
A Ilusão da Proteção: o abandono de Lula aos trabalhadores das estatais

25/09/2026 às 12:30 Opinião

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A greve iniciada em 10 de setembro de 2026 na Caixa Econômica Federal e nos Correios expôs uma contradição difícil de ignorar no discurso político sobre a proteção dos trabalhadores das estatais. Em duas empresas diretamente controladas pela União, empregados, aposentados e dependentes chegaram à paralisação principalmente por causa das mudanças e incertezas envolvendo os planos de saúde. Na Caixa, o principal conflito está no modelo de custeio do Saúde Caixa. Nos Correios, a categoria contesta a mudança na estrutura do CorreiosSaúde e seus possíveis efeitos sobre os custos para trabalhadores e dependentes.
O contraste chama atenção porque o Partido dos Trabalhadores construiu historicamente parte de sua identidade política sobre a defesa do trabalhador, do serviço público e das empresas estatais. Na prática, porém, os empregados dessas instituições se encontram diante de negociações nas quais precisam recorrer à greve para tentar preservar direitos e condições conquistadas ao longo dos anos. É importante separar a responsabilidade política direta de Lula das decisões administrativas específicas de cada estatal. Ainda assim, como presidente da República e principal autoridade do Executivo federal, sua administração responde politicamente pelas diretrizes gerais adotadas nas empresas sob controle da União.
Na Caixa, a questão do plano de saúde tornou-se o centro da disputa. Os empregados rejeitaram propostas que, segundo as entidades representativas, aumentariam sua participação no custeio do Saúde Caixa. Uma nova proposta chegou a elevar o limite de participação da instituição no financiamento do plano, mas foi rejeitada por 59,3% dos trabalhadores que votaram, mantendo a paralisação.
Nos Correios, o conflito assumiu proporções ainda maiores porque se mistura à crise financeira da estatal e ao processo de reestruturação da empresa. Os trabalhadores contestam a mudança do modelo do plano de saúde e rejeitam a transferência de maior parcela do risco financeiro para empregados, aposentados e dependentes. A empresa, por sua vez, enfrenta dificuldades financeiras e busca medidas de reestruturação.
A greve também revelou uma mudança importante na relação de forças entre sindicatos, empresas e governo. O impacto de uma paralisação já não depende apenas da quantidade de trabalhadores fora dos postos. Serviços digitais, estruturas de contingência e decisões judiciais permitem que as empresas mantenham parte significativa de suas atividades. Nos Correios, o Tribunal Superior do Trabalho determinou a manutenção de 80% do efetivo durante a paralisação, justificando a medida pela essencialidade do serviço e pelo período eleitoral de 2026.
A judicialização também deslocou parte do conflito das mesas de negociação para os tribunais. No caso dos Correios, o TST decidiu em 24 de setembro que a greve não foi abusiva, mas determinou o retorno dos trabalhadores a partir de 25 de setembro e autorizou a compensação dos dias parados. A Corte também fixou reajuste de 4,09%, retroativo à data base de agosto.
O resultado deixa uma questão política que ultrapassa os números do reajuste ou a duração da paralisação. Se trabalhadores de duas das maiores estatais brasileiras precisam cruzar os braços para defender a sustentabilidade de seus planos de saúde, há uma distância evidente entre o discurso de proteção social e a realidade enfrentada por essas categorias. A questão central, portanto, não é simplesmente saber quem venceu ou perdeu a greve, mas quem está assumindo o custo das decisões de gestão das empresas públicas.
Nos Correios, a decisão do TST encerrou uma etapa do conflito, mas não resolveu necessariamente a insatisfação dos trabalhadores. Na Caixa, a rejeição da proposta manteve a greve e o impasse sobre o Saúde Caixa. O que esses episódios revelam é que a proteção prometida aos trabalhadores das estatais não pode ser medida apenas pelo discurso político. Ela precisa aparecer na preservação concreta de salários, benefícios e condições de trabalho. Quando isso não acontece, a distância entre promessa e realidade deixa de ser retórica e passa a ser sentida diretamente no bolso de quem trabalha.
Carlos Arouck
Policial federal. É formado em Direito e Administração de Empresas.

















