Lula está cada vez mais parecido com o Odorico Paraguaçu, da novela O Bem Amado
10/10/2026 às 18:33 Opinião
Hoje de manhã, pela Jovem Pan, vi o presidente da República num palanque em São Paulo. Sol a pino, microfone no talo, a voz brigando de igual para igual com o carro de som, e ganhando. Lá embaixo, o coro respondia no compasso: Lula, Lula, Lula. Fiz o que qualquer cidadão consciente faria. Esfreguei os olhos, conferi a data no celular e procurei a antena da televisão de tubo. Porque aquilo não era 2026. Aquilo era Sucupira, e no palanque estava Odorico Paraguaçu.
A pergunta que me ficou é simples: em que ano Luiz Inácio acha que estamos?
Para os mais jovens, que nunca precisaram levantar do sofá para mudar de canal, uma apresentação. Odorico é o prefeito de Sucupira, criado por Dias Gomes em "O Bem-Amado", novela da Globo de 1973, com Paulo Gracindo no papel. Era um orador de mão cheia e pauta vazia. Prometia deixar de lado os "entretantos" e partir para os "finalmentes", e o povo esperou pelos finalmentes a novela inteira. Sua grande obra era um cemitério. Ficou pronto e passou a novela vazio, porque ninguém em Sucupira teve a delicadeza de morrer para a inauguração.
Ao redor dele, as irmãs Cajazeiras suspiravam a cada vírgula. Não importava o que o prefeito dissesse. Importava que fosse ele dizendo, de preferência mais alto.
Nelson Rodrigues ensinou que toda unanimidade é burra. A de palanque, além de burra, é ensaiada. O coro não aplaude a frase, aplaude a pausa. O orador sabe disso e grita mais, porque em Sucupira a razão é medida em decibéis.
O estilo tem data de fabricação: o comício dos anos 1950 e 1960, quando a política chegava de caminhão, a notícia chegava de trem e o eleitor chegava a pé. Era o único espetáculo da cidade, depois da quermesse. Hoje o eleitor assiste ao comício em vídeo de 30 segundos, no ônibus, com o som desligado, entre a receita de bolo de caneca e o vídeo do gato que toca piano. O grito que fazia a praça tremer chega ao celular como legenda automática, cheia de erros de digitação.
E há a devoção. Segundo o SBT News, não há registro de que Lula tenha participado, como presidente ou candidato, de uma celebração no Santuário Nacional de Aparecida. Em 2022, sua campanha avisou que ele não iria para não transformar a festa religiosa em palanque. Pois agora, às vésperas do segundo turno, Lula promete ir a Aparecida na segunda-feira, 12 de outubro, dia da padroeira. Nada contra a fé de ninguém. Só registro que Odorico também ficava muito devoto quando descobria que havia voto no altar.
Dirão que estou exagerando, porque, se o estilo fosse tão velho, não teria dado a Lula mais de 45% dos votos válidos no primeiro turno. É verdade, e o argumento merece resposta. Odorico também se elegia. O comício empolga quem está no comício, e quem está no comício já chegou convencido, de camiseta e bandeirinha.
O problema é que a praça não decide eleição. Na noite de 4 de outubro, o próprio presidente admitiu que estava convencido de que venceria no primeiro turno. Não venceu. Com 100% das seções apuradas, terminou em segundo lugar, com 45,16% dos votos válidos. O coro encheu a praça, e a urna não cantou junto.
Não é uma questão de idade. Lula completa 81 anos dois dias depois do segundo turno, e há muita gente dessa idade que manda áudio, faz Pix e briga no grupo da família com desenvoltura. É uma questão de repertório. O homem que dominou a arte do comício nunca precisou aprender outra, e agora descobre que o palco mudou de lugar enquanto ele ainda batia no microfone perguntando se estava ligado.
Dias Gomes criou Odorico como sátira do político de palanque. Cinquenta e três anos depois, o personagem continua em cartaz, com o mesmo figurino, o mesmo grito e nenhum reajuste no roteiro.
No dia 25 de outubro, o Brasil vai dizer se ainda mora em Sucupira, ou se finalmente chegou aos finalmentes.
Renato Codeco
Contador e licenciado em matemática, com MBA em Finanças, Auditoria e Controladoria pela FGV, e escreve sobre tributação, contas públicas e instituições.