Os ungidos: quando a política vira disputa entre bons e maus - Série O ópio dos intelectuais — parte 2

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Discordar sobre os juros, o tamanho do Estado ou a política de segurança deveria ser tão comum quanto discordar sobre o melhor caminho para chegar a algum lugar. No Brasil de hoje, não é. Quem diverge raramente é tratado como alguém que chegou a outra conclusão. É tratado como alguém de má índole: insensível, egoísta, machista, fascista.

Por que tanta gente instruída passou a tratar a discordância política como defeito de caráter?

No primeiro artigo desta série, vimos que o francês Raymond Aron deu nome a uma parte da resposta: o mito da esquerda, a crença de que existe um lado certo da história e de que quem está nele tem razão antes mesmo de abrir a boca. Este artigo mostra o que três estudiosos encontraram ao examinar esse modo de pensar, e por que ele custa caro justamente para quem não o escolheu.

Em 1995, o economista americano Thomas Sowell publicou The Vision of the Anointed, lançado no Brasil em 2022 como Os ungidos. Nascido em 1930 em Gastonia, na Carolina do Norte, e criado no Harlem, em Nova York, Sowell foi marxista na juventude. A mudança começou por volta de 1960, no Departamento do Trabalho dos Estados Unidos, onde trabalhou primeiro como estagiário e depois como economista. Ali, ao estudar os efeitos do salário mínimo sobre o emprego na indústria açucareira de Porto Rico, viu suas convicções baterem de frente com os dados. Foi o início da ruptura com o marxismo e da defesa posterior da economia de mercado. Sowell conhecia por dentro o pensamento que passou a criticar.

No livro, ele descreve dois grupos. De um lado, os ungidos: pessoas que se veem como esclarecidas, compassivas e moralmente acima da média. Do outro, o povo comum, que eles enxergam como ignorante ou egoísta sempre que discorda.

A marca dos ungidos, segundo Sowell, é avaliar uma política pela intenção declarada, e não pelos resultados. Uma lei que promete proteger os pobres é boa porque promete. Se der errado, a explicação raramente é a ideia: é a falta de verba, a resistência dos adversários ou a sociedade que não estava preparada.

Esse raciocínio protege a política de qualquer cobrança. Quem critica não está discutindo números: está "contra os pobres". E a avaliação dos resultados, que deveria ser o centro do debate, desaparece.

Como contador, conheço bem a diferença entre intenção e resultado. No fim do exercício, o balanço fecha ou não fecha. Boa intenção não entra no ativo, e nenhum auditor aprova uma conta porque o gestor tinha bom coração.

A superioridade moral não é só impressão de quem está do outro lado. Ela foi medida.

O psicólogo social Jonathan Haidt, hoje professor da Universidade de Nova York, passou anos estudando como as pessoas formam seus julgamentos morais. Em The Righteous Mind, de 2012, publicado no Brasil como A mente moralista, ele descreve seis "fundações morais": cuidado, justiça, lealdade, autoridade, santidade e liberdade. Segundo suas pesquisas, os progressistas dão peso sobretudo a cuidado e justiça, enquanto os conservadores distribuem o peso entre todas.

No mesmo ano, Haidt e os pesquisadores Jesse Graham e Brian Nosek publicaram na revista científica PLoS ONE um estudo com cerca de 2 mil americanos. Cada participante respondeu a um questionário moral três vezes: como ele mesmo, como um progressista típico e como um conservador típico.

Conservadores e moderados previram as respostas do outro lado com mais precisão do que os progressistas. Os que mais erraram foram os que se declaravam muito progressistas.

O dado tem um peso especial porque Haidt se definia como progressista quando começou a pesquisa. Ele conta no livro que os resultados mudaram a forma como enxergava o outro lado.

A lição que tiro é simples. Quem não entende o que move o adversário tende a enxergá-lo não como diferente, mas como mau.

Nem todo mundo que se declara de esquerda é igual, e a diferença importa.

Em 1951, o americano Eric Hoffer publicou The True Believer, "o verdadeiro crente". Hoffer foi estivador no porto de São Francisco e filósofo autodidata, sem diploma universitário. Ao estudar o nazismo, o comunismo e os movimentos religiosos, identificou três figuras que se repetem nos movimentos de massa. Os homens de palavras criam a causa e lhe dão uma linguagem. Os fanáticos a conduzem com fervor. Os homens de ação a consolidam e, segundo Hoffer, são eles que tendem a ocupar o poder quando o movimento vence.

Na minha avaliação, a esquerda brasileira tem dois tipos que correspondem a essa divisão. Os românticos acreditam de verdade: muitas vezes são jovens e idealistas, gente que quer um mundo mais justo e encontrou ali uma resposta.

Os oportunistas usam a causa como carreira: o cargo, a verba, o patrocínio, a vitrine. O romântico merece respeito, mesmo quando está errado, porque erra de boa-fé. Já o oportunista vive da crença alheia.

Os franceses criaram nos anos 1980 uma expressão para um fenômeno vizinho: gauche caviar, a esquerda caviar. Os americanos dizem limousine liberal, e os ingleses, champagne socialist. No Brasil, Rodrigo Constantino popularizou a versão local no livro Esquerda caviar, de 2013, e as redes sociais criaram a sua própria: o "comunista de iPhone", que denuncia o capitalismo pelo celular de última geração.

Ficar só na acusação de hipocrisia, porém, deixa o argumento fraco. Qualquer um pode responder que vive no sistema que critica, como todo mundo.

Há uma forma mais séria de ver o problema. O escritor americano Rob Henderson, que cresceu em lares adotivos na Califórnia e depois estudou em Yale e Cambridge, criou por volta de 2019 o conceito de crenças de luxo. São ideias que dão prestígio social a quem as defende, mas cujo custo recai sobre os mais pobres.

Os exemplos do próprio Henderson são precisos. Há quem diga que a família com pai e mãe não faz diferença enquanto cria os filhos num casamento estável. E há quem defenda cortar verbas da polícia morando num bairro onde o crime é raro. No Brasil, o equivalente mais próximo é quem defende o desarmamento do cidadão morando em condomínio com segurança armada privada. Para essas pessoas, a ideia custa pouco e rende aplausos. Para quem vive na periferia, a mesma ideia pode custar caro.

O problema, portanto, não é o rico de esquerda ter conforto. É que a conta das ideias dele é paga por outra pessoa.

A objeção mais forte a este artigo é que a superioridade moral não tem dono.

Há conservadores que também tratam quem discorda como inimigo, e o próprio Haidt alerta para isso. Além disso, os estudos citados medem tendências médias de americanos, não a esquerda brasileira.

As duas observações são justas. Mas o argumento aqui não é que um lado tem virtudes e o outro, vícios. É sobre um modo de pensar que julga pela intenção, enxerga o adversário como mau e transfere aos outros o custo das próprias ideias. Esse modo de pensar pode surgir em qualquer lado. Os dados de Haidt mostram apenas onde, ao menos nos Estados Unidos, o erro de leitura do adversário é maior.

Quem se julga dono do bem precisa de um mal para combater. E, às vezes, essa necessidade leva a escolhas que desafiam a lógica: absolver ditaduras que falam a língua certa e condenar democracias que falam a língua errada.

Esse é o tema do próximo artigo da série.

Até lá, fica uma sugestão. Na próxima vez que alguém virar "gente do mal" numa discussão sobre política, vale perguntar o que foi julgado ali: o argumento ou a pessoa.

Renato Codeco

Contador e licenciado em matemática, com MBA em Finanças, Auditoria e Controladoria pela FGV, e escreve sobre tributação, contas públicas e instituições.

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