O general ressentido: Santos Cruz ressurge e dá palanque para a esquerda

Ler na área do assinante

Siga o Jornal da Cidade Online no Google

Acompanhe as principais notícias do momento direto nos resultados de busca.

Adicionar

Em ano eleitoral, é preciso redobrar a atenção às matérias que ganham destaque, sobretudo às vésperas das eleições. O vídeo que circula nas redes sociais com o general da reserva Carlos Alberto dos Santos Cruz é um exemplo disso. Mas o que chama a atenção não é apenas o discurso do general, e sim a presença do ator Wagner Moura, conhecido por suas posições à esquerda, ao lado do jornalista Bruno Torturra.

A pergunta é inevitável: por que figuras identificadas com a esquerda dariam tanto espaço a um general que integrou o governo Bolsonaro? Na minha interpretação, Santos Cruz tornou-se uma voz conveniente para a oposição, especialmente neste momento eleitoral, em que suas críticas ao ex-presidente também repercutem sobre seu filho, Flávio Bolsonaro.

No vídeo, o general procura assumir a posição de analista isento, afirmando que a sociedade brasileira está “doente” e dominada pelo “fanatismo”. Mas que conhecimento especializado lhe permite fazer tal diagnóstico? E por que suas críticas parecem se concentrar na extrema direita, enquanto trata o outro campo simplesmente como esquerda? Essa diferença de tratamento merece uma reflexão sobre sua imparcialidade.

E, por falar em imparcialidade, convém lembrar sua trajetória. Afinal, quem era Santos Cruz antes de Jair Messias Bolsonaro? Quem conhecia seu nome fora dos círculos militares? Foi sua participação naquele governo que lhe proporcionou projeção junto ao grande público. Após sua demissão, passou a fazer críticas contundentes ao ex-presidente. Na minha avaliação, o rompimento político parece ter deixado um ressentimento que ainda se manifesta em suas declarações. Sem Bolsonaro, quem estaria ouvindo Santos Cruz?

Há também uma contradição que considero significativa. A formação militar tem como fundamentos a disciplina, a hierarquia e a lealdade institucional. Embora a divergência política seja um direito, causa estranheza que alguém formado nesses princípios mantenha uma oposição tão persistente ao antigo aliado. Para mim, essa postura se aproxima mais de uma deslealdade pessoal do que de uma crítica verdadeiramente isenta.

Outro aspecto está no conteúdo de suas declarações. Ao criticar a aproximação do Brasil com os Estados Unidos e levantar o argumento da perda de soberania, Santos Cruz adota uma retórica frequentemente utilizada pela esquerda. Discordo dessa interpretação. Relações diplomáticas e alinhamentos estratégicos entre países não significam, necessariamente, submissão ou renúncia à soberania nacional.

Em plena disputa eleitoral, Santos Cruz reaparece dando palanque à esquerda. A farda não garante isenção, e a história registra tanto a lealdade quanto as rupturas. Santos Cruz fez sua escolha e, na minha avaliação, tornou-se um aliado de ocasião da esquerda.

Foto de Bernadete Freire Campos

Bernadete Freire Campos

Cidadã brasileira, especialista em neurociência, estudiosa do comportamento humano no contexto político.

Ler comentários e comentar