O dia em que descobri que existia direita e esquerda

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Até os 35 anos, política era para mim o que o jogo do Vasco é para quem não torce pelo Vasco: um barulho distante, que não mudava nada na minha vida.

Não era falta de estudo. Comecei a trabalhar cedo, me formei em Ciências Contábeis, fiz MBA e já caminhava para uma segunda graduação, em Matemática.

Sempre acreditei que tudo o que eu conquistasse viria do meu trabalho, e nunca esperei que a política me ajudasse em nada.

Lula, Fernando Henrique, Collor: tanto fazia. Se a economia ia bem ou mal, se o político era honesto ou ladrão, se existia STF ou STJ, eu não sabia e não fazia questão de saber. Ainda assim, votei em Lula mais de uma vez. Achava que os políticos eram todos iguais, e ele trazia uma mensagem bonita: o homem pobre, do povo, que chegaria ao poder para cuidar dos pobres.

Como eu sempre me vi como parte desse povo, aquilo me parecia a salvação.

O primeiro incômodo veio com o mensalão. O escândalo estourou em 2005, e em 2012 o Supremo julgou o caso em sessões transmitidas pela televisão, com Joaquim Barbosa como relator.

Foi ali que descobri o que era o STF, o que eram instâncias, recursos, primeiro e segundo grau.

Anos depois, o impeachment de Dilma Rousseff me prendeu diante da TV. Assisti às votações na Câmara e quis entender por que Eduardo Cunha, antes aliado do governo, havia aceitado abrir o processo.

Em 2018, com Lula preso e Fernando Haddad como candidato do PT, apareceu na disputa um deputado do baixo clero, desajeitado e sem filtro. Bolsonaro dizia o que eu pensava, do jeito que eu diria. Podia não ser refinado, mas era autêntico.

Foi nessa época que comecei a ouvir palavras que até então não significavam nada para mim: esquerda, direita, conservador, progressista. Fui estudar. Marx, Lenin, a Revolução Russa, socialismo, capitalismo. Cheguei a uma conclusão que me surpreendeu: pelos critérios de cada lado, eu era de direita. Sempre tinha sido. Só não sabia o nome.

Olhando para trás, entendi discussões antigas. Na escola, na faculdade, na igreja, em entidades das quais participei, eu discordava de muita gente sem saber por quê. Achava que eram divergências pessoais. Eram políticas, e do outro lado as pessoas sabiam muito bem de que lado estavam.

Então veio o que mais me intriga até hoje: eu tinha vergonha. Vergonha de dizer que era de direita, que era conservador, que ia votar em Bolsonaro. Ninguém me proibiu nada. Mas, nos ambientes que eu frequentava, ser de direita era motivo de riso, e Bolsonaro era tratado como piada.

Sem perceber, eu me encolhia. Levei tempo para entender de onde vinha esse constrangimento. A resposta estava num italiano morto em 1937.

Antonio Gramsci, um dos fundadores do Partido Comunista Italiano, passou cerca de dez anos preso pelo regime de Mussolini. Na prisão, escreveu os Cadernos do Cárcere, em que se perguntou por que a revolução que vingou na Rússia fracassou no Ocidente. Sua conclusão foi que, em sociedades como a italiana, o poder não se sustenta só pela força ou pelo voto. Sustenta-se pela hegemonia: a capacidade de um grupo fazer com que suas ideias sejam aceitas pela maioria como naturais. O instrumento dessa hegemonia é o que Gramsci chamou de senso comum: o conjunto de crenças que as pessoas carregam sem perceber que são escolhas.

Quem conquista o senso comum não precisa vencer debates, porque o debate nem chega a acontecer. A posição contrária simplesmente parece estranha, atrasada ou ridícula.

Gramsci não escondeu nada; escreveu abertamente. Suas obras chegaram ao Brasil nos anos 1960, traduzidas por intelectuais como Carlos Nelson Coutinho e Leandro Konder, e influenciaram gerações de professores, jornalistas e militantes.

Não é preciso imaginar uma conspiração para enxergar o efeito. Basta lembrar da minha vergonha. Ninguém me obrigou a senti-la; o ambiente já tinha feito o trabalho.

Era um jogo em que só um lado sabia que estava em campo. O outro jogava sem conhecer as regras e, muitas vezes, sem saber que havia um jogo.

Alguém dirá que a direita, ao acordar, passou a fazer exatamente o que Gramsci descreveu: disputar escolas, redes sociais, imprensa e cultura.

É verdade, e não há nada de errado nisso. Disputar ideias é o que se espera de uma democracia.

Também é justo reconhecer que a direita tem seus erros, e eu os vejo. Nenhum lado tem o monopólio da virtude. O problema nunca foi haver disputa. Era haver um lado que disputava e outro que nem sabia que estava sendo disputado.

Uma democracia saudável precisa que os dois lados saibam que existem. A eleição de 2018 foi o primeiro sinal de que essa assimetria estava acabando.

Milhões de brasileiros descobriram, como eu, que tinham um lado. Bolsonaro venceu e levou ao Congresso uma bancada que, poucos anos antes, seria impensável.

Em 2022, a onda recuou, e Lula voltou ao Planalto pela margem mais estreita da história.

Neste domingo, 4 de outubro, o eleitor deu outro recado. O PL se consolidou como a maior bancada do Senado a partir de 2027, e Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno à frente, com 47% dos votos contra 45% de Lula. O resultado final só virá no dia 25. Mas, ganhe quem ganhar, algo já mudou: a disputa agora é entre dois lados que sabem quem são. Quando descobri que era de direita, quis debater com todo mundo. Hoje prefiro estudar, entender e explicar a quem pergunta.

Discussão em que os dois lados só gritam é como gritar diante de uma turbina de avião: ninguém ouve ninguém.

O que Gramsci ensinou à esquerda há quase cem anos, a direita brasileira aprendeu em menos de uma década: quem não sabe o nome do próprio lado começa o jogo perdendo.

O dia em que descobri que existia direita e esquerda foi o dia em que deixei de jogar no escuro.

Renato Codeco. Contador.

da Redação
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