Eis o governo paralelo exposto pelo Master, que assumiu o poder e “engoliu” as instituições
24/09/2026 às 20:12 Opinião
Existe algo muito mais sinistro no escândalo do Master do que as próprias negociatas.
O Globo revelou mensagens do celular de Vorcaro em que seu então advogado, Walfrido Warde, relata a construção de uma interlocução com o governo Lula. Em abril de 2024, dizia que Marcola, chefe de gabinete da Presidência, cobrava o e-mail com os "interesses do grupo". Em setembro:
"Estive com o Presidente Lula longamente ontem. Vc vai gostar".
Em janeiro de 2025, contava que o presidente agradecera "mais uma vez o whisky".
O Planalto nega o whisky e os recados. Admite apenas o que não tem como negar: Lula recebeu Vorcaro em 4 de dezembro de 2024, fora da agenda oficial. Warde agora diz que tratava com Marcola e outros integrantes do governo, não diretamente com Lula. Ou seja, a interlocução com o Planalto existia.
E vejam quem é o mensageiro. O escritório de Warde teve como sócia Roberta Rangel, então mulher de Toffoli. Toffoli depois que assumiu a relatoria do caso Master e só largou o osso quando os vínculos de seu entorno familiar com personagens e fundos ligados ao caso vieram à tona.
O escritório da mulher de Moraes tinha contrato de R$ 131 milhões com o Master, R$ 3,6 milhões por mês, para atuar em inquéritos da PF, no Banco Central, na Receita, no Cade e no Congresso. O escritório da família Lewandowski recebia R$ 250 mil mensais do banco, contrato que seguiu enquanto ele era ministro da Justiça. Em dezembro de 2024, Vorcaro orientou seu diretor jurídico a chamar o filho do ministro:
"Temos um contrato. Tem que chamar ele urgente. [...] E dá algum caso ou parecer para ele fazer".
Eis a juristocracia exposta: advogados poderosos, ex-ministros e parentes de ministros circulando entre Planalto, Esplanada e Supremo, com a mesma chave para todas as portas.
Isso não é o lobby que sempre existiu, por mais nefasto que ele seja. O lobby tradicional buscava interesses: um contrato, uma regra favorável. Pressionava o poder, mas ficava do lado de fora. A rede exposta pelo Master evoluiu para exercer o controle político efetivo do país: define quem é investigado e quem é poupado, quem é censurado, quem vai preso e quem pode disputar eleição. Virou um governo paralelo, que engoliu as instituições e detém o poder de fato, sem jamais ter recebido um voto.
E tomou o caminho autoritário em 2019, quando o Supremo abriu por portaria, sem o Ministério Público, o inquérito das fake news. Um de seus primeiros atos foi censurar uma reportagem que ligava Toffoli a Marcelo Odebrecht. Para blindar a rede, era preciso calar quem a expunha.
Depois, a repressão só se expandiu. Em nome do combate aos "atos antidemocráticos", milhares passaram pela máquina de inquéritos e processos, perfis foram censurados e centenas terminaram atrás das grades. O excepcional virou permanente: questionar o sistema passou a significar ser tratado como inimigo dele.
O mais grave: nenhum mecanismo de controle deteve a rede a tempo. Ela só emergiu quando o Master colapsou. E, mesmo exposta, não se corrige. Em dezembro de 2025, Gonet arquivou o pedido de investigação sobre o contrato da mulher de Moraes. Agora, alegando vício processual, pede a anulação do relatório da PF que dedicou quase 190 de 218 páginas a Moraes. Detalhe: o nome do próprio Gonet aparece nas mensagens.
A ofensiva pela blindagem é aberta. Quatro ministros já se alinharam: Gilmar, Zanin e o próprio Moraes votaram para unir, e assim amarrar, o caso de Moraes ao julgamento de supostas irregularidades de Mendonça, o ministro que expôs o relatório; Dino, que também se manifestou pela união, pediu vista e interrompeu o julgamento. E Zanin acaba de negar, por ora, a liminar que obrigaria o Senado a instalar a CPI sobre Moraes, Toffoli e Vorcaro, parada desde março com 41 assinaturas.
E quem segura a CPI? O presidente do Senado, Davi Alcolumbre. Segundo a Veja, numa proposta de delação rejeitada pela PF, Vorcaro relatava o pagamento de US$ 30 milhões ao senador, numa conta no exterior, em troca de apoio a interesses do banco. Alcolumbre nega. É o mesmo Alcolumbre que, segundo mensagem de Fábio Faria a Vorcaro obtida pela PF, estava "louco perguntando se as suíças vão vir" a uma festa do banqueiro. Foi justamente a alegada omissão dele que Zanin considerou não comprovada.
Passaram sete anos nos vendendo "defesa da democracia". Poucos negócios no Brasil rendem tanto.
Leandro Ruschel.
da Redação