Propinoduto: Vorcaro pagou filme sobre Lula para fazer negociatas com o governo (veja o vídeo)
09/10/2026 às 11:35 Denúncias
Em declarações públicas recentes sobre o escândalo do Banco Master, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que as investigações deveriam seguir até o fim, doa a quem doer. O jargão, usado para indicar equidistância e rigor, voltou ao ponto de partida em tom de ironia ministerial.
A revista VEJA (ed. 3016) detalha o conteúdo de áudios e anexos apresentados em junho à Procuradoria Geral da República pelo banqueiro Daniel Vorcaro. O material descreve um suposto esquema de propina e acesso aos bastidores do governo federal para alcançar os fundos de pensão de estatais.
Segundo o relato de Vorcaro, a aproximação com o núcleo do governo passou por nomes centrais do Partido dos Trabalhadores. O líder do governo no Senado, Jaques Wagner, teria aberto o contato inicial. Em seguida, o sócio do banco, Augusto Lima, teria tratado os detalhes operacionais com João Vaccari Neto, ex tesoureiro do PT. O ingresso no arranjo teria exigido cerca de R$ 30 milhões em espécie, encaminhados, via Paulo Okamotto, ao custeio do documentário de Oliver Stone sobre Lula, além de quantia não revelada destinada ao Instituto Lula. Ficou acertado um pedágio de 10% sobre qualquer captação nos fundos de pensão do Banco do Brasil, da Caixa Econômica Federal, da Petrobras e dos Correios. Nas contas de Vorcaro, a projeção apontava R$ 1 bilhão ao PT e R$ 9 bilhões ao operador.
No Palácio do Planalto, os contatos avançaram na Secretaria de Relações Institucionais. O ministro Alexandre Padilha teria indicado que conversas com Olavo Noleto, então secretário executivo, equivaliam a tratar diretamente com a chefia da pasta.
A proposta de acordo de Vorcaro foi recusada. Mensagens extraídas do celular do banqueiro, porém, registram a sequência dos fatos. Em 29 de abril de 2024, um intermediário identificado apenas como Júlio apresentou Vorcaro a Olavo Noleto. No mesmo dia, o Banco Master entrou na lista exaustiva, relação que credencia instituições financeiras a receber aportes dos fundos públicos.
Ainda em 29 de abril, Júlio cobrou R$ 500 mil pela intermediação. Dois dias depois da inclusão na lista, Vorcaro e o ministro Alexandre Padilha jantaram na casa do banqueiro. Em outubro, Júlio enviou mensagem ao banqueiro: o PR vai te receber.
As operações sofreram um solavanco em julho de 2024, depois que a imprensa divulgou a destituição de gerentes da Caixa contrários às operações do Master. Vorcaro sustenta que movimentações com fundos municipais renderam cerca de R$ 6 milhões ao grupo ligado a Padilha. Sobre transações paralelas sob investigação, o banqueiro resumiu a própria leitura: o do Lula foi por fora, foi errado. O do Flávio não foi.
Lula, Alexandre Padilha e Olavo Noleto negam qualquer irregularidade ou favorecimento ao Banco Master. Até o momento, não há prova material de que o encontro com o presidente prometido por Júlio tenha ocorrido. O único registro confirmado no Palácio do Planalto data de 4 de dezembro de 2024, fora da agenda oficial, e tratou do andamento do Banco Master junto ao Banco Central.
A PGR descartou o anexo do delator porque pagamentos em dinheiro vivo não deixam lastro documental nem provas auditáveis. O critério gerou questionamentos nos bastidores do Ministério Público, já que o pagamento em espécie serve, por definição, para impedir a formação de provas. No mesmo pacote arquivado constavam menções a repasses ao senador Davi Alcolumbre e a integrantes do Judiciário.
Carlos Arouck
Policial federal. É formado em Direito e Administração de Empresas.