Escudo das Américas: como a guerra ao narcoterror pode mudar o cenário político mundial
29/09/2026 às 17:55 Política
O narcotráfico e o consumo de drogas ilícitas geram um prejuízo global estimado em centenas de bilhões de dólares anuais e são responsáveis por aproximadamente 600 mil mortes por ano no mundo. Segundo dados do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crimes (UNODC) e da Organização Mundial da Saúde (OMS) a expansão do mercado de drogas sintéticas e o fortalecimento de facções criminosas têm agravado os custos de saúde, segurança e economia global. Na prática, são milhões de famílias destruídas e um sistema que se retroalimenta com recursos do crime.
O Escudo das Américas, uma coalizão de segurança criada em março de 2026 sob a liderança de Donald Trump, é uma iniciativa para justamente tentar frear o avanço do narcoterror. A aliança reúne 19 países latino-americanos e caribenhos em torno de uma agenda comum de combate ao crime organizado, ao narcotráfico, à imigração irregular e à influência de potências externas na região, especialmente a China. Os países que integram a aliança são: Argentina, Bahamas, Belize, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, El Salvador, Guatemala, Guiana, Honduras, Jamaica, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana e Trinidad e Tobago; além dos Estados Unidos.
Brasil e México, as duas maiores economias da América Latina e comandados por governos de esquerda, foram contra a iniciativa e decidiram não aderir ao acordo, apesar de abrigarem organizações criminosas de grande porte em seus territórios.
Em setembro de 2026, o Escudo das Américas divulgou uma declaração conjunta designando 24 facções criminosas como narcoterroristas. Entre elas estão o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), as duas maiores organizações do crime organizado brasileiro. A lista inclui também cartéis de países como México, Venezuela e Equador. As medidas previstas incluem o congelamento de ativos, restrições de vistos e imigração para pessoas ligadas a esses grupos, e a responsabilização de quem oferecer apoio material ou logístico.
O documento também propõe levar o tema à Organização dos Estados Americanos (OEA) e discute a possível reativação do Tratado Interamericano de Assistência Mútua (TIAR), um acordo da Guerra Fria que trata agressão a um país do continente como agressão a todos.
‘Nossos criminosos’
Lula com boné que faz referência ao Complexo do Alemão, principal reduto do CV no Rio de Janeiro – Reprodução internet
O governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) avaliou que a declaração do Escudo das Américas extrapola o combate ao crime organizado e abre brecha para ampliar a influência norte-americana na América Latina.
A leitura no Palácio do Planalto é de que o texto é muito grave e funciona como porta de entrada para uma reedição da doutrina Monroe. Há o entendimento de que o crime organizado é só o 1º tema a ser tratado dessa forma, abrindo precedente para Washington interferir em outras pautas estratégicas regionais, como a regulação de big techs, a presença chinesa na infraestrutura local e o controle sobre minerais críticos.
Horas antes de a declaração ser divulgada, Lula já havia respondido ao tema na abertura da Assembleia Geral da ONU. Disse que o Brasil tem seus próprios instrumentos contra o crime organizado – caso da Lei Antifacção e da operação Carbono Oculto – e rejeitou qualquer papel externo na segurança das fronteiras brasileiras.
Vale lembrar que o governo Lula já tinha sido contra a classificação, por parte do governo americano, do PCC e Comando Vermelho como grupos terroristas. “Fiquei triste que disseram que nossos criminosos são terroristas e que poderiam fazer intervenção”, afirmou o petista.
Como o crime penetra na economia
Na prática, os instrumentos contra o crime organizado citados por Lula são importantes, mas ainda assim insuficientes. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, estimativas apontam aproximadamente R$ 348 bilhões por ano movimentados pelos mercados ilícitos controlados pelo crime organizado, mais do que o dobro de todo o gasto público (União, estados, municípios) com segurança pública, estimado em R$ 153 bilhões. O Brasil deixou de ser apenas mercado consumidor, virou um dos principais entroncamentos logísticos do tráfico de cocaína e drogas sintéticas com destino à Europa e à África, usando rotas fluviais e portos estratégicos.
O volume de capital ‘adquirido’ pelo crime não fica escondido, penetra na economia legal. Postos de combustíveis, cooperativas de transporte, loteamentos clandestinos, mineração, cooperativas de crédito, criptoativos... tudo vira rota de lavagem.
Lula e o ditador Fidel Castro, uma amizade de longa data – Reprodução internet
Para Ernesto Araujo, ex-ministro de relações exteriores do governo Bolsonaro, o Escudo das Américas é a iniciativa geopolítica mais importante no hemisfério ocidental pelo menos nos últimos 70 anos.
“Trata-se de uma aliança que pode aniquilar o projeto revolucionário que se inicia com a Revolução Cubana e que a partir da fundação do Foro de São Paulo, em 1990, tornou-se uma coligação entre a revolução marxista e o crime organizado.
O crime organizado - onde sempre está inevitavelmente incluída a corrupção, o crime mais organizado de todos - tornou-se de fato o principal instrumento e sustentáculo do projeto revolucionário, adaptado ao Século XXI, e sua desarticulação tende a significar o fim dessa longa e nefasta revolução. Os regimes criminal-socialistas já estão desaparecendo na região, por exemplo na Venezuela e em Cuba, mas sua rede de poder ainda atua em toda parte, graças aos recursos financeiros, militares e políticos que conseguiram reunir durante décadas, inclusive no Brasil. Somente um esforço conjunto de todos os países da região permitirá romper essa rede e restabelecer uma verdadeira ordem democrática.
O governo Lula infelizmente parece fazer parte dessa rede, ao insistir em deixar o Brasil de fora do Escudo das Américas. Talvez a intenção seja transformar o Brasil numa espécie de Escudo do Crime, onde todas as entidades que estão sendo varridas do restante do continente possam encontrar refúgio e sobreviver até que a maré acalme.
O certo é que o isolamento do Brasil frente ao Escudo das Américas não é prejudicial apenas aos brasileiros, mas também a todos os demais povos do continente americano, pois significa a possibilidade de sobrevivência do crime organizado diante do maior perigo que este jamais enfrentou e de uma futura volta dos regimes criminal-socialistas que estão sendo expulsos de tantos países da região.
Flávio Bolsonaro toma a atitude mais importante de sua campanha ao antecipar que, se eleito, colocará o Brasil no Escudo das Américas, pois isso significa uma transformação integral da estrutura de poder que vem sustentando a opressão dos brasileiros pelo crime, pela corrupção, pelo regime do PT como um todo”, ressaltou, em entrevista exclusiva à Revista A Verdade.
Para o analista político Cezar Roedel é preocupante a decisão do governo brasileiro de ficar de fora do Escudo das Américas:
“Crime organizado transnacional se combate com inteligência, cooperação internacional e capacidade de antecipação. Defender soberania também significa fortalecer a capacidade do Estado de controlar seu território, suas fronteiras e seus fluxos financeiros. Quando boa parte da região constrói mecanismos conjuntos e o Brasil permanece fora deles, abre mão de participar da construção dessa arquitetura de segurança. Isolamento dificilmente é sinônimo de soberania”, frisou, em entrevista exclusiva à Revista A Verdade.
Lula e o aiatolá Ali Khamenei em reunião realizada em 2010 – Reprodução internet
Para o analista político José Carlos Sepúlveda, o Escudo das Américas visa construir uma aliança que afasta a influência da ditadura comunista chinesa e do regime autocrata do Putin da América Latina, bem como dos grupos terroristas influenciados pelo Irã, que tinham grande presença na Venezuela e ramificações em outros países influenciados pela Venezuela.
É claro que o governo Lula não vê com bons olhos essa aliança, porque ele está completamente rendido e subjugado à ditadura chinesa e também rendido e subjugado aos interesses estratégicos da Rússia. Além disso, a aliança com a ditadura dos aiatolás do Irã é uma das metas do governo Lula.
Por fim, a designação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas por todos os países da Aliança do Escudo das Américas faz sentido, já que esses grupos narcoterroristas passaram a ser os braços armados da esquerda ideológica. Eles têm um papel fundamental na destruição da ordem civil e da ordem do Estado, pois eles arrebatam muitos territórios do império da lei e esses territórios passam a estar sob o domínio dos fora da lei.
Mas não é só isso, esses grupos ainda têm grandes corredores de tráfico de drogas, grandes corredores de tráfico de armas e de tráfico humano, respingando em muitos outros aspectos da ação subversiva.
O PCC e o Comando Vermelho, sobretudo o PCC, se tornaram hoje um problema internacional, não só para os Estados Unidos, como para outros países da América Latina, inclusive até para países da Europa. Por isso as polícias europeias hoje advertem para o grande perigo que é o a presença do PCC em diversos países europeus, sobretudo Portugal”, apontou, em entrevista exclusiva à Revista A Verdade.
Nicolás Maduro após ser capturado por militares americanos – Reprodução internet
Já o professor Luiz Antonio Valle traz outro aspecto da questão: a recuperação da hegemonia dos Estados Unidos nas Américas:
“Em 23 de janeiro o Pentágono divulgou sua nova Estratégia de Defesa Nacional com quatro pontos principais e colocando o território nacional e a esfera de influência no Hemisfério Ocidental (entenda-se as Américas – da Groenlândia a Ushuaia) como a principal prioridade para as forças armadas dos EUA. Pete Hegseth, Secretário da Guerra, declarou na época: “O Departamento não se deixará mais distrair por intervencionismo, guerras intermináveis, mudanças de regime e reconstrução nacional”. O documento afirma que o Pentágono “fornecerá ao Presidente opções credíveis para garantir o acesso militar e comercial dos EUA a terrenos estratégicos, desde o Ártico até à América do Sul, especialmente a Groenlândia, o Golfo da América e o Canal do Panamá”.
Tendo esta estratégia principal em mente, os EUA começaram a se articular para torná-la viável. Como tem sido muito difícil aos EUA manter ou recuperar a influência na Ásia, Europa, África e Oriente Médio, voltar-se para as Américas parece um passo natural. Os ataques a embarcações no Caribe, a extração de Maduro na Venezuela e agora o Escudo das Américas, estão alinhados com esta diretriz de recuperar a hegemonia nas Américas.
Assim, a operação Escudo das Américas visa sufocar o fluxo de dinheiro do narcotráfico que vem irrigando campanhas eleitorais em diversos países, elegendo mandatários não alinhados com Washington. Com a eleição de novos líderes nas Américas, notadamente na América do Sul e Central, que estejam alinhados com os EUA, será possível atingir o objetivo de recuperar a hegemonia no Hemisfério Ocidental, como preconizado na Estratégia de Defesa Nacional divulgada em janeiro.
Sendo o Brasil o maior país da América Latina é razoável prever que todas as fichas serão jogadas para que haja um maior alinhamento com os EUA por parte do governo que começa em 2027”, completou, em entrevista exclusiva à Revista A Verdade.
da Redação