A derrota do mais perigoso petista e o futuro da esquerda no Brasil
05/10/2026 às 09:48 Opinião
Há diversos ângulos sob os quais podemos analisar essas eleições, surpreendentes em muitos aspectos. Vou escolher um que, para mim, é simbólico: a não eleição de José Dirceu como deputado federal por São Paulo.
Dirceu conseguiu convencer 78.450 eleitores a sufragarem seu nome. Não fosse o quociente eleitoral, estaria eleito. A eleita com menor votação foi Sônia Guajajara, do PSOL, com pouco mais de 54 mil votos. No entanto, outros candidatos do PT tiveram votação maior do que a de Dirceu, e o partido completou o seu número de vagas antes de chegar no nome do ex-todo-poderoso da República.
A não eleição de Dirceu não tem nada a ver com pudores anticorrupção. Seu companheiro de mensalão, João Paulo Cunha, se elegeu, com quase 110 mil votos.
Nem tampouco tem a ver com um sentimento anti-PT ou anti-esquerda. Lula venceu Flávio na cidade de São Paulo, e o PSOL teve 3 dos 10 deputados mais votados no Estado, incluindo a recordista Érika Hilton, com quase 1,6 milhão de votos.
Minha tese: fadiga de material. Um cansaço com pessoas que representam outros tempos, o que, em minha opinião, foi um dos fatores que fez com que Lula ficasse atrás de Flávio na votação nacional.
Na eleição presidencial de 1989, Lula tomou a frente de Brizola e conquistou o direito de disputar o 2º turno com Collor. Brizola já era governador antes da ditadura, Lula era o ex-sindicalista que havia surgido há pouco mais de 10 anos para a política. Brizola representava o passado, Lula, o futuro. O eleitor deu seu voto ao futuro, enterrando o passado.
José Dirceu, assim como Lula, representam um passado que o PT tem imensa dificuldade de superar. Tanto que os deputados mais votados da esquerda, pelo menos em São Paulo, não foram do PT. O PT envelheceu junto com o seu líder máximo. Já disse aqui e repito: essa era a eleição da renovação, Lula deveria ter preparado seu sucessor desde o início, como fez com Dilma. Não o fez, e agora paga o preço.
Não que uma renovação tivesse evitado a derrocada. A força da direita está aí, e não seria diferente com outro candidato do PT. Mas, ao menos, o partido estaria apontando para o futuro. Agora, com Lula se preparando para uma derrota humilhante e um ocaso sem glória, o PT vê-se como um partido sem quadros nacionais à altura.
O futuro da esquerda é… Erika Hilton.
Marcelo Guterman. Engenheiro de Produção pela Escola Politécnica da USP e mestre em Economia e Finanças pelo Insper.
da Redação