O sistema e suas fissuras, agora transformadas em fraturas expostas

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Normalmente, a crítica social e jornalística aos acontecimentos históricos cotidianos, sobretudo, dos escândalos que assolam a República brasileira, setoriza as crises e analisa de forma rasteira os fatos.

Desta forma se impede uma visada ampla das raízes e da origem sistêmica das sucessivas crises brasileiras que são uma constante desde a proclamação da República, pelo golpe de 1889.

O vértice, o real centro de poder no Brasil, situa-se no comando de poucas famílias ligadas, sobretudo, ao sistema financeiro, destacadamente, as famílias Safra, Vilella, Moreira Salles, Setúbal, Aguiar. Já no setor produtivo, comandam as famílias Batista, Feffer, Klabin, exemplificativamente.

Estas famílias, de forma coordenada e harmoniosa ditam, em larga medida, os destinos e para onde irá o Brasil.

Abaixo deste vértice encontram-se o que se convencionou chamar de “Poderes da República”, cujos integrantes, para entrarem e se manterem no poder,  dependem diretamente do aval e do financiamento do andar de cima.

No sistema, tudo converge para a manutenção do vértice e suas dinastias, tanto na produção legislativa, como na proteção judiciária e na execução de políticas públicas que equalizem tensões sociais capazes de abalar o status quo ante, incluindo no pacote o papel dos ministérios públicos, federal e estaduais, e polícias.

Evidente que para o sistema se manter, obrigatoriamente, deve haver, por um lado, coordenação e, por outro, subordinação, tudo mantido com o suporte e o apoio das mídias, sobretudo, as tradicionais, representativas dos grandes grupos mediáticos e jornalísticos do país, responsáveis não somente por “azeitarem” o noticiário cotidianamente, bem como por produzirem “cultura” nas suas mais variadas manifestações, maioria das vezes, de péssima qualidade, mas que entretém a grande maioria do povo.

É neste contexto, superficial e grosseiro, nesta moldura mal acabada, que se insere e se começa a entender as razões maiores da fratura que conduz à grande crise desta república iniciada em 1988, cujo modelo ora se esgota por politraumatismo craniano.

Lula foi o homem escolhido pelo vértice do sistema a partir do início do Século XXI para manter o status quo desde então, permitindo fossem colocados no poder pessoas a ele ligadas, a dar-lhe sustentação política e social.

Não à toa, desde então, os bancos financiaram e deram amplo apoio a Lula, ao PT e partidos coligados, os quais, em troca, tiveram no período os seus melhores balanços e seus maiores lucros, a ponto de Lula dizer que: “nunca os banqueiros ganharam tanto dinheiro como em meu governo”, e não mentiu.

Contudo, alguns fenômenos e acontecimentos abalaram as estruturas do sistema, levando-o inicialmente à fissuras, agora transformadas em fraturas expostas.

O primeiro deles foi o avanço continental e internacional do crime organizado brasileiro, hoje associado às máfias internacionais, como a ‘Ndrangheta, que não responde e não obedece ao vértice e a nenhuma estrutura estatal. Ao contrário, as OCRIM, primeiro cooptaram agentes políticos e públicos para atingirem seus objetivos para, depois, formarem quadros que se insinuaram e adentraram nas estruturas estatais em todos os seus níveis.

Passaram as ORCRIM a dominar em vários segmentos o poder político a nível local, regional e até mesmo nacional, o PT da Bahia e o Banco Master que o digam.

O segundo fenômeno foi a criação e a ampliação das redes e plataformas sociais.

Com as redes sociais a população, de celular na mão, passou a ter vida e voz ativa, independente do controle midiático, decorrendo daí o enorme esforço político e pressão legislativa para criarem mecanismos e leis de repressão à liberdade de expressão, a tentarem recuperar o controle e o direcionamento da comunicação de massa, tão necessária à manutenção do status quo das elites do país.

É neste cenário disruptivo que o sistema largou a mão de Lula, após o advento do escândalo e do rombo financeiro - que alguns estimam chegar aos R$ 150 bilhões - do Banco Master, que afetou e afetará todo o sistema financeiro e bancário nacional.

Imperdoável para o sistema foi ver e assistir, de forma impotente, setores políticos emprestarem apoio e injetarem dinheiro público e privado em um banco, antes falido, o Banco Magnum, transformado em Master, servente para a lavagem de dinheiro advindo da corrupção, do INSS, dos fundos de pensão e aposentadorias, da venda de CDBs falsos no mercado financeiro e, sobretudo, de lavagem de dinheiro advindo do crime organizado, depois distribuído à mão larga para membros dos três poderes em todos os níveis da República.

É neste contexto, de fratura exposta, de distanciamento recíproco, que o sistema perdeu o controle de seus subalternos, assistindo agora seu antes protegido Lula dar-lhe uma banana na cara e, por outro, assistir à ascensão de Flávio Bolsonaro, o qual, à semelhança do pai, é outro anti sistema, capaz sim de mexer estruturalmente no sistema bancário e financeiro, tal qual Jair Bolsonaro fez ao implementar o PIX.

Paulo Emendabili Souza Barros De Carvalhosa

da Redação Ler comentários e comentar