Depois do último debate presidencial, fiquei com a cabeça tão embaralhada que me lembrei de uma anedota envolvendo dois bêbados que se encontraram no meio de uma praça. Um perguntou: - Que horas são? \ O outro respondeu: - Quarta-feira! \ O primeiro, sem demonstrar a menor surpresa, concluiu: \ - Ah, bom! É aqui que eu salto!
Pronto! Está explicada a situação política brasileira, não a entendi, evidentemente, mas descobri que, para acompanhar certos acontecimentos nacionais, não é necessário compreender a pergunta, conhecer a resposta ou sequer estar na estação correta, bastando apenas ter a convicção de que se sabe para onde está indo, mesmo quando o trem está parado, o maquinista está bêbado e os passageiros discutem quem é o dono dos trilhos e foi nesse estado de perplexidade que ouvi o encerramento do debate pelo nosso presidente, que, segundo a interpretação que me ocorreu naquele momento, parecia resumir sua disposição numa frase assustadora: “VOU ACABAR COM O BRASIL!”
Naturalmente, posso ter interpretado mal, talvez a intenção fosse dizer que acabaria com os problemas, com a pobreza, com as desigualdades, com a fome, com a corrupção ou com qualquer outra desgraça que há décadas enfeita os discursos eleitorais, mas, convenhamos, depois de tantos anos de promessas, a língua portuguesa deveria receber um adicional de insalubridade por trabalhar no Brasil e aqui, uma frase pode significar exatamente o contrário do que parece, uma promessa pode ser uma ameaça e uma ameaça pode ser apresentada como prova de amor à democracia.
Na minha interpretação satírica, o subtexto seria outro: - Se o Brasil continuar sendo meu, tudo bem. Se deixar de ser, que não seja de mais ninguém!
É claro que não estou afirmando que essas foram as palavras ou a intenção literal do presidente, mas apenas exercitando aquele esporte nacional que ainda não foi regulamentado pelo Ministério do Absurdo: tentar descobrir o que os políticos querem dizer quando dizem aquilo que dizem e, pelo visto, é um esporte de alto risco intelectual.
Como se a primeira confusão não bastasse, eis que surgem duas correntes de raciocínio político, cada qual mais tranquilizadora do que a outra partindo as duas do partido governista, de um lado, os que alardeiam que, se Flávio Bolsonaro ganhar, entregará o Brasil aos Estados Unidos, do outro, os que sustentam que, se Lula ganhar, os Estados Unidos poderão tirá-lo do governo e tomar conta do Brasil.
Parem com isto BABACAS, que o Brasil precisa menos de SALVADORES DA PÁTRIA E MAIS SERVIDORES DA PÁTRIA, menos ameaças apocalípticas, mais propostas verificáveis. Menos culto à personalidade, mais respeito às ide instituições. Menos guerra de narrativas, mais resultados. Menos políticos convencidos de que o país não sobrevive sem eles e mais cidadãos conscientes de que nenhum governante é maior do que a nação que representa e, se alguém voltar a afirmar que determinado candidato entregará o Brasil aos Estados Unidos, ou que os Estados Unidos virão tomar o país caso outro vença, que apresente provas, fatos e mecanismos concretos, em vez de transformar especulações em certezas para consumo eleitoral.
A soberania brasileira é assunto sério demais para servir de espantalho de campanha e continuo achando que sua força está justamente no humor exagerado, pois nos obriga a olhar para nossas próprias incompetências sem a proteção confortável das desculpas patrióticas.
José H.C. Abreu.
Articulista