
O TSE, uma hora sem respostas, a explicação de Nunes Marques e a falha que não deveria acontecer

06/10/2026 às 12:43 Opinião

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A explicação do TSE para a paralisação da apuração presidencial levanta mais perguntas do que respostas.
Segundo o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Kassio Nunes Marques, o atraso de aproximadamente uma hora na divulgação dos resultados do primeiro turno ocorreu em razão de um "congestionamento de dados" provocado por um fluxo superior ao normal no sistema.
O próprio ministro afirmou que a equipe de tecnologia precisou acionar protocolos de segurança após detectar o problema.
Até aí, pode-se compreender que sistemas complexos estejam sujeitos a falhas. O que causa estranheza não é a existência do problema, mas a natureza da justificativa apresentada.
Estamos falando da maior operação tecnológica periódica do país. Estamos falando de um evento cuja data é conhecida com anos de antecedência. Estamos falando de uma infraestrutura cujo pico de utilização não é surpresa para ninguém.
Por isso, a primeira pergunta surge naturalmente: como um sistema desenvolvido especificamente para processar resultados eleitorais sofre congestionamento justamente no momento para o qual foi concebido?
Mais intrigante ainda é que não se tratava de uma situação inédita. Em processos eleitorais anteriores, o país já assistiu a problemas envolvendo a divulgação e a totalização dos votos. Se houve antecedentes, seria razoável imaginar que as vulnerabilidades identificadas tivessem sido revisadas, corrigidas e exaustivamente testadas.
A questão que permanece é simples: as lições das eleições passadas foram realmente incorporadas aos sistemas atuais?
Outro ponto que chama atenção é a dinâmica da paralisação.
Não houve uma desaceleração gradual ou pequenas interrupções visíveis ao público. A apuração presidencial simplesmente permaneceu praticamente congelada na faixa de 64% das seções apuradas. Em seguida, após cerca de uma hora, reapareceu próxima de 85%, sem que o eleitor tivesse tido acesso às atualizações intermediárias que explicassem o caminho percorrido durante esse período.
O TSE afirma que a apuração e a totalização dos votos não foram afetadas, apenas a divulgação dos resultados.
Entretanto, essa explicação não responde a algumas questões fundamentais:
- Por que a paralisação foi percebida de forma tão evidente justamente na disputa presidencial?
- Quais sistemas foram isolados durante a ocorrência do problema?
- Como ocorreu o salto de aproximadamente vinte pontos percentuais na divulgação?
- Por que os dados intermediários não apareceram ao público?
- Quais testes de estresse foram realizados antes da eleição para validar a capacidade da infraestrutura?
Essas perguntas não constituem prova de irregularidade. Tampouco autorizam conclusões precipitadas.
Mas democracia não se sustenta apenas na integridade dos processos. Ela também depende da transparência das explicações.
Quando uma falha técnica interrompe a divulgação de apuração de votos do cargo mais importante da República, em um momento decisivo da apuração, a sociedade tem o direito de esperar algo mais robusto do que uma justificativa genérica sobre congestionamento de dados.
A verdadeira questão não é se houve fraude. Até o momento, não foi apresentada nenhuma evidência pública que comprove isso.
A verdadeira questão é outra: por que um sistema que deveria estar preparado para exatamente esse volume de processamento falhou justamente quando a atenção de todo o país estava voltada para ele?
Enquanto essa resposta não vier de forma técnica, detalhada e auditável, continuará existindo uma lacuna. E toda lacuna de informação, especialmente em eleições, acaba sendo preenchida por dúvidas, especulações e desconfiança.
A confiança pública não depende apenas de eleições seguras.
Depende também de explicações capazes de convencer uma sociedade que tem o direito de perguntar, de questionar e de entender exatamente o que aconteceu.
Jayme Rizolli
Jornalista.
















