O STF ocupa o palco, mas a conta chega ao cidadão
14/09/2026 às 18:16 Opinião
O impasse no Supremo Tribunal Federal, os relatórios de inteligência e o afastamento temporário do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, são assuntos relevantes para o funcionamento das instituições. Mas existe uma outra dimensão da corrupção, menos concentrada nos palácios e muito mais próxima da vida do cidadão, aquela que retira recursos de aposentadorias, compromete fundos previdenciários e reduz o dinheiro disponível para políticas públicas.
Enquanto o país acompanha o conflito entre ministros e as disputas em torno das investigações, bilhões de reais são objeto de suspeitas e investigações em diferentes áreas. Para quem vive de salário ou benefício, a consequência não aparece em uma disputa jurídica. Aparece na falta de recursos para serviços públicos, na insegurança sobre a aposentadoria e, em alguns casos, diretamente no próprio bolso. O governo Lula administra um Estado em que esses bilhões saem de aposentadorias, emendas parlamentares e fundos previdenciários antes de chegar a quem precisa.
O retrato internacional também não é confortável. No Índice de Percepção da Corrupção de 2025, divulgado pela Transparência Internacional em fevereiro deste ano, o Brasil obteve 35 pontos e ficou na 107ª posição entre 182 países. A entidade classificou o resultado como uma estagnação em patamar baixo e destacou a fragilidade dos mecanismos de integridade e controle da corrupção no setor público.
O cenário envolve episódios de naturezas diferentes, mas que têm em comum o impacto sobre recursos públicos e instituições. A própria Transparência Internacional citou os casos do INSS e do Master entre os grandes episódios de macro corrupção que marcaram o período.
O relatório aponta falhas estruturais expostas por escândalos sucessivos: a captura orçamentária pelas emendas parlamentares, herdeiras do Orçamento Secreto; as fraudes no INSS; o caso do Banco Master; e irregularidades que alcançam o próprio Judiciário. Não são episódios isolados. São sinais de interesses ilícitos instalados em áreas estratégicas e de resposta fraca dos órgãos de controle sob a gestão atual.
No caso do INSS, a dimensão humana é especialmente grave. A fraude nos descontos associativos atingiu aposentados e pensionistas que tiveram valores retirados de seus benefícios sem autorização. O dinheiro que deveria garantir despesas básicas acabou no centro de um esquema que passou a ser investigado pela Polícia Federal e pela Controladoria-Geral da União.
É difícil imaginar exemplo mais direto de como a corrupção alcança quem está longe do poder. Para um aposentado de baixa renda, um desconto indevido não é apenas uma irregularidade contábil. Pode representar menos dinheiro para comprar remédios, alimentos ou pagar uma conta doméstica.
O caso Banco Master acrescentou outra dimensão ao problema. A crise alcançou instituições financeiras, fundos de previdência e o sistema de proteção aos investidores. No primeiro semestre de 2026, o Fundo Garantidor de Créditos informou ter desembolsado R$40,2 bilhões em garantias relacionadas ao conglomerado Master, envolvendo cerca de 722 mil clientes.
As investigações continuam revelando novas conexões. Relatório recente da Polícia Federal apontou que o Banco de Brasília transferiu cerca de R$17 bilhões ao Master na compra de carteiras de crédito, sendo que parte expressiva dos ativos era considerada fraudulenta pela investigação.
É nesse ponto que a discussão sobre corrupção precisa sair do espetáculo político e voltar ao cidadão. A disputa entre ministros, os sigilos, os relatórios e os embates institucionais são importantes e precisam ser esclarecidos. Mas não podem fazer desaparecer a pergunta essencial: quem paga a conta quando recursos que deveriam servir à sociedade são desviados, mal administrados ou colocados sob suspeita?
A resposta é conhecida: o cidadão.
O trabalhador paga quando o serviço público perde qualidade. O aposentado paga quando seu benefício é fraudado. O contribuinte paga quando os recursos são desperdiçados. O brasileiro mais pobre é quem tem menos condições de se proteger dessas perdas.
Por isso, combater a corrupção não pode significar apenas acompanhar quem venceu ou perdeu a disputa entre autoridades. Significa garantir que o dinheiro público chegue aonde deveria chegar, que os responsáveis sejam investigados e punidos independentemente de partido ou posição institucional e que os mecanismos de controle funcionem antes que o prejuízo alcance a população.
O palco pode estar em Brasília, mas a conta chega à casa do brasileiro.
Carlos Arouck
Policial federal. É formado em Direito e Administração de Empresas.