Davi Alcolumbre, Rodrigo Pacheco e Jacques Wagner.

Outras figuras públicas e autoridades também são mencionadas, principalmente nos encontros ocorridos no exterior com a presença do ministro Alexandre de Moraes, que mantinha contato próximo com Vorcaro na organização e alinhamento de fóruns jurídicos em Londres, participando de discussões sobre a programação e listas de convidados. A assessoria de Moraes negou publicamente que ele tenha feito viagens particulares com Vorcaro ou frequentado uma propriedade específica atribuída ao empresário em Trancoso, na Bahia.

Segundo a imprensa, algum usuário do X filmou uma dessas festas sem conhecer o anfitrião. Quase três anos depois, o evento foi associado a Daniel Vorcaro e ao caso Master.overlay-clever Uma publicação feita no X em 2023 voltou a circular nas redes sociais após o autor descobrir que a festa registrada por ele teria sido organizada por Vorcaro. Na época, o usuário não sabia quem estava por trás do evento. Ele relatou apenas que um milionário havia fechado uma casa noturna em São Paulo para receber convidados e contratar atrações conhecidas internacionalmente. “Imagina o quão rico você tem que ser para contratar essa galera para uma festa particular”, escreveu.

Segundo a publicação, a programação contou com nomes como Flo Rida, Swedish House Mafia, Solomun e Vintage Culture. O vídeo também mostra parte da estrutura montada para o evento e a movimentação dos convidados. O registro, inicialmente publicado como uma curiosidade sobre uma celebração milionária, ganhou novo significado quase três anos depois, com o avanço das investigações envolvendo Vorcaro e o Banco Master. De acordo com informações da investigação da Polícia Federal, o ministro Alexandre de Moraes, o novo ministro do TCU, Rodrigo Pacheco e o presidente do Congresso Nacional, Davi Alcolumbre estariam entre os convidados da festa, sem, no entanto, haver qualquer comprovação de que essas autoridades teriam aceitado o convite. Até o momento, o material citado não demonstra que Moraes, Pacheco ou Alcolumbre aparecem nas imagens publicadas pelo usuário do X. Considerando a repercussão interna e externa, o Supremo resolveu investigar o caso.  O problema é que notórios magistrados já começam a se preparar para a bacanal da impunidade. Ainda está na nossa lembrança o que aconteceu com a Lava Jato. Igualzinho à Operação mãos Limpas da Itália. Ambas demonstram que a impunidade será o destino para as investigações e para os magistrados envolvidos. Na Itália, conforme a investigação avançava e ameaçava os escalões mais altos como o governo de Silvio Berlusconi), o Parlamento italiano começou a reagir. Foram aprovadas leis que limitavam as prisões preventivas e alteravam prazos de prescrição de crimes para esvaziar a operação.  No caso da Lava Jato o Brasil seguiu um roteiro praticamente idêntico, que serviu explicitamente de inspiração para o seu fim. A única coisa que não houve na Itália foi o que vai haver aqui quando o caso do Master chegar ao fim:  a bacanal da impunidade.

Foto de Luiz Holanda

Luiz Holanda

Advogado e professor universitário

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