O último ato de Lula

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Há hipóteses que, à primeira vista, parecem absurdas. Até o momento em que deixam de sê-lo.

Minha leitura — assumidamente especulativa — é que Lula poderá renunciar à candidatura cinco dias antes da eleição, diante de um quadro eleitoral que, a essa altura, se tornaria irreversível. Pesquisas públicas e, sobretudo, os trackings internos do próprio PT apontariam para uma derrota acachapante, superior a 8 milhões de votos, algo entre seis e oito pontos percentuais dos votos válidos.

Não seria apenas uma derrota eleitoral. Seria a consumação de um processo de desagregação política que já começaria a se revelar durante a campanha: desordem estratégica, conflitos internos, disputas intestinas, ofensas pessoais e uma militância cada vez menos mobilizada — inclusive em regiões historicamente fundamentais para o lulismo, como o Nordeste.

Nesse cenário, a renúncia poderia ser apresentada como um último gesto de preservação política: evitar que uma derrota monumental se convertesse numa débâcle histórica.

Mas o verdadeiro terremoto começaria no dia seguinte.

O PT é uma das maiores organizações partidárias da história contemporânea brasileira. Possui estrutura, capilaridade, militância e uma identidade política consolidada. O problema é outro: não há, hoje, um sucessor de Lula com a mesma estatura política, eleitoral e simbólica.

E o próprio partido parece reconhecer o dilema. Em março, o presidente nacional do PT, Edinho Silva, afirmou que a legenda precisa passar por uma transição geracional e declarou: “O sucessor de Lula será o PT.”

A frase é eloquente.

Lula tem 80 anos. O calendário, inexorável, não negocia com lideranças históricas. Em 2030, teria 84; em 2034, 88. É pouco plausível imaginar que o PT possa continuar indefinidamente dependente de uma única personalidade.

Enquanto isso, o calendário produziria uma circunstância ainda mais implacável. Supondo que Flávio Bolsonaro chegasse à Presidência e fizesse um governo apenas aceitável, sem brilho extraordinário nem grande desgaste, Tarcísio de Freitas surgiria naturalmente como um dos principais nomes para a sucessão em 2030. Encerrado esse eventual ciclo presidencial, o horizonte de 2034 já encontraria Lula aos 88 ou 89 anos — praticamente nonagenário. A possibilidade de uma nova candidatura, portanto, não seria apenas remota: seria o epílogo de uma era que o próprio tempo trataria de encerrar.

O PT, ao contrário, terá de enfrentar aquilo que durante décadas conseguiu adiar: a sucessão de Lula.

E é justamente aí que poderá ocorrer a implosão.

Sem Lula no comando e sem um sucessor consensual, as disputas internas tenderiam a recrudescer. Grupos, correntes e lideranças passariam a disputar o espólio político do lulismo. O partido poderia sobreviver por algum tempo, mas perder progressivamente centralidade, até converter-se numa legenda de menor expressão — como ocorreu com o outrora poderoso PSDB.

Não afirmo que esse destino seja inevitável.

Mas uma coisa me parece inescapável: a era Lula está chegando ao seu limite biológico e político.

E, quando ela terminar, saberemos se o PT construiu um partido capaz de sobreviver ao seu maior líder — ou se, durante décadas, apenas prolongou a sombra de um homem.

Talvez essa seja a verdadeira eleição que o Brasil esteja começando a disputar: não apenas quem sucederá Lula, mas o ‘que sobreviverá a Lula’.

Cesar Bertelli

Bacharel em Direito – Hoteleiro.

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