Ópio dos intelectuais: por que gente culta acredita em promessas que a história já desmentiu

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Série O ópio dos intelectuais — parte 1 de 9.

Na Paris dos anos 1960, circulava entre os estudantes uma frase curiosa: era melhor estar errado com Sartre do que certo com Aron.

Jean-Paul Sartre era o filósofo da moda, simpatizante da União Soviética e, mais tarde, de Cuba. Raymond Aron era o colega que insistia em olhar para os fatos.

A frase resume um paradoxo que atravessa gerações. Pessoas cultas, treinadas para duvidar de tudo, aceitam sem questionar promessas que a história já desmentiu.

Professores que examinam cada vírgula de um governo democrático silenciam diante de uma ditadura que fala a sua língua. Como isso é possível?

Aron tentou responder em 1955, num livro que continua atual: O ópio dos intelectuais.

Este artigo abre uma série de nove textos que usam as ideias dele para entender o Brasil de hoje.

Aron não era um teórico de gabinete. Nascido em 1905, foi colega e amigo de Sartre na École Normale Supérieure, a escola de elite da intelectualidade francesa. Entre 1930 e 1933, morou na Alemanha e viu de perto a ascensão do nazismo.

Na Segunda Guerra, juntou-se à França Livre, em Londres. Depois, foi colunista do Le Figaro por cerca de 30 anos.

Quem viu um totalitarismo nascer aprende a reconhecer o padrão. Na França do pós-guerra, o Partido Comunista tinha cerca de um quarto dos votos, e boa parte da intelectualidade via em Moscou o futuro da humanidade. A informação sobre os crimes soviéticos já existia.

Em 1949, o desertor Victor Kravchenko, autor de Eu escolhi a liberdade, processou uma revista comunista que o chamara de mentiroso e venceu.

No mesmo ano, David Rousset, sobrevivente dos campos nazistas, denunciou os campos de trabalho forçado da URSS. Muitos intelectuais não ignoravam os fatos. Escolhiam não vê-los. Aron identificou três mitos que sustentavam essa cegueira.

O primeiro é o mito da esquerda. A esquerda se apresenta como um bloco moral único, herdeiro do lado certo da história. Na prática, reúne ideias que se contradizem, como liberdade individual e controle estatal da economia.

O rótulo serve menos para descrever políticas do que para separar os bons dos maus. Quem está do lado certo tem razão antes mesmo de abrir a boca.

O segundo é o mito da revolução. A ruptura violenta aparece como um ato de purificação, capaz de lavar os pecados da sociedade de uma só vez.

Aron lembrava que revoluções costumam produzir novas tiranias, enquanto as reformas graduais das democracias trouxeram ganhos mais concretos para quem trabalha.

O terceiro é o mito do proletariado. O operário é tratado como a classe que vai redimir a humanidade. Mas quem fala em nome dele é o partido, que nunca precisou consultá-lo. E o trabalhador real preferia melhorar de vida a fazer revolução.

Os três mitos não ficaram em 1955. Trocaram de roupa e chegaram ao Brasil, como os próximos artigos desta série vão mostrar.

Em 1844, Karl Marx escreveu que a religião era o ópio do povo, um consolo que anestesiava os oprimidos.

Aron devolveu a frase ao seu autor: o marxismo tinha virado o ópio dos intelectuais. A comparação não é força de expressão. O marxismo tinha profetas, Marx e Lênin. Tinha escrituras, interpretadas por especialistas. Tinha uma igreja, o partido, que definia a doutrina correta. Tinha hereges, os dissidentes, expulsos e difamados. E tinha um paraíso, a sociedade sem classes, prometido para um futuro sempre adiado. Daí nasce o que Aron chamou de idolatria da história.

Se o rumo da história é conhecido e o paraíso é certo, qualquer meio para chegar lá se justifica. Os fuzilamentos, os campos e a fome viram custo do processo. O crime de hoje é absolvido por um futuro que ninguém viu.

Mas por que justamente os intelectuais? Aron apontou a alienação. Afastados do poder real e insatisfeitos com a sociedade em que viviam, eles buscavam na ideologia o que a religião oferecia aos antepassados: um sentido para a vida e um lugar do lado do bem.

Décadas depois, o economista americano Thomas Sowell acrescentou outra explicação. O intelectual raramente paga o preço por estar errado. O engenheiro cuja ponte cai é responsabilizado. Quem passou a vida defendendo um regime que fracassou continua dando aula, escrevendo livros e sendo convidado para entrevistas.

É preciso dizer com clareza o que esta série não é. Aron também era um intelectual, e dos maiores do século 20. Estudou Marx a vida inteira, com respeito pelo pensador. Ele não atacava a inteligência. Atacava a fé disfarçada de ciência. A crítica aqui é a um comportamento, não ao pensamento.

Por que um livro francês de 70 anos interessa ao Brasil de 2026? Porque os mitos mudaram de roupa, mas não de essência.

Nos próximos artigos, a série vai examinar a esquerda que se julga moralmente superior, a defesa entusiasmada de ditaduras, a guerra das palavras, a ocupação das instituições, a divisão da sociedade em grupos, a conta paga pelo contribuinte, a busca do brasileiro por um salvador e, por fim, a virada que hoje se vê nas urnas pelo mundo. Aron terminou o livro com um elogio da dúvida. Para ele, a tolerância nasce do ceticismo: quem não duvida de nada acaba não tolerando ninguém. É um bom conselho para qualquer lado. E é o fio que vai conduzir esta série.

Renato Codeco

Contador.

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