Nomeações de governador interino do RJ já superam exonerações, afirma deputado: “Governo falso moralista” (veja o vídeo)
15/10/2026 às 08:17 Política
O governo interino de Ricardo Couto começa a enfrentar críticas pela mudança de ritmo na política de cortes que marcou o início de sua gestão. Depois de uma onda de exonerações que ultrapassou 6 mil cargos comissionados e do discurso de austeridade que o colocou no centro da atenção nacional, as nomeações voltaram a superar as demissões nas últimas semanas — enquanto um contrato de R$ 97,7 milhões com a Fundação Getulio Vargas, sem licitação, provocou questionamentos na Assembleia Legislativa do Rio.
O descompasso entre o discurso e a prática aparece nas próprias publicações do Diário Oficial. A rodada desta quarta-feira (14) manteve a tendência de nomeações acima das exonerações, com movimentações em áreas estratégicas como a Secretaria de Fazenda e a Secretaria de Ciência e Tecnologia. Para a oposição, o ritmo de março e abril, quando o desembargador aposentado chegou a exonerar 638 comissionados em uma única semana, ficou no passado.
O CONTRATO BILIONÁRIO COM A FGV
No centro da polêmica está um contrato de R$ 97,7 milhões firmado com a Fundação Getulio Vargas, sem licitação, por meio de inexigibilidade. O acordo prevê consultoria e apoio técnico à Secretaria de Estado de Educação por 14 meses, com ações voltadas à gestão das escolas estaduais, à redução da evasão escolar e à capacitação de professores.
A contratação é criticada por parlamentares que apontam um contrassenso: o governo que cortou milhares de cargos comissionados em nome da economia despacha agora quase R$ 100 milhões com uma única fundação, sem processo competitivo. O questionamento ganha peso em um estado com contas frágeis e onde a própria Secretaria de Educação já enfrentou denúncias de sobrepreço em contratações emergenciais na área da educação especial, que deixaram alunos sem atendimento no início do ano.
"GOVERNO FALSO MORALISTA": AS CRÍTICAS DE ALAN LOPES
Na sessão plenária desta quarta-feira, o deputado Alan Lopes (PL) atacou com dureza a condução do governo interino e acusou a gestão de abandonar o discurso inicial de moralização das contas públicas.
"Se a partir do próximo ano o estado estiver quebrado, sem condições de pagar, é culpa desse governo falso moralista", declarou o parlamentar, em discurso direto ao Palácio Guanabara.
O deputado também questionou o contrato com a FGV e comparou a atual administração à gestão de Cláudio Castro, afastado no início do ano. Para Lopes, o governo que criticava o peso dos cargos comissionados está repetindo as práticas que antes condenava — trocando apenas os nomes que ocupam as cadeiras.
O parlamentar não está sozinho no alerta fiscal. Na última semana, ele já havia criticado um repasse de R$ 462,8 milhões do Executivo ao Tribunal de Justiça do Rio, chegando a propor um decreto legislativo para suspender a liberação do crédito — sinal de que a oposição na Alerj passou a fiscalizar cada movimento do governo interino, do Orçamento aos contratos.
A IMPRENSA NO CENTRO DO DISCURSO
Alan Lopes reservou um trecho de seu pronunciamento para criticar a própria imprensa.
"A imprensa deveria se envergonhar de não publicar essas verdades. Porque não adianta depois ficar chorando que o estado está quebrado", declarou o deputado, cobrando dos veículos de comunicação mais espaço para os dados que circulem nos bastidores da Alerj e do Palácio Guanabara.
A crítica ecoa em um momento em que levantamentos independentes — como o do portal Tempo Real, que acompanha diariamente o saldo de nomeações e exonerações no Diário Oficial — têm sido a principal fonte de acompanhamento público da política de pessoal do estado.
A TESOURA EM NÚMEROS
A trajetória da gestão Couto mostra a inversão em curso. Em abril, o governo exonerava centenas por semana e prometia economia de R$ 30 milhões por ano com uma única rodada de cortes. Em junho, chegou a publicar 216 exonerações em um único dia. Até agosto, o total de cargos comissionados extintos passava de 6 mil, com projeção de economia de R$ 221 milhões até dezembro.
Nas últimas semanas, porém, os saldos diários passaram a registrar mais nomeações do que demissões, com reforços em órgãos como o Detran, a Detro, o Turismo, o Desenvolvimento Econômico e os Direitos Humanos. Ao mesmo tempo, servidores exonerados pelo Executivo começaram a reaparecer em cargos de gabinetes de deputados estaduais na Alerj — o que a oposição aponta como uma burla ao espírito da reforma.
O QUE ESTÁ EM JOGO
A resposta do governo Couto aos ataques deve se concentrar na defesa técnica do contrato com a FGV e na qualidade técnica das nomeações recentes, que seguem regras mais rígidas do que as da gestão anterior. No plenário da Alerj, porém, a oposição promete transformar a tesoura que cortava cargos em um megafone contra o que chama de incoerência — e o contrato bilionário sem licitação, o alvo mais visível dessa campanha.
O estado que assistiu a uma das maiores reformas administrativas de sua história agora verifica, item por item, se a promessa de austeridade sobrevive ao contato com o poder real. E a tesoura, que antes era símbolo, começa a ser apresentada pelos críticos como cega: corta de um lado, recostura do outro.
Veja o vídeo:
da Redação