

Siga o Jornal da Cidade Online no Google
Acompanhe as principais notícias do momento direto nos resultados de busca.
A diferença entre Lula e Bolsonaro no 2º turno de 2022 foi de meros 2,1 milhões de votos. Se os 52 x 48 do Datafolha se confirmarem, a diferença de Flávio para Lula será de cerca de 5 milhões de votos. Pode ser um pouco menos ou um pouco mais do que isso, mas estamos certamente falando de uma virada de menos de 10 milhões de votos em um eleitorado de quase 150 milhões de eleitores.
Isso para dizer que esta “virada” para a direita é uma falácia. Não se trata de uma maioria avassaladora, mas de um tilt dos eleitores de centro. Sim, há uma direita arraigada, que forma o grosso da votação em Flávio, assim como há uma esquerda arraigada, que forma o grosso da votação em Lula. Mas o que decide a eleição é verdadeiramente aquele eleitor do meio, que não tem preferência ideológica.
A vitória de Lula em 2022 não ocorreu porque os esquerdistas deixaram de ofender o “pobre de direita” ou porque houve “respeito” pela opinião do outro. A vitória de Lula ocorreu APESAR das ofensas. E ocorreu justamente porque conseguiu atrair o eleitor desengajado, que pouco liga para esse tipo de debate.
Gabeira, em artigo publicado em O Globo, entra na onda dessas análises que estão pululando por aí, de que falta ao PT entender o “pobre de direita”. Não, eles entendem muito bem, a Fundação Perseu Abramo fez um estudo já em 2017 a respeito. Mas parece que, quanto mais entendem, mais o desprezam, porque o “pobre de direita” é uma contradição em termos e um desafio à própria razão de ser do partido. A resposta eleitoral veio em 2018, em 2022 e, agora, em 2026. A diferença de 2022 para 2018/2026 é o eleitor desengajado.
Por isso, Gabeira, além da análise sociológica que não serve para nada, porque os intelectuais petistas nunca deixarão de desprezar o “pobre de direita”, acerta ao dizer que Lula e o PT erraram ao perder o eleitor desengajado. São esses menos de 10 milhões que vão decidir a eleição em favor do seu adversário. Por que esse eleitor foi perdido? Pode haver vários motivos. Vou contar um caso, que nem sei se é representativo.
Em 2018 minha mãe votou em Bolsonaro, e em 2022 votou em Lula. Nessa eleição não sei se vai votar no Flávio, mas ela já disse que não vai votar no Lula. Por que, mãe? Ah, estou cansada de ver a cara desse cara. É isso, fadiga de material. Um rosto velho, que já deu. Não são necessárias grandes elaborações sociológicas.
Lula apostou que o discurso da “frente ampla democrática” seria suficiente para sustentar a mágica do apoio ao seu nome. Funcionou em 2022, mas em 2026 o truque ficou manjado, e a fadiga de material fez o resto.
Marcelo Guterman. Engenheiro de Produção pela Escola Politécnica da USP e mestre em Economia e Finanças pelo Insper.


















