Por que a militância de esquerda parece tão infeliz?
20/10/2026 às 14:01 Opinião
Quem convive com militantes de esquerda conhece a cena. Um almoço de família vira tribunal. Uma piada vira denúncia. Um feriado vira pauta.
Lembro de um almoço de domingo em que a conversa começou com futebol, passou pela reforma da casa e chegou à sobremesa. Bastou alguém comentar, entre risadas, que a vida estava difícil, mas que pelo menos naquele dia ninguém precisava falar de política. Foi o suficiente. Em poucos minutos, a conversa já girava em torno de privilégios, desigualdade, preconceito e da responsabilidade moral de cada um diante dos problemas do mundo. Quem tentou mudar de assunto foi acusado de alienação. Quem fez uma brincadeira foi repreendido por reproduzir estruturas de opressão. No fim, a sobremesa esfriou, o ambiente pesou e todos saíram dali um pouco mais irritados do que chegaram. O curioso é que ninguém parecia ter se divertido — nem mesmo quem havia vencido cada discussão.
Durante anos achei que fosse impressão minha. Não é. Existe uma pergunta séria por trás disso: por que tanta gente que diz lutar por um mundo melhor parece tão pouco feliz no mundo que tem?
Os números existem e são antigos. Desde 1972, o General Social Survey, da Universidade de Chicago, pergunta aos americanos se se consideram muito felizes, razoavelmente felizes ou pouco felizes. O economista Sam Peltzman analisou quase cinquenta anos dessas respostas. Os conservadores aparecem 9 pontos percentuais mais felizes que os progressistas. O resultado se repete fora dos Estados Unidos: os psicólogos Jaime Napier e John Jost, insuspeitos de simpatia pela direita, encontraram o mesmo padrão em amostras de dez países.
Entre os jovens, a distância cresce. Pesquisadores da Universidade de Columbia acompanharam mais de 86 mil alunos do último ano do ensino médio entre 2005 e 2018. Os sintomas depressivos subiram em todos os grupos, mas subiram mais rápido entre as moças que se declaravam de esquerda.
Na minha opinião, a explicação está no tipo de lente que a militância usa para olhar a vida. Se tudo é estrutura, opressão e sistema, nada depende de mim. A conta nunca fecha e o culpado está sempre do lado de fora. Os psicólogos Barry Schlenker, John Chambers e Bonnie Le chegaram a algo parecido em 2012. Os conservadores pontuam mais alto em traços associados à saúde mental: senso de responsabilidade pessoal, otimismo e crenças morais que transcendem o indivíduo. Quem acredita que pode mudar a própria vida tende a viver melhor do que quem espera que a mudem por ele.
Daí vem também o que eu chamo de “chatice”, e aqui falo de experiência, não de estatística. Quando tudo é político, nada é leve. A conversa vira patrulha, o humor vira suspeita e a divergência vira defeito de caráter.
A objeção mais séria é a do próprio Jost. Para ele, o conservador é mais feliz porque aceita a desigualdade como justa e por isso não sofre com ela.
O progressista seria infeliz por enxergar melhor as injustiças. O argumento é elegante, mas tem dois problemas. Primeiro, essa explicação não se sustentou quando outros pesquisadores tentaram reproduzi-la. Segundo, boa parte da diferença de felicidade se explica por casamento e prática religiosa, que são mais comuns entre conservadores. Ou seja: família, fé e responsabilidade pessoal fazem bem, e quem as despreza paga um preço.
Isso não é insensibilidade com o sofrimento alheio. É método de vida. Não escrevo isso com desprezo. Tenho amigos e parentes de esquerda que são pessoas generosas e preocupadas com o próximo. Mas fica a pergunta: quem passa a vida inteira lutando contra o mundo ainda consegue encontrar alegria nele?
Renato Codeco
Contador e licenciado em matemática, com MBA em Finanças, Auditoria e Controladoria pela FGV, e escreve sobre tributação, contas públicas e instituições.