A risada que Orwell previu: A revolução dos companheiros — parte 1

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No fim da sessão de 2 de setembro de 2026, um fotógrafo registrou uma roda de ministros do Supremo Tribunal Federal às gargalhadas. Alexandre de Moraes ri de cabeça para trás.

Ao lado dele, Gilmar Mendes e Cristiano Zanin acompanham o riso.

A cena seria banal em outro dia. Mas, na véspera, tinha vindo a público um relatório da Polícia Federal com mensagens atribuídas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro e enviadas a um número ligado a Moraes. Era a primeira sessão da Corte depois do escândalo. O país discutia a maior crise da história recente do tribunal, e os ministros riam.

A foto viralizou. A resposta do Supremo veio logo depois: o acesso dos fotógrafos à fachada de vidro foi bloqueado, e os profissionais da imprensa foram proibidos de registrar os ministros na saída das sessões. A Corte não reagiu ao que a foto mostrava. Reagiu ao fato de alguém ter visto.

Quem leu A Revolução dos Bichos reconhece essa risada. George Orwell a descreveu em 1945, na última página do livro.

Na fábula, os animais de uma granja se revoltam contra o fazendeiro e tomam o poder em nome da igualdade. Anos depois, numa noite, os bichos se aproximam da casa da fazenda e espiam pela janela.

Lá dentro, os porcos que lideraram a revolução jogam cartas, bebem uísque e fumam charutos com os fazendeiros vizinhos, os mesmos homens que a revolução prometia derrotar. Os animais olham de um rosto para o outro e já não conseguem dizer quem é porco e quem é homem.

Orwell não era um homem de direita. Era socialista. Lutou na Guerra Civil Espanhola ao lado da esquerda e viu, com os próprios olhos, os comunistas alinhados a Stálin perseguirem os seus próprios aliados. Voltou para casa e escreveu a fábula como um aviso.

O livro chegou a ser recusado por editoras, que não queriam ofender a União Soviética, aliada dos ingleses na guerra. O aviso, portanto, não veio dos adversários da esquerda. Veio de dentro dela.

Orwell contou em forma de fábula um roteiro que os historiadores conhecem bem. Em vídeo recente, o comentarista Renato Trezoitão resumiu esse roteiro em quatro fases clássicas: a tomada do poder, os expurgos dos inimigos, a  ontrarrevolução, quando os revolucionários passam a eliminar uns aos outros, e, por fim, a normalização, quando tudo vira rotina.

O esquema tem lastro acadêmico. Em 1938, o historiador americano Crane Brinton comparou as grandes revoluções da era moderna e descreveu um ciclo parecido: começa como febre, piora, atinge o pico e depois cede. A Revolução Francesa é o caso clássico.

Começou prometendo liberdade, passou pelo Terror da guilhotina, mandou para a morte os próprios líderes e terminou nas mãos de um imperador.

Trezoitão vai além e afirma que o Brasil vive hoje a segunda fase. Vale olhar as duas primeiras com calma, com um olho na granja de Orwell e outro na história brasileira.

PRIMEIRA FASE: A TOMADA DO PODER

Na granja, tudo começa com união. Os bichos expulsam o fazendeiro Jones e escrevem na parede do celeiro os mandamentos da nova ordem. O mais importante deles: todos os animais são iguais.

No Brasil, a esquerda revolucionária tentou primeiro o caminho das armas. Nos anos 1960 e 1970, organizações como a ALN, de Carlos Marighella, a VPR, de Carlos Lamarca, e o MR-8 pegaram em armas com o objetivo declarado de instalar no país um regime socialista nos moldes de Cuba.

Em junho de 1968, a VPR lançou um carro-bomba contra o quartel-general do II Exército, em São Paulo. A explosão matou o soldado Mário Kozel Filho, de 18 anos, que estava de sentinela. Em setembro de 1969, o MR-8 e a ALN sequestraram o embaixador americano Charles Elbrick e o trocaram por 15 presos políticos. Nos anos seguintes, outros dois embaixadores seriam sequestrados.

As armas fracassaram. O poder veio décadas depois, pelas urnas, em 2002. A conquista foi legítima, mas a granja tinha mudado de dono, e os novos donos tinham planos para ela.

SEGUNDA FASE: OS EXPURGOS

Na fábula, o primeiro sinal de que algo vai mal é a expulsão de Bola-de-Neve. O porco que disputava a liderança com Napoleão é escorraçado da granja por cães treinados. Dali em diante, tudo o que dá errado é culpa dele: o moinho que desaba, a colheita que falha, o ovo que some. O inimigo ausente vira explicação para tudo.

Toda revolução precisa de inimigos, reais ou imaginários. Na leitura de Trezoitão, os inimigos da vez foram os juízes e procuradores que ousaram condenar Lula.

A Lava Jato foi a maior investigação de corrupção da história do país. Condenou empresários, políticos e um ex-presidente. Em 2021, o STF anulou as condenações de Lula e declarou parcial o juiz que o condenou. Em 2023, o procurador que coordenou a força-tarefa teve o mandato de deputado cassado. As peças que derrubaram Lula foram retiradas uma a uma, e quem as montou passou de acusador a acusado.

Os defensores dessas decisões dizem que houve falhas processuais reais e que o Judiciário apenas as corrigiu. É um argumento que merece ser considerado. Mas o resultado prático é inegável: quem enfrentou o poder ficou pelo caminho, e quem estava no poder voltou a ele.

É aqui que a foto volta a fazer sentido. Na roda de ministros que gargalham estão Cristiano Zanin, ex-advogado pessoal de Lula, e Flávio Dino, ex-ministro da Justiça do atual governo, ambos indicados ao Supremo pelo presidente em 2023. Na granja de Orwell, os animais também levaram tempo para perceber quem estava sentado à mesa.

Mas a história das revoluções ensina uma lição ainda mais dura. Depois de devorar os inimigos, a revolução começa a devorar os próprios filhos. É disso que trata a segunda parte desta série de artigos.

Renato Codeco

Contador e licenciado em matemática, com MBA em Finanças, Auditoria e Controladoria pela FGV, e escreve sobre tributação, contas públicas e instituições.

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