Os porcos à mesa: A revolução dos companheiros — parte 2

Ler na área do assinante

Na primeira parte desta série, uma foto de ministros do Supremo às gargalhadas nos levou à última página de A Revolução dos Bichos, quando os animais espiam pela janela e já não distinguem porcos de homens. Seguindo o roteiro clássico das revoluções, resumido pelo comentarista Renato Trezoitão, vimos as duas primeiras fases: a tomada do poder e os expurgos dos inimigos.

Falta responder à pergunta mais incômoda: o que uma revolução faz com os próprios filhos quando já não tem inimigos para devorar?

TERCEIRA FASE: A REVOLUÇÃO DEVORA SEUS FILHOS

Na granja de Orwell, a resposta vem em duas cenas. Na primeira, animais são levados diante de Napoleão, “confessam” crimes que ninguém viu e são mortos ali mesmo pelos cães. Na segunda, Sansão, o cavalo que mais trabalhou pela revolução e cujo lema era “trabalharei ainda mais”, fica velho e é vendido ao matadouro. A lealdade não o salvou.

A esquerda armada brasileira conheceu essa lógica de perto. Em 1971, Márcio Leite de Toledo, militante da ALN, de 26 anos, discordava das ações armadas da organização e se recusou a deixar o país. A direção decidiu eliminá-lo. Ele foi chamado para um encontro e morto com oito tiros disparados pelos próprios companheiros. O jornalista Lucas Ferraz, que reconstituiu o caso no livro Injustiçados, resume: Márcio foi condenado “não pelo que fez, mas pelo que poderia fazer”. Não foi um caso isolado. O livro relata outras execuções de militantes por tribunais revolucionários até 1973.

Hoje, a revolução não mata os filhos. Expulsa-os da granja.

Em dezembro de 2003, menos de um ano depois da posse de Lula, o diretório nacional do PT expulsou a senadora Heloísa Helena e os deputados federais Luciana Genro, Babá e João Fontes. O motivo foi o voto contra a reforma da Previdência defendida pelo governo.

Foram expulsos por fazer, no poder, o que o PT pregava antes de chegar a ele.

Em setembro de 2017, foi a vez de Antonio Palocci, fundador do partido e ex-ministro da Fazenda de Lula. Depois que ele acusou Lula em depoimento à Justiça, o PT abriu um processo para expulsá-lo. Palocci se antecipou, pediu a desfiliação e deixou na carta uma pergunta que Orwell poderia ter escrito: o PT seria um partido ou “uma seita guiada por uma pretensa divindade”?

Agora compare com o que aconteceu em outubro de 2012. Um dia depois de condenados pelo Supremo no mensalão, José Dirceu e José Genoino foram aplaudidos no diretório nacional do partido. Genoino foi recebido aos gritos de “guerreiro do povo brasileiro”.

A regra da granja está aí. Quem vota contra o governo é expulso. Quem fala contra o chefe vira traidor. Quem é condenado por corrupção, mas se mantém fiel, vira herói. O que se pune não é o crime. É a deslealdade.

QUARTA FASE: A NORMALIZAÇÃO

No último capítulo do livro, os porcos passam a andar sobre duas patas. Os mandamentos pintados na parede do celeiro desaparecem e dão lugar a um só: todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros. A revolução não acabou. Virou rotina.

Em setembro de 1993, em Ariquemes, Rondônia, Lula disse que havia no Congresso “uma maioria de uns 300 picaretas que defende apenas seus próprios interesses”. Doze anos depois veio o mensalão, e o Supremo concluiria que o governo pagou parlamentares em troca de apoio. Os picaretas não tinham sido derrotados. Tinham sido contratados.

A mesa continua posta. Em fevereiro de 2025, Lula demitiu a ministra da Saúde, Nísia Trindade. Entre os motivos relatados pela imprensa estava a dificuldade dela em lidar com o centrão, que queria mais controle sobre o orçamento da pasta. Segundo o Poder360, a saída facilitaria essa relação. O lugar de Nísia ficou com Alexandre Padilha, até então o articulador político do governo. A granja precisava de mais cadeiras à mesa.

A OBJEÇÃO

Um defensor do partido dirá que todo partido expulsa quem desobedece e que disciplina partidária não é expurgo. Tem razão em parte. Partidos têm programas, e quem vota sistematicamente contra eles pode ser afastado.

Mas o problema não é expulsar. É o critério. Em 2003, saíram os que defendiam o programa original do PT. Em 2012, ficaram, aplaudidos, os condenados por corrupção. Um partido que expulsa a coerência e aplaude a condenação não está praticando disciplina. Está escolhendo quem pode sentar à mesa.

Também é justo lembrar que o regime militar matou. A Comissão Nacional da Verdade reconheceu 434 mortos e desaparecidos por ação do Estado. Nada neste artigo absolve a repressão. O ponto aqui é outro: a lógica interna dos movimentos que prometem libertação e acabam punindo justamente quem leva a promessa a sério.

A JANELA

Orwell terminou o livro com os bichos do lado de fora, olhando pela janela. Eles não podiam fazer nada, mas ao menos podiam ver.

No Brasil de 2026, os ministros riram, um fotógrafo registrou a cena, e o Supremo respondeu fechando a janela.

Na granja de Orwell, os bichos ao menos podiam olhar. Resta saber por quanto tempo um país aceita assistir à festa apenas pela fresta.

Renato Codeco

Contador e licenciado em matemática, com MBA em Finanças, Auditoria e Controladoria pela FGV, e escreve sobre tributação, contas públicas e instituições.

Ler comentários e comentar
Ler comentários e comentar

Nossas redes sociais

Facebook

Siga nossa página

Seguir página

Twitter

Siga-nos no Twitter

Seguir

YouTube

Inscreva-se no nosso canal

Inscrever-se

Instagram

Siga-nos no Instagram

Seguir

Telegram

Receba as notícias do dia no Telegram

Entrar no canal

Rumble

Inscreva-se no nosso canal

Inscrever-se

Gettr

Siga-nos no Gettr

Seguir

Truth

Siga-nos no Truth

Seguir